Este aforismo foi retirado da última página do Memorial do Convento, onde se descreve a morte de Baltasar Sete-Sóis, queimado no último auto-da-fé que se realizou em Portugal, em 1739. O Memorial gira precisamente em torno da história de amor entre este homem, um dos milhares que participaram na construção do Palácio de Mafra, e Blimunda, uma mulher que tem o dom de ver o interior das pessoas quando está em jejum. Nos seus romances, Saramago gostava de atribuir poderes especiais a pessoas comuns e, inversamente, acentuava os defeitos dos ricos e poderosos, chamando a atenção para o facto de não escaparem às mesmas leis da natureza que o resto da humanidade: também suam, também emanam cheiros desagradáveis, também dormem em camas infestadas de percevejos…
Durante as décadas de 90 e 2000, a Caminho, a editora de sempre de Saramago, uniformizou as capas dos seus livros: num tom entre o beije e o amarelo, com uma cercadura castanha, só com o título e o nome do autor no mesmo tipo de letra.
Mas nem sempre foi assim.
A primeira edição do Memorial exibe na capa, sobre um fundo azul, o pormenor de um fresco de uma abadia francesa que mostra homens a carregarem blocos de pedra para uma construção. É muito revelador que Saramago não tenha optado por uma imagem da obra terminada, mas por uma que mostrasse o esforço daqueles que levantaram o monumento do chão.
Além da capa, a primeira edição deste clássico tem outras curiosidades. Uma é a dedicatória a Isabel da Nóbrega, a sua primeira mulher, mais tarde suprimida. Outra é a errata, onde se pode ler: «Algumas gralhas mancharam o texto deste livro […]».
Sei bem que, aos olhos do autor, as gralhas parecem dramáticas. Mas quando se trata de um grande texto tornam-se simplesmente insignificantes. Mais: hoje as gralhas do Memorial são até um fator distintivo da primeira edição e podem ser comparadas àqueles erros de impressão que tornam certos selos particularmente raros e apetecíveis.