Voar pela história do país com a TAP

Para o bem e para o mal, a exposição ‘Tap Portugal: A imagem de um povo. Identidade e design da companhia aérea nacional – 1945-2015’, que inaugurou na passada quinta-feira no Museu da Moda e do Design (MUDE), pode ser entendida de vários prismas. O timing em que acontece assim o dita, ou não estivéssemos…

A agenda noticiosa só se intromete na conversa depois de percorrido todo o espaço expositivo e, claro, que não lhe é indiferente. Há um ano e meio, quando o director de Comunicação e Relações Públicas da companhia, António Monteiro, lhe propôs fazer uma exposição em torno do espólio da Tap, a privatização da empresa já se comentava há muito. Todo o período de trabalho foi, então, pautado por esta questão, mas ainda assim Bárbara Coutinho faz questão de garantir que a actualidade nunca contaminou o seu olhar de historiadora. A leitura que determinou a mostra, frisa, foi imposta pelos materiais que encontrou: numa primeira fase, a tese de doutoramento Sobre as Nuvens: Design para a Companhia Aérea de Portugal (1945-1979), de Pedro Gentil-Homem, “que tinha analisado a história da Tap do ponto de vista do design no interior do avião: fardamento, etiquetas, serviço de bordo, etc.”, depois o acervo que encontrou no arquivo da companhia. Às tantas, “tudo colidia para o mesmo entendimento”. “Foi-se tornando cada vez mais claro que a relação de proximidade da Tap com um povo, com a ideia de destino comum, esteve sempre presente no conceito da empresa, e que o design desenvolvido ao longo destas sete décadas contribuiu para aprofundar a consciência colectiva da Tap como símbolo nacional”, observa a curadora, acrescentando: “A Tap assumia a visão estratégica do país. Tornou-se o prolongamento de Portugal”.

Foi, também, essa relação umbilical entre a nossa companhia de bandeira e a representação de Portugal que determinou a organização cronológica da mostra, dividida em cinco núcleos, correspondentes aos cinco logótipos que a empresa assumiu ao longo destes 70 anos. “O logótipo permite entender os diferentes contextos políticos do país, bem como as suas intenções estratégicas, ideológicas e económicas”, comenta Bárbara Coutinho, realçando a segunda imagem desenvolvida para a Tap, em 1947, em que a “estética do Estado Novo, com o seu sentido nacionalista e imperalista”, aparece muito carregada.

O objectivo era claro: unir a metrópole às então colónias africanas e afirmar o país junto de outras companhias aéreas. Essa visão estendeu-se, igualmente, ao vestuário dos pilotos e comissários de bordo, com a farda caqui, própria do explorador ocidental que ruma ao hemisfério sul, a impor-se dentro do avião nas viagens para África.

Na década de 1950, a direcção mais comercial da Tap obriga nova mudança de logótipo, com a companhia a utilizar a cultura popular, as tradições portuguesas e a história nacional de epopeia marítima como afirmação de prestígio. ‘Voe com quem sabe’ ou ‘cruze os ares com quem tem 500 anos de experiência’ tornaram-se mensagens recorrentes nos materiais de comunicação da empresa, bem como outras ideias de enraizamento com as origens, pensadas especificamente para um povo de emigrantes. “Este cartaz [aponta para a andorinha ampliada] é um bom exemplo disso”, destaca Bárbara Coutinho, lendo o texto do anúncio: “‘Se vai emigrar vá e volte com a Tap. A Andorinha nunca esquece o ninho’”.

Outro momento forte do design desenvolvido pela empresa acontece em 1962, quando a companhia obtém o primeiro avião a jacto, um Caravelle. A título excepcional, o fabricante francês autoriza a Tap a traduzir o nome do transporte para Caravela, com a companhia a usar, mais uma vez, a situação em comparação à história do país. “Aquele avião torna-se a caravela portuguesa dos ares e todos os materiais – desde malas, etiquetas, cinzeiros, etc. – ganham uma forma triangular em alusão ao formato do transporte”.

Com mais de 600 itens – onde se encontram, entre outros, fotografias nunca antes vistas, horários das viagens de seis dias até Moçambique e respectivas paragens, serviços de refeição de prata, ou a carta que Humberto Delgado (fundador da Tap) enviou a Salazar com o primeiro bilhete de avião emitido e que o mesmo nunca o usou -, Bárbara Coutinho avisa que esta é “uma exposição que requer tempo” para ser percorrida. No Verão, é habitual o número de estrangeiros disparar, mas a directora tem a certeza de que será nos visitantes nacionais que a nostalgia se vai instalar.

alexandra.ho@sol.pt