Alergias. Uma praga para um terço dos portugueses

Elisa Pedro, chefe do serviço de Imunoalergologia do Hospital de Santa Maria e presidente da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica, responde às principais dúvidas. Em Portugal, um terço da população é alérgica e 7% sofre de asma, a reação mais grave. A primavera ainda mal começou, mas já há alertas para níveis de…

Como distinguir uma alergia de uma constipação?

Na constipação, os sintomas duram geralmente uma semana. Na rinite alérgica, os sintomas são crónicos e, sem tratamento, não passam: se o problema são os pólenes, regressam todas as primaveras. A rinite alérgica (alergia do nariz) é a doença alérgica mais comum; no entanto, só um terço dos doentes fizeram testes cutâneos de alergia e apenas 30% dos casos estão diagnosticados, sublinha Elisa Pedro. A rinite é muitas vezes acompanhada de conjuntivite (alergia dos olhos) e pode complicar-se para sinusite, polipose nasal e otite serosa. Os doentes com rinite têm ainda um risco aumentado de desenvolverem asma.

Que sintomas devem motivar uma ida ao médico?

A rinite manifesta-se por espirros, comichão no nariz, pingo no nariz e obstrução nasal. A conjuntivite dá comichão ocular, lacrimejo e olhos vermelhos. Já na asma, os sintomas são pieira, tosse, aperto no peito e dificuldade em respirar. A asma é uma doença crónica com vários graus de gravidade; pode ser crónica (persistente) e, quando não está controlada, causa limitações significativas na qualidade de vida. Os pólenes em contacto com a pele também podem provocar comichão ou urticária aguda. Estas lesões desaparecem espontaneamente ou com tratamento, sem deixar manchas na pele. Quando os sintomas se prolongam (e se todos os anos sofre com eles), é altura de procurar o médico.

Que pólenes causam mais reações alérgicas em Portugal?

Em Portugal, os pólenes mais problemáticos são os das ervas, das árvores e arbustos: são raras as alergias aos pólenes das flores – são maiores, por isso circulam menos através do ar. Mas, por vezes, no caso das flores, o odor desencadeia sintomas que são confundidos com alergia. 

Os flocos de algodão que se veem nos para-brisas dos automóveis e nas bermas da estrada causam alergia?

É uma confusão recorrente. São os pólenes de choupo, que se veem muito entre março e abril, mas geralmente não causam alergias. A libertação destas sementes coincide com a polinização dos fenos, cujos pólenes são invisíveis. E são estes que dominam nas alergias aos pólenes em Portugal. A regra é simples: quanto mais pequenas as partículas, maior a facilidade com que entram no organismo.

Quem tem alergia aos pólenes ainda vai a tempo de fazer uma vacina?

Para esta primavera, já não. As vacinas para os pólenes começam-se fora da época, geralmente no início do outono. Aliás, quando há maior exposição alergénica, as vacinas devem ser interrompidas ou as doses reduzidas – isto sempre sob supervisão médica. Se sofre com alergias e nunca ponderou esta hipótese, procure uma consulta depois do verão. As vacinas antialergénicas são feitas durante três a cinco anos e são o único tratamento preventivo: modificam a resposta do sistema imunológico, fazendo com que o organismo reaja menos ou deixe de reagir aos elementos aos quais é alérgico. E o efeito dura vários anos. Há um senão: nos últimos anos deixaram de ser comparticipadas pelo SNS. O preço é variável, mas cada embalagem tem um custo superior a 100 euros.

As alergias na cidade são piores do que no campo?

As variações regionais nas quantidades de pólenes estão relacionadas com o tipo de flora local e o clima. Mas hoje sabe-se que a poluição urbana altera o tamanho e forma dos grãos de pólen, facilitando a entrada nas vias aéreas e tornando-os mais alergénicos, daí poder haver maiores crises alérgicas nas cidades.

Que medidas podem minorar as crises?

Estar atento aos boletins polínicos e evitar áreas de elevada concentração. A informação é atualizada semanalmente no site da SPAIC (www.spaic.pt). Quem sofre com alergias deve evitar atividades no exterior de manhã cedo: há maior concentração de pólenes. Deve também evitar “arejar” a casa quando as contagens de pólen forem muito elevadas ou nos dias de vento forte, que são piores para as alergias. Já quando chove, os pólenes no ar diminuem. No carro, recomendam-se filtros de partículas eficazes e janelas fechadas. Secar roupa ao ar livre em dias de maior concentração de pólenes ou de vento também pode agarrar pólenes à roupa, sendo desaconselhado. Da mesma forma, aconselha-se que quem tem alergias deve mudar de roupa ao chegar a casa, para diminuir a exposição.

Os anti-histamínicos são uma boa opção?

Os novos são seguros e quase não têm efeitos secundários. São rápidos a atuar e eficazes no controlo dos sintomas da rinite alérgica.

Há alergias alimentares que se manifestam mais nesta altura?

Não. Mas, por vezes, a alergia a pólenes está associada a alergias a frutos ou vegetais, como é o caso da relação entre as alergias a gramíneas (fenos) e a alergia ao pêssego no sul da Europa ou a alergia a pólenes de bétula e à maçã nos países do norte. Em caso de alergias a pólenes, pode fazer o teste cutâneo para despistar outros alergénicos, já que as alergias alimentares podem surgir em qualquer altura do ano.