Cultura

Do desconforto nascem fados

Quando o convite para fazer um espectáculo de fado no festival Caixa Alfama surgiu, o primeiro instinto de Ana Bacalhau foi pensar que não era capaz. O respeito profundo que tem pelo género musical, herança de família adquirida durante a adolescência, e os receios em desvirtuar uma arte que tanto admira justificavam os receios. A hesitação acabou por ser superada analisando a experiência adquirida ao longo destes oito anos de Deolinda, que lhe ensinaram que o desconforto é uma arma fundamental para criar. “Qualquer pessoa que trabalha em arte tem de se sentir minimamente desconfortável. É desse conflito e dessas inseguranças que nascem coisas interessantes”, diz ao SOL a cantora.

Ana Bacalhau começou então por escolher um repertório familiar, onde os mestres do fado que conheceu através do pai ocupam lugar de destaque. “São nomes que foram importantes para mim e para a minha família, como a Amália Rodrigues, Hermínia Silva, Alfredo Marceneiro, Lucília do Carmo, Maria Teresa de Noronha”, enumera, revelando que a atracção que sentiu na adolescência pelo fado estava intimamente ligada às dores de crescimento, físicas e emocionais, normais nessa fase da vida. “Como qualquer adolescente que cresceu nos anos 90, estava desligada da música portuguesa. Mas quando comecei a cantar, pelos meus 16 anos, fui ouvir os discos do meu pai e encontrei o Zeca Afonso, a Amália, a Hermínia, e percebi que, à semelhança de uns Nirvana, as minhas dores também encontravam eco naqueles poemas”.

Por ser uma estreia absoluta, a vocalista dos Deolinda rodeou-se de músicos que lhe são próximos - como o marido, José Pedro Leitão, no contrabaixo, Bernardo Couto, na guitarra portuguesa, e Pedro Soares, na viola -, e 'afadistou' dois temas inéditos para o espectáculo: 'Chorei', uma composição sua, e outra que lhe foi oferecida por Márcia. Sinal de que está pronta para se aventurar a solo? “Ainda não me sinto preparada para isso, mas talvez possa acontecer um dia”, responde, frisando que a concretizar-se será sempre em paralelo com os Deolinda.

Enquanto as certezas absolutas não chegam, encara estes espectáculos como “minilaboratórios” para perceber quem é que pode ser em nome próprio e qual é a sua música longe dos Deolinda. O concerto de hoje à noite realiza-se no Grupo Sportivo Adicense, em Alfama, a par de Ricardo Ribeiro, Katia Guerreiro e Ana Moura e António Zambujo no palco principal. Amanhã é a vez de Carminho e Jorge Fernando serem os protagonistas desta segunda edição do Caixa Alfama. 

alexandra.ho@sol.pt