demoramo-nos no pátio, a apreciar o edifício. o convento de são francisco de paula, fundado em 1717, ocupou-o até à extinção das ordens religiosas. em 1835 recebeu o real colégio militar e, em 1848, depois da transferência deste para o convento de mafra, foi a vez do manicómio, por ordem do primeiro-ministro, joão oliveira e daun (1790-1876). à direita de quem transpõe a entrada mais nobre, uma lápide em mármore evoca-o: «ao marechal duque de saldanha, fundador do primeiro hospital de alienados (rilhafoles)». foi, à época, uma iniciativa pioneira, que, a partir de 1892, conheceu um novo impulso sob a direcção do eminente clínico miguel bombarda, tanto sob o ponto de vista terapêutico como da organização. «teem o seu logar os melancolicos como o teem os epilepticos, os alcoolicos, os agitados, e entre estes os muitos que para lá teem vomitado as cellas mudas e lugubres da penitenciaria», descrevia um repórter da revista brasil-portugal em 1899.
por volta das 11 da manhã de segunda-feira, 3 de outubro de 1910, o director de rilhafoles desceu dos seus aposentos, no segundo andar, para o gabinete no piso térreo. pelo enorme prestígio de que gozava, bombarda era imprescindível às hostes republicanas: não só servia de elo de ligação entre a maçonaria e a carbonária como se tinha comprometido a liderar os grupos civis que deveriam sublevar o quartel de artilharia 1 na madrugada seguinte. antecipava, por isso, um dia preenchido entre a azáfama no hospital e os intensos preparativos revolucionários. sentado à secretária, com o retrato a óleo do duque de saldanha sobre a cabeça, ainda nem tinha aquecido a poltrona quando lhe anunciaram uma visita. o nome não lhe era estranho: aparício rebelo dos santos. claro que se lembrava. tenente do estado-maior, paranóico, estivera internado dois meses, recebera alta por insistência do pai. tinham-lhe dito que os melhores psiquiatras de frança o haviam curado, mas o ilustre clínico duvidava. ele que entrasse.
o homem entrou com ar grave e miguel bombarda levantou-se para cumprimentá-lo, estendendo a mão. aparício deteve-se bruscamente a meio da sala. sem dizer palavra, sacou de uma pistola browning. ouviu-se um tiro. outro. outro ainda. em sobressalto, um funcionário do hospital acorreu ao gabinete e dominou o atacante pelas costas. «largue-me, que já não tenho mais balas», gritava o louco. atingido por três projécteis – um no tórax, dois no ventre – bombarda conseguiu, ainda assim, sair para a rua pelo próprio pé. sem se esquecer de recomendar que não maltratassem o seu agressor, meteu-se no mesmo trem de praça que transportara aparício e mandou seguir para são josé. a situação era desesperada, mas, pouco depois, brito camacho e joão de meneses acorreram ao banco dos curativos e encontraram um homem sereno, não só capaz de contar o que se tinha passado, como de exigir aos companheiros que queimassem, na sua presença, o plano da revolta que trazia na carteira. só depois de delegadas todas as tarefas revolucionárias se dispôs a rumar à mesa de operações. deitado na marquesa, ia-se preparando para uma morte estúpida, enquanto pensava quão mais apropriado lhe seria morrer, nessa noite, pela república. às seis e cinco da tarde expirou pela última vez.
