‘Na minha família eram todos órfãos’, diz neta de sobreviventes arménios

 A 24 de Maio de 1915, uma declaração oficial dos Aliados franceses, britânicos e russos, durante a I Guerra Mundial, descrevia os massacres de arménios no Império Otomano, às mãos de turcos e curdos, como “crimes contra a humanidade e civilização”. Foi aqui que ‘nasceu’ esta expressão. Um mês antes, em Constantinopla – actual Istambul…

À distância de 100 anos, Marina Dellalyan, pianista que vive em Portugal há duas décadas, não esquece esse ataque ao “cérebro da nação”. É-lhe impossível contabilizar quantos familiares perdeu, mas sabe que sobraram apenas crianças: “Na minha família eram todos órfãos”. Cerca de 1,5 milhões de arménios morreram na guerra, havendo uma nova vaga de massacres e expulsões de 1920 a 1923. Perto de 500 mil formaram a diáspora: é no estrangeiro que vivem hoje sete milhões de arménios, além dos três milhões que habitam na Arménia.

Já em guerra – e alinhado o Império Otomano com os alemães – os soldados arménios a servir nas fileiras otomanas foram desarmados e usados como força de trabalho. Aniquilada a população masculina, também executada nas províncias, sobraram mulheres, crianças, velhos, doentes. Radicados sobretudo no Leste do império, em território historicamente arménio, foram massacrados ou deportados.

O Comité para a União e o Progresso, partido no poder, impedia assim aproximações dos arménios aos russos, inimigos no conflito mundial. “(Mehmet) Talaat, (Ahmed) Gamal, (Ismail) Enver, eles cozinharam todo o genocídio dos arménios. Foi tudo planeado, sistematizado”, lança a também professora de música, referindo-se ao trio de ministros conhecidos como 'os três paxás', que ordenaram os massacres da minoria cristã. Após a derrota na I Guerra Mundial, em 1918, o 'triunvirato' fugiu para o exílio e escapou à Justiça. No início dos anos 20 seriam todos assassinados.

“Os turcos, hoje, querem saber. Nos livros de História deles não aconteceu nada”, refere Marina, para quem a consciência de uma culpa histórica não existe na Turquia: “A Justiça que esperamos é que reconheçam a culpa pelo que fizeram”. E adianta que “não pode haver reconciliação se não houver responsabilização”. 1915 alterou para sempre a cronologia familiar.

 

Roma e Atenas

Yervand Dellalian, o avô paterno, era um miúdo de 10 anos em 1915. Conseguiu fugir com os dois irmãos num barco saído da Cilícia (costa sul, virada para Chipre) rumo à Grécia. Acolhido em Atenas, Yervand só partiria em 1947, pai de família (um dos filhos é Harutiun, pai de Marina), para a Arménia soviética.

Antes, foi participante de outro conflito – a II Guerra Mundial -, juntando-se aos gregos para combater a ocupação nazi. Capturado, o prisioneiro respondeu que era “arménio da Cilícia” quando os alemães lhe perguntaram a origem. Segundo a neta, os nazis pouparam-no porque a Cilícia era já turca. Yervand regressou da guerra e reencontrou a família.

A mulher, Marie Pashaian, tinha chegado a Atenas na década de 20, vinda de Roma. A jovem, de uma família abastada de Constantinopla, tinha sido enviada pelos pais para estudar numa escola pertencente ao Vaticano, enquanto o irmão tinha ido para Paris – estavam nessas cidades quando se deram os massacres que lhes mataram os pais e outros familiares.

“Na década de 1890, o sultão Abdul Hamid II já tinha esta política de aniquilar os arménios. Os massacres aconteciam mais no Leste”, relata, justificando a decisão dos bisavós de porem os filhos a salvo, apesar de viverem numa Constantinopla “muito aberta, misturada”. Os dois irmãos perderam contacto e “nunca mais tiveram notícia um do outro”.

No pós-guerra, numa missão de voluntariado, Marie chega a Atenas, abrigo de muitos refugiados arménios. Conhece Yervand “e apaixonam-se”.

 

Suíça e Beirute

Yervand Avakian estava a estudar Medicina na Suíça em 1915. Os pais morreram em Constantinopla, mas soube mais tarde que duas irmãs tinham sido resgatadas por missões internacionais e partiram para a Argentina. Ainda se corresponderam mas o reencontro “nunca aconteceu”.

Foi em Beirute que este avô materno de Marina conheceu a futura mulher, Sirvard Tutunjian, também oriunda de Constantinopla. A pequena Sirvard tinha sido salva por missionários americanos e cresceu num orfanato em Beirute. Perdera-se dos irmãos nas deportações pelo deserto sírio, rumo a Aleppo. “Nas marchas pelo deserto que houve depois de as tirarem da cidade, as pessoas eram torturadas, assassinadas, morriam de fome e doenças”, recorda. Apenas uma irmã sobreviveu, foi para Paris e décadas mais tarde as duas voltaram a ver-se na Arménia. Sirvard e Yervand teriam em Beirute cinco filhos – um dos quais Hermine, mãe de Marina.

Resistiram dois objectos, salvos por Sirvard, relíquias de um passado extinto. Uma pequena Bíblia escrita em arménio, datada de 1863. Um crucifixo que “passa de geração em geração para o mais novo da família”. Está agora ao cuidado de uma sobrinha de Marina.

 

Arménia, 1947: os retornados

Em 1947, a família materna também cedeu ao apelo do regresso à pátria, o “paraíso arménio” – os territórios da Arménia oriental, sob domínio russo, seriam uma das repúblicas soviéticas entre 1922 e 1991. E um lugar desconhecido para os avós de Marina.

“Quem acreditou voltou. Não havia trabalho, não havia comida, não havia nada. A minha avó trocava uns botões de ouro por pão, para os filhos comerem”, descreve. Um tio, irmão da mãe, “adoeceu com 18 anos. Era o único que queria ficar em Beirute. Não conseguiu sobreviver, foi vítima de fome”.

Nos primeiros anos a questão era tabu, mas as manifestações do cinquentenário, em 1965, a exigir que a URSS reconhecesse o genocídio, abriram caminho para a construção de um memorial, completado em 1967 na capital Yerevan.

Os pais de Marina (e da irmã Nariné, violinista, também radicada em Portugal), Harutiun Dellalian e Hermine Avakian, conheceram-se em Yerevan. O pai foi um compositor brilhante, tardiamente iniciado na formação musical. “No ano em que eu nasci ele entrou numa escola para jovens operários estudarem música”: 1963, não sabia ler uma pauta. Seguiu-se uma carreira académica invulgar. Dedicou as suas obras ao genocídio e a Komitas, religioso e compositor, símbolo da identidade arménia.

Dos avós, Marina nunca ouviu uma palavra sobre o passado: “Tinham vergonha. Perderam tudo. Os filhos poupavam os pais para não os magoarem com essas memórias”.

Com os filhos, nascidos na Arménia mas que também vivem em Portugal, a professora fala em arménio em casa. “É a nossa família, nada pode estragar aquilo”. E se a nossa pátria é a língua, a pergunta repetida quando dois arménios se cruzam é: de onde és? “Não há família que não tenha pessoas ligadas à outra parte da Arménia desaparecida”. A resposta desfia uma linhagem que atravessa sempre a fronteira, recuando no tempo, até se enraizar na Arménia que já não existe.

ana.c.camara@sol.pt

 

Turquia não admite a palavra g*