Empresas do futuro

No século XIX, e ainda hoje em numerosas pequenas empresas, a gestão cabia e cabe ao dono, ao proprietário do negócio. Mas entretanto ganharam relevo as sociedades anónimas, de responsabilidade limitada. Aí, em caso de falência, o investidor não perde mais do que as ações que comprou, em vez de perder muitos dos seus bens…

Na maioria das sociedades anónimas o poder de gerir passou para gestores profissionais. Os donos, os acionistas, passaram a ter uma ligação algo longínqua com a gestão da empresa. Foi o que mostrou um célebre livro de 1932, de dois economistas americanos, Adolf  Berle e Gardiner Means, The Modern Corporation and Private Property.

Em 1967 J. K. Galbraith escreveu The New Industrial State, defendendo que quem mandava realmente nas grandes empresas americanas era a ‘tecnoestrutura’ de cada uma delas. Esse neologismo designava o conjunto de administradores e quadros que decidiam o essencial nas empresas, marginalizando os accionistas. Aliás, os accionistas individuais detém agora cerca de 30% das acções das empresas nos EUA, contra 90% em 1950. Inversamente, os fundos e outras instituições possuem cerca de 70% do capital acionista, contra 10% em 1950. Mais um intermediário entre o investidor e a gestão.

O confronto entre acionistas e gestores é antigo. Mas nas últimas décadas, sobretudo nos EUA, ele tornou-se evidente com a difícil luta de alguns accionistas contra as altíssimas remunerações de muitos gestores.

O semanário britânico The Economist dedicou recentemente o seu tema de capa à ‘reinvenção da empresa’. Por um lado, nota o Economist que a sociedade anónima está a perder importância nos EUA. O número de empresas cotadas nas bolsas americanas é hoje metade do que era em 1996. E aumentou a impressão de que muitos gestores tendem a colocar em primeiro lugar os seus interesses pessoais e não os interesses da empresa.

Por exemplo, a prática de gratificar os gestores com a possibilidade de comprarem baratas as acções da empresa que administram leva-os a influenciar as respectivas cotações de modo para eles favorável. E promove uma gestão focada no curto prazo.

Ora a revista britânica vê nas chamadas startups (pequenas empresas, geralmente da área tecnológica, lançadas por jovens que descobriram algo novo) um possível caminho alternativo às tradicionais sociedades anónimas. Pelo menos no início da sua atividade, essas startups não formam sociedades anónimas nem se envolvem na bolsa. Nelas os proprietários fundadores, os investidores e, frequentemente, os próprios empregados mantém uma ligação direta com a gestão.

Tudo isso fica pormenorizadamente previsto num contrato – o que dá aos advogados um importante papel na criação destas empresas. Por outro lado, as novas tecnologias permitem a muitas delas manterem um pessoal reduzido e tornarem-se empresas globais.

Claro que as sociedades anónimas não irão desaparecer. Elas são importantes, sobretudo em setores que precisam de muito capital, como as petrolíferas. E é certo que as startups ainda são uma pequena minoria nos EUA – mas o seu número está a crescer. É uma tendência que deve ser seguida com atenção entre nós, pois em Portugal também temos startups de sucesso.

P.S. Persistem as dúvidas sobre a capacidade de um Governo do PS com o apoio (?) do PCP e do BE conciliar o ‘fim da austeridade’ com as regras do euro. Só seremos esclarecidos pondo à prova esse Executivo, governando.