As primeiras horas do combate às chamas em Pedrógão Grande foram marcadas por descoordenação, pelos vários pedidos de reforço dos bombeiros, pelo descontrolo do incêndio, pelos sucessivos pedidos de socorro e de evacuação da população.
E antes da falha do sistema de comunicação de emergência e segurança, o SIRESP, já existiam feridos, um deles com queimaduras em 90% do corpo.
Este é o cenário traçado pela fita de tempo integral, da Proteção Civil, a que o SOL teve acesso, que revela tudo o que aconteceu no primeiro dia do incêndio mais mortal de Portugal.
Pouco mais de dez minutos depois do início do incêndio em Escalos Fundeiros, cujo alerta foi registado às 14h43, os bombeiros pediram mais meios. Pedido que foi repetido minutos depois, pelas 15h03, com um comando de bombeiros de Pedrógão a informar que o incêndio era já, naquela altura, «de grandes proporções».
E em 20 minutos depois do alerta do incêndio em Escalos Fundeiros a intensidade do incêndio passou para «elevada». Nessa altura, estavam 48 operacionais no teatro das operações, entre GNR e os bombeiros que já tinham pedido por duas vezes mais reforços. Tudo isto aconteceu entre as 14h43 e as 15h07 de dia 17 de junho (sábado).
A fita do tempo completa da Proteção Civil, que apenas divulgou um pequeno resumo no portal do Governo, mostra ainda nas primeiras quatro horas foram vários os pedidos de reforços dos bombeiros, que ativaram comandos de vários pontos do país como Peniche, Castelo Branco, Santarém, Setúbal e Évora.
Perante o cenário dantesco, pelas 17h54 o Comandante Operacional Distrital de Operações de Socorro (CNOS) de Leiria pediu ao presidente da Câmara de Pedrógão Grande uma máquina de rasto. Nessa altura, por iniciativa do autarca, é então pedida ajuda ao Exército. Pelas 18h14, o incêndio lavrava «com quatro frentes» e «60% a arder livremente». Ou seja, sem que fosse combatido. Só então, pelas 18h28, a Proteção Civil decide pedir ajuda ao Exército. A essa hora, o comando de socorro pede «acionamento de seis máquinas de rasto militares ao Oficial Ligação Forças Armadas, o mesmo informa que no imediato consegue arranjar duas máquinas. Aguarda-se confirmação das restantes quatro máquinas de rasto», lê-se na fita de tempo.
Primeiros feridos
Com quatro horas a combater as chamas e parte do incêndio descontrolado é então que começam a cair vários pedidos de socorro das populações. A fita do tempo divulgada na resposta a António Costa e divulgada no site do Governo começa às 19h45 de sábado. Os dados integrais a que o SOL teve acesso mostram que o primeiro ferido registado na fita do tempo foi um bombeiro. Eram então 18h22. Pouco depois há mais uma bombeira da Marinha Grande ferida com «traumatismo no tórax». Uma hora depois, pelas 19h25, os bombeiros de Pedrógão Grande informam de «um despiste de viatura civil na localidade de Mosteiro com três ocupantes no interior para zona queimada, um dos ocupantes com queimdauras em 90% do corpo», lê-se na fita do tempo. Pela mesma altura, outro comando dos bombeiros de Pedrógão pede a evacuação de pessoas em Vila Facaia. Até aqui, nenhuma estrada tinha sido cortada à circulação e nenhuma aldeia tinha sido evacuada.
Mais de 30 pedidos de ajuda de populares e bombeiros
Ao final da tarde, o teatro de operações contava com 179 operacionais, 50 viaturas e quatro helicópteros. No entanto, não terão sido suficientes para responder ao volume de pedidos de socorro dos populares, incluindo idosos, grávidas e crianças, que subiu a pique a partir das 19h36. Foi então que o sistema de comunicação de segurança e emergência começou a colapsar com a falha de cinco antenas. A partir das 19h25 foram mais de 30 os pedidos de socorro a feridos e de evacuação por parte de populares e de bombeiros. Nada disto foi tornado público na fita do tempo divulgada esta semana pelo Governo. Os pedidos fizeram-se sentir até às 00h46 de dia 18. Ou seja, durante a noite trágica do incêndio que resultou na morte de 64 pessoas e de mais de 200 feridos.
Na fita de tempo são vários os pedidos de ajuda por parte de idosos que estavam em casa e se viram cercados pelas chamas. Também familiares que vivem longe daquela região pediram socorro às autoridades depois de terem perdido contacto com os seus parentes.
Desaparecidos e mortos
A fita do tempo revela também que nessa noite houve desaparecidos, registo que também não conta na informação disponibilizada. Às 20h25 a Proteção Civil tem o registo de um «civil que informa filho desaparecido e outro popular na localidade de Mó-Pedrógão Grande, povoação cercada pelo fogo», lê-se. Vinte minutos depois há um bombeiro desaparecido. Pouco depois, pelas 21h09, é «informado o posto de comando povoação de Várzeas-Vila Facaia cercada pelo fogo e criança de quatro anos desaparecida em Lameira Fundeira». É então que já com algumas vítimas inconscientes e queimadas que foram socorridas no entretanto, que chega a informação da primeira vítima mortal.
Às 21h20 uma civil informa que há «uma vítima já cadáver junto à estrada que liga Vila Facaia para Lagoa». A pessoa informa ainda a Proteção Civil que a morte «terá sido por intoxicação, uma vez que não estava carbonizada» e que «fica junto à vítima até chegada da GNR».
É longa a lista das ocorrências de feridos, pessoas inconscientes ou queimadas, cercadas pelo fogo, desaparecidos e de casas a arder.
No início dessa madrugada, o incêndio lavrava em três concelhos e tinha quatro frentes ativas «a não ceder aos meios de combate». O Presidente da República chegou ao teatro de operações às 00h40, já lá estava o secretário de Estado da Administração Interna desde as 23h08. O incêndio estava a ser combatido por 120 veículos, 359 operacionais. Contactado pelo SOL, o Ministério da Administração Interna não respondeu a qualquer questão relacionada com os procedimentos seguidos em Pedrógão Grande.