dali, foi ao centro eleitoral democrático, no largo de s. carlos, onde por fim o almirante reis lhe disse a senha: «mandou-me procurar? – passe cidadão!». convidado a intervir na reunião decisiva que haveria de decorrer pelas oito da noite na casa da mãe de inocêncio camacho, na rua da esperança, santos declinou. a essa hora – a mesma a que o rei jantaria no palácio de belém com o presidente brasileiro – esperavam-no no jardim de campo de ourique os praças de infantaria 16, para decidir os últimos ajustes ao plano de assalto ao quartel. conscientes de que podiam não voltar a ver-se, cândido dos reis e machado santos selaram a despedida com com um abraço fraterno.
de regresso a 2010, saímos do hospital miguel bombarda e, para poupar as sofridas solas, fazemo-nos transportar de táxi à avenida d. carlos i, junto à entrada da rua da esperança. começamos a subir a pé e não tarda, à nossa direita, vemos o n.º 16, que há 100 anos era o 106. uma placa de mármore com um busto dourado da república, de perfil, informa: «no 3.º andar deste prédio reuniram pela última vez os revolucionários em 3-10-1910». eram cerca de 50, entre eles estes cinco: afonso costa, josé relvas, joão chagas, antónio josé de almeida e cândido dos reis. embora fosse de todos o mais efusivo e optimista, o almirante não deixou de observar que, se não conseguisse levar os marujos a bom porto, meteria uma bala na cabeça: antes o túmulo que uma cela.
entre a populaça, a notícia da morte de miguel bombarda caíra que nem uma bomba. raul brandão conta no segundo volume das suas memórias: «espalha-se na cidade que foram os padres que instigaram um tenente a assassiná-lo. é falso, mas há correrias no rossio e o portugal foi apedrejado. toda a gente acredita num crime planeado, toda a gente se insurge contra o facto brutal – toda a cidade republicana se transforma num vulcão. no rossio juntam-se grupos de gente taciturna e desesperada: – mataram-no! mataram-no! – ouve-se». os tumultos motivaram um aperto da vigilância que baralhou as contas dos conspiradores. mas mesmo com os quartéis de prevenção, já nada podia deter a revolta. da rua da esperança, os caudilhos do partido republicano e outros conjurados acorreram aos banhos de s. paulo.
novamente a pé, fazemos o trajecto até à travessa do carvalho, por trás do mercado da ribeira. visto de fora, o edifício mantém-se intacto, mas no interior nem sinal dos banhos, encerrados em 1975 devido à inquinação das águas termais: há mais de 15 anos que aqui funciona calmamente a sede da ordem dos arquitectos. às primeiras horas de 4 de outubro de 1910, porém, o ambiente nestas paragens agitou-se por causa de um telefonema a dar conta que a guarda municipal cercava o edifício. foi um vê-se-te-avias: os dirigentes republicanos desapareceram por portas dianteiras, portas traseiras, janelas e o que mais houvesse à mão. no pernas para que vos quero deixaram para trás peças de roupa, espadas, bengalas… – tudo menos os bigodinhos afilados nas pontas, que esses andavam colados à cara. afonso costa, por exemplo, seguiu para alcântara numa carruagem alugada, mas, no fim da avenida 24 de julho, achou-se no meio de fogo cruzado. enquanto as balas zuniam, protegeu-se o melhor que pôde na parte de trás do coupé, de onde saiu para aguardar em segurança o desfecho da revolução e só reaparecer depois de consumada a vitória. josé relvas e josé barbosa fizeram o mesmo, instalando-se hotel de l’europe, à rua garrett. afinal, era pela copiosa taça do poder que iam a jogo, não por paupérrimas medalhas de heroísmo. espertos.
