Mas naquela altura estava-se na década de 2000 e em quinze anos muito aconteceu. O jovem à procura de aventuras que gostava de rap, fumar haxixe, beber álcool e de raparigas foi-se adensando no Islão integrista.
O seu caminho não foi isolado: com ele seguiram dezenas de jovens nascidos nas periferias ou nos bairros mais pobres de Paris. Entre eles, o seu irmão Said, que o acompanhou no ataque ao Charlie, e Amedi Coulibaly, que matou uma polícia no dia a seguir ao atentado e depois mais quatro pessoas no sequestro a um supermercado casher (alimentos que obedecem à lei judaica).
Partilharam a forma como terminaram a sua vida, e viveram-na também de forma semelhante. Passaram a infância em ambientes idênticos, os irmãos Kouachi num dos bairros mais pobres de Paris (o 10.º arrondissement) e Amedi Coulibaly na periferia da cidade, no bairro social da Grande Borne.
Said Kouachi nasceu em 1980, o seu irmão Chérif e Amedi Coulibaly em 1982. Eram os três filhos de emigrantes, os pais dos Kouachi tinham vindo da Argélia e os de Coulibaly de mais longe, do Mali.
Este, numa família de 10 irmãos em que era o único rapaz, viveu uma infância feliz até ter desembocado na delinquência. Aos 19 foi condenado a três anos de prisão por furto. Parte da pena foi suspensa e Amedi Coulibaly aproveitou a liberdade para elevar a fasquia do crime: aos 24 ouvia uma sentença de 6 anos por assalto a uma dependência do BNP Paribas de onde, com dois cúmplices, roubou 25 mil euros.
A história inicial de vida dos irmãos Kouachi foi mais complicada, mas também feliz, segundo relata uma antiga professora da instituição de acolhimento onde foram colocados depois da morte do pai, quando a mãe reconheceu não ter condições para criar os cinco filhos sozinha.
Destes, Said, Cherif e mais dois irmãos foram levados para a turística vila de Trignac, no sudoeste da França, onde passaram 6 anos. De lá saíram com 20 e 18 anos respectivamente. “Estavam perfeitamente integrados”, recorda um professor ao jornal francês Le Populaire. Ao inglês The Times, a professora Françoise Ronfet recorda que gostavam de futebol e que só Said “rezava”. A sua capacidade intelectual era “muito baixa”; a do irmão Chérif, que se “esforçava”, era apenas “baixa”.
De qualquer modo, concluíram o liceu. O mais velho fez uma formação em hotelaria e o mais novo em desporto. A mãe entretanto também morrera. Voltaram para Paris.
Neste início da década de 2000, Amedi Coulibaly já ia lançado no crime. Os irmãos Kouachi iam agora começar.
Instalaram-se no 19.º arrondissement – outro dos bairros pobres de Paris, em que em muitas das ruas parece estar-se num subúrbio – onde vivem muitos emigrantes e os seus filhos já nascidos em França, de origem muçulmana.
Desta fase sabe-se menos da vida de Said Kouachi, sempre mais discreto do que o irmão Chérif, que dá nas vistas, por querer ser rapper. Ao Le Figaro o advogado que o defendeu no seu primeiro processo judicial, Vincent Ollivier, lembra-se que “fumava haxixe e entregava pizzas para comprar droga. Um miúdo sem noção do que fazer com a vida e que, do dia para a noite, conheceu gente que lhe deu a sensação de que era uma pessoa importante”.
Em 2003 os Kouachi conhecem um estudioso do Islão
Em Paris, um amigo leva os irmãos Kouachi a frequentar uma mesquita do bairro onde viviam. Em 2003 conhecem um estudioso do Islão, da sua idade, que não era mas se apresentava como um emir: Farid Benyettou, que instruía jovens rapazes no Alcorão.
Outro advogado, que defendeu um jovem do grupo e que conheceu Chérif Kouachi, afirma à revista Nouvel Observateur que Farid Benyettou “descobria os cérebros mais maleáveis e, a esses, leccionava a defesa do Islão”. Chérif parecia mais “perturbado” do que o rapaz que o advogado Dominique Many representou em tribunal, mas ambos eram “duas crianças perdidas que se tinham deixado embriagar por um guru, como numa seita”.
Os ensinamentos de Farid Benyettou levam Chérif Kouachi a pensar em partir para o Iraque, combater contra os americanos. Treina num parque próximo de casa, o de Buttes-Chaumont, uma das maiores manchas verdes parisienses, cheio de recantos e de colinas. Um amigo que aprendeu a lidar com armas através de um papel, à porta do metropolitano, passa-lhe os 'ensinamentos'.
Já nessa altura se falava da hipótese de um acto terrorista em solo francês e ao Libération outro aluno de Farid Benyettou recorda que Chérif Kouachi “só falava em agredir judeus e fazer alguma coisa em França antes de partir [para combate]”. O seu advogado tem duas explicações: ou o fazia para não passar por fraco ou então porque tinha sido despedido por um judeu.
Acaba por não partir. Já com o bilhete na mão, é apanhado pela Polícia em 2006. E preso. Nessa altura, recorda o Le Monde, disse aos investigadores: “Farid Benyettou falou-me nas 70 virgens e numa grande casa no paraíso. Era preciso morrer em combate ou suicidar-se”.
O professor do Islão glorifica o suicídio no Iraque, mas proíbe-o em França. Tal como Chérif Kouachi acaba preso num processo que ficou conhecido com o nome do parque, 'de Buttes-Chaumont'. Esta semana, o antigo pseudo-emir – que agora é enfermeiro -, revelou que nunca perdeu contacto com os irmãos Kouachi e que tentou contrariar Chérif, que viu há um par de meses, e só lhe falava na jihad. “Era um ignorante”, uma pessoa “muito teimosa”, disse numa entrevista à rádio Europe 1.
Said Kouachi é apenas interrogado no âmbito do 'de Buttes-Chaumont', e logo solto porque nada se apura contra ele. Já o irmão Chérif desabafa aos interrogadores que “não é um bom muçulmano”, que ainda gosta de se divertir e se sente aliviado pela detenção que o impediu de partir para o Iraque.
Acabará condenado a três anos, em 2008, com 18 meses de pena suspensa, ficando preso na cadeia de Fleury-Mérogis, a 30 km da capital.
A fé pode tornar-se uma “fortaleza” para os presos
“Naquela época eles eram mais uns jovens dessocializados à procura de aventuras”. Eram, mas é aqui que 'aquela época' passa ao passado.
Em Fleury-Mérogis, Chérif Kouachi conhece Djamel Beghal, um argelino preso por ter planeado, em 2001, um atentado contra a embaixada dos EUA.
Ao pé dele, Farid Benyettou é uma criança. E na prisão trava amizade com Amedi Coulibaly, preso por delitos comuns.
As cadeias francesas, excessivamente lotadas, são um sítio complicado para se estar. Amedi Coulibaly e outros quatro prisioneiros gravam clandestinamente um filme ( transmitido em 2008 pelo Le Monde e disponível em aqui) onde relatam as péssimas condições em que viviam. E, ao jornal, com 26 anos, gabava-se de ser um dos “líderes da prisão”, que descrevia como “a puta da melhor escola do crime”.
Agora, a AlJazeera falou com um imã – Foudil Benabadji, capelão numa prisão – que explica que a fé se pode tornar uma “fortaleza” para os detidos, “deixando-os mais abertos a interpretações extremistas” . O Governo francês já várias vezes tentou contornar a tensão religiosa imposta pelos fundamentalistas nas cadeias: neste momento, os radicais estão concentrados em Fresnes, na periferia de Paris.
Com Amedi Coulibaly e Chérif Kouachi presos, a treinar o físico e a mente, Said Kouachi arranja emprego na Câmara de Paris. O seu trabalho era ir de porta em porta para promover a reciclagem. “Já estava doutrinado e caminhava para um certo integrismo”, conta um antigo colega ao Le Parisien. O homem, que não se quis identificar, relata a dificuldade de trabalhar com radicais que se recusavam a cumprimentar mulheres, por exemplo. Said Kouachi acaba despedido.
Quando sai da cadeia, Amedy Coulibaly arranja um estágio profissional na Coca Cola. É apresentado como um caso de sucesso de reintegração e é recebido em audiência pelo Presidente da República Nicolas Sarkozy.
Mas pouco tempo depois aparece, tal como os irmãos Kouachi, referido num novo projecto de Djamel Beghal para libertar um jihadista preso por ser o responsável por uma vaga de atentados em 1995.
Os irmãos Kouachi conseguem escapar apenas com interrogatórios. Mas descobrem-se provas contra Amedi Coulibaly e este volta à prisão em 2010.
A agência de notícias AFP cita uma fonte próxima deste processo que defende que, tal como Chérif Kouachi, Amedi Coulibaly “parecia fascinado por Djamel Beghal, sem capacidade de o contraditar e sem pensamento crítico”. Peritos descrevem Coulibaly como “imaturo e psicopata”. Acaba condenado a cinco anos de cadeia, tendo saído em 2014.
Entretanto, os três autores da violência em Paris tinham casado com jovens muçulmanas, que começaram a andar tapadas, algumas integralmente, caso da mulher de Amedi Coulibaly – Hayat Boumedienne, que estará refugiada na Síria. Os Kouachi tiveram filhos, Amedi Coulibaly não.
Treino militar e perfil discreto
Receberam também treino militar. Os irmãos Kouachi estiveram em 2011 no Iemén onde se encontraram com uma figura de proa da Al Qaeda. E correram o mundo as imagens de Amedi Coulibaly e da mulher a treinar dentro das fronteiras francesas, junto de Djamel Beghal, que tinha a residência vigiada (local que Chérif Kouachi também frequentava).
Os irmãos Kouachi viviam a norte, perto de Reims, e só Said vivia num bairro de habitação social. Amedi Coulibaly morava na periferia de Paris, em Fontenay-au-Roses onde as rendas das casas são das mais altas de França. Aprenderam todos a manter um perfil discreto, simpáticos e educados, o que explica a actual estupefacção dos seus vizinhos. Tinham uma vida tão tranquila que a Polícia deixou de os vigiar – o máximo que se soube é que Chérif Kouachi fazia contrafacção de roupa e de sapatos.
Quando a violência explode, no início de 2015, surge uma confusão suplementar. Numa entrevista à estação de televisão BMFTV, Chérif Kouachi diz ter “sido enviado” pela Al-Qaeda do Iémen. Amedi Coulibaly, num vídeo publicado postumamente, reclama-se do Estado Islâmico.
A investigação em curso há-de explicar muita coisa. Mas poderá não andar longe desta reflexão do Le Monde: “Os dirigentes da Al-Qaeda e do Estado Islâmico continuam a manter uma inimizade recíproca. Mas, para os soldados, as barreiras são bem menos rígidas”. Não interessam as facções que se servem, portanto, apenas o seu fim.