Cultura

Pedro Jóia: “Já amei e odiei a guitarra ao mesmo tempo”

Pedro Jóia é um dos mais talentosos guitarristas portugueses. Começou no flamenco, depois apaixonou-se pelo fado e abriu a sua guitarra ao mundo, com paragens no Brasil e no Magrebe. Trabalhou com Ney Matogrosso, é colaborador frequente de Mariza e Ricardo Ribeiro e vê em Paco de Lucia um farol que o guia pelos “mares revoltos do sonho de ser guitarrista”. Amanhã, quinta-feira, dia 22, às 21h30, toca no Conservatório de Música de Coimbra.

Vê-lo tocar a solo ao vivo em Portugal é um acontecimento cada vez mais raro. Porquê?

A música e os músicos portugueses não vivem propriamente um momento feliz. O desinvestimento continuado na cultura em geral e na música instrumental em particular tem estas consequências. Temos que ir lá para fora procurar trabalho e públicos que estejam dispostos a ouvir-nos.

Como será o concerto de amanhã?

Serei apenas eu e a minha guitarra.

Há reportórios inevitáveis, especialmente estando em Coimbra, como Carlos Paredes? Toca sempre Paredes?

Carlos Paredes foi um dos músicos que mais me impressionou. Não só pela sua música, mas também pela forma apaixonada como tocava, pela sua intervenção social, pelo seu pensamento e integridade. Toco sempre a sua música, em Portugal e pelo mundo fora pois ela é uma das marcas mais notáveis da nossa identidade.

Actua pelo mundo inteiro. Há um especial cuidado em construir um alinhamento para o público nacional e internacional? 

Por vezes altero uma ou outra peça, mais por crença pessoal do que propriamente por outra questão. Muitas vezes decido em cima do palco, olhando para o público enquanto falo ou afino a guitarra. Nunca faço dois espectáculos iguais. Cada concerto tem a sua história e dinâmica próprias que dependem da sala, do público, do meu estado de espírito…

Portugal é um bom palco para um instrumentista ou é algo a que o público nacional ainda não está habituado? 

A música instrumental, em Portugal, não é nem nunca foi prestigiada e acarinhada. Como diz um amigo, instrumentista também, somos um mal necessário… Excluo alguns instrumentistas clássicos, que são devidamente apoiados institucionalmente, mais por ser chique do que propriamente por reconhecerem o real valor do seu trabalho. Digo tudo isto um pouco a brincar, mas infelizmente não deixa de ser verdade.

O último disco que lançou em nome próprio, “À Espera de Armandinho”, saiu há já sete anos. Porque não voltou a gravar? Há perspectiva de outro disco para breve?  

Sim, há. Na verdade, tenho um disco pronto para editar este ano. É um disco gravado ao vivo, em Lisboa, com uma Orquestra de Câmara e será editado muito brevemente.

Tem uma agenda preenchida com concertos e participações em disco com outros artistas. O que retira de cada colaboração? 

Trabalho frequentemente com vários artistas, sobretudo cantores: Mariza, Ricardo Ribeiro, Ney Matogrosso, com quem trabalhei muito tempo no Brasil. São experiências sempre interessantes e enriquecedoras. Cada artista tem uma concepção muito própria do que é o palco e a música. Existe sempre uma troca muito intensa de conhecimento e de vivência artística. Nós somos fruto não só do talento e trabalho mas também da troca, do que aprendemos e ensinamos.

Iniciou o seu percurso no flamenco e chegou a conhecer Paco de Lucia. Qual foi a maior herança que o guitarrista espanhol deixou ao mundo? 

Paco de Lucia foi mais do que uma influência. Foi o farol que sempre me guiou pelos mares revoltos do sonho de ser guitarrista. A minha vida mudou quando o ouvi pela primeira vez. Ali, descobri um caminho, uma verdadeira paixão, um sentido para a vida. Pessoalmente estive duas ou três vezes com ele e tive ocasião de lhe expressar essa gratidão. A sua morte prematura foi devastadora para o mundo da guitarra. 

Paco de Lucia costumava dizer que a guitarra é “uma filha da mãe”, que a detestava porque era uma “relação amor-ódio”. Sente o mesmo?

Se existe, ou existiu alguém, que possa dizer as maiores barbaridades ou o que seja sobre a guitarra, esse alguém é Paco de Lucia. A sua relação com a guitarra foi tal que ninguém neste mundo a poderá replicar.

Ambiciona atingir um patamar semelhante?

Não ambiciono e seria pura loucura fazê-lo. Sei muito bem qual o meu lugar e contento-me em apreciar a pureza da excelência e do génio, lá em cima, desde o patamar em que me encontro.

Ao fim destes anos todos como descreve a sua relação com a guitarra?

A guitarra é uma constante na minha vida desde a infância. Não sei o que teria sido a minha vida sem ela. É um instrumento duro, ingrato mas incrível, maravilhoso e prodigioso. Ela é a síntese de muitos séculos de instrumentos cordofones, de muitas culturas e linguagens musicais.  Já a amei e odiei ao mesmo tempo.

alexandra.ho@sol.pt