Vieira ganha 30 milhões com venda secreta da Benfica SAD

O negócio só foi fechado há 3 semanas: Vieira e o ‘Rei dos Frangos’ venderam 25% da Benfica SAD a um milionário americano por 50 milhões de euros. Tinham pago 20 milhões.

A venda secreta por 50 milhões de euros de 25% da Benfica SAD  a um milionário norte-americano, pelo presidente do clube, Luís Filipe Vieira, e o acionista seu amigo e sócio José António dos Santos (conhecido por ‘O Rei dos Frangos’). é um dos elementos centrais que levaram o Ministério Público (MP) a desencadear esta semana a Operação Cartão Vermelho, de que resultou na passada quarta-feira a detenção em Lisboa do líder encarnado e do seu associado – soube o Nascer do SOL de fonte próxima do processo.

O milionário em causa é John Textor, que nos anos 1990 fez fortuna como um dos proprietários da empresa de efeitos especiais Digital Domain, sediada em Los Angeles e com muitos trabalhos produzidos para Hollywood (nomeadamente para o filme Titanic, vencedor de 11 Oscars em 1998 – incluindo o de melhor película, melhor realizador e também melhores efeitos especiais). Textor, considerado um apaixonado do futebol, é o principal acionista da FuboTV, uma plataforma de streaming (transmissão de vídeo em direto via internet) sediada nos EUA e vocacionada para eventos desportivos, e o seu nome tem estado nas últimas semanas em foco na Grã-Bretanha por ter lançado, no mês passado, uma proposta de aquisição do clube londrino Crystal Palace.

A negociação entre Vieira, o ‘Rei dos Frangos’ e Textor culminou há menos de três semanas com a assinatura de um contrato-promessa de compra e venda para a aquisição pelo empresário americano de 25% das ações da Benfica SAD, sem que a venda tivesse sido comunicada à entidade reguladora portuguesa, a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) – o que pode configurar uma grave contraordenação, sujeita a multa elevada –, e até agora Textor apenas adiantou um milhão de euros como sinal, por conta dos 50 milhões de euros que se dispôs a pagar.

Os 25% da SAD vendidos ao norte-americano eram os cerca de 20% que estavam nas mãos de José António dos Santos e de Luís Filipe Vieira, mais à volta de 5% que entretanto – e segundo terá concluído a investigação – o presidente da empresa e do clube – considerado o cérebro da operação – incentivou o ‘Rei dos Frangos’ a adquirir junto dos empresários José Guilherme (conhecido construtor da região de Lisboa, que surgiu envolvido no caso BES/Ricardo Salgado, entre outros) e António Martins, da Quinta de Jugais (empresa de Oliveira do Hospital que produz cabazes de Natal). O clube (Sport Lisboa e Benfica, SGPS) controla 70% do capital da Sport Lisboa e Benfica – Futebol, SAD (Sociedade Anónima Desportiva), sendo que o representante dessa parcela do capital é Vieira, que assim continuaria à frente da empresa. Mas, com a venda ao milionário norte-americano, ele e sobretudo o ‘Rei dos Frangos’ terão obtido uma mais-valia superior a 30 milhões de euros (já que estas ações ter-lhes-iam custado à volta de 20 milhões), numa operação em que o MP investiga a possibilidade de ter havido abuso de confiança, relativamente aos restantes acionistas da SAD, uma vez que o negócio não lhes foi comunicado.

Consideram os investigadores que essa mais-valia serviria sobretudo para compensar José António dos Santos (anteriormente detentor, com a sua família, de cerca de 17% da SAD, da qual era o maior acionista individual, possuindo Vieira apenas 3,28% dos títulos) pelo facto de ao longo dos anos ter servido de testa-de-ferro do presidente do clube em diversos negócios em que não podia ser ele a dar o nome.

 

O trio que deteve José Sócrates

A Operação Cartão Vermelho, coordenada pelo procurador da República Rosário Teixeira, pelo inspetor da delegação de Braga da Inspeção Tributária (IT) Paulo Silva e pelo juiz Carlos Alexandre (o trio que há quase sete anos deteve o ex-primeiro ministro José Sócrates), foi levada a cabo por diversos procuradores do MP e por mais de uma centena de agentes da PSP e da IT, e incluiu 44 buscas, abrangendo instalações do Benfica, a sede do Novo Banco, os escritórios da Promovalor (empresa imobiliária de Vieira, em Santo António dos Cavaleiros) e da Avibom (firma de avicultura do grupo Valouro), as sociedades gestoras de fundos C2 Capital Partners (antiga Capital Criativo) e Iberis Semper, bem como a casa do presidente encarnado. Tratou-se do culminar de um longo processo de investigação com origem na Operação Monte Branco, que em 2011 desmantelou uma rede dedicada à prática de crimes de fraude fiscal e branqueamento de capitais (incidindo sobre movimentos financeiros ilícitos no valor de centenas  de milhões de euros), que operava a partir da Suíça e permitiu a muitos empresários portugueses fugir aos impostos e apagar o rasto das suas fortunas.

Nas buscas feitas ao então Banco Espírito Santo (cuja resolução, em 2014, deu origem ao Novo Banco) foi descoberta informação que permitiu mais tarde a extração de uma certidão judicial com vista a investigar a dívida de Vieira ao banco extinto, a qual já havia transitado para a instituição que lhe sucedera.

 

Ganhos também com a compra de jogadores

Também existem fortes suspeitas na transação de três jogadores latino-americanos para a equipa de futebol do Benfica: o brasileiro César Martins e os paraguaios Derlis González e Cláudio Correa Cañiza. Há indícios de circulação de dinheiros que terão ido parar à esfera do presidente do clube.

O modus operandi da operação estará exemplificado na aquisição em 2014 do passe de César Martins, que antes alinhava na equipa do Ponte Negra (do Estado brasileiro de São Paulo).

Segundo os investigadores, Luís Filipe Vieira montou um esquema com o bracarense Bruno Macedo para se apropriar de dinheiro do Benfica. O clube apenas pagou ao Ponte Preta 15% do passe do jogador, tendo pago outros 35% (1,5 milhões de euros) a uma sociedade offshore de Bruno Macedo registada na Tunísia, a Trade In, que comprara o restante desse mesmo passe (85%) por apenas 600 mil euros, realizando por isso um ganho instantâneo de 900 mil euros.

Com o lucro, Macedo adquiriu uma participação de 50% numa empresa imobiliária de Vieira, a Promotav, detentora de um empreendimento em construção em Olhão, que estava parado devido a uma dívida ao Montepio Geral.

Entretanto, através de outra offshore que registou na Tunísia, nos EUA e nos Emirados Árabes Unidos, a ICC – International Consulting Company (depois designada International Consulting Company), Bruno Macedo injetou na Promotav o dinheiro que ganhou do Benfica com a inflação do passe de César Martins. E a Promotav, por sua vez, reencaminhou o dinheiro para liquidar a dívida ao Montepio – o que permite a Vieira terminar o empreendimento e fazer com que se livrasse de mais um complicado crédito bancário.

O MP suspeita que, através das suas offshores, Macedo introduziu cerca de 2,5 milhões de euros em sociedades imobiliárias da esfera pessoal do líder encarnado.

No final destas triangulações, foi o Benfica quem saiu prejudicado, por se tratar de negócios feitos à custa de jogadores que contratou – e por isso, mais uma vez, o MP julga ver nesta operação outro crime de abuso de confiança por parte do líder benfiquista.

 

Amigo de Vieira no avião da droga

Recorde-se que Bruno Macedo foi um dos passageiros que, em fevereiro deste ano, estavam para viajar com João Loureiro, ex-presidente do Boavista, do Brasil para Portugal, num avião privado. Antes da partida, porém, foram descobertos 500 quilos de cocaína armazenados em fardos ocultos na fuselagem. O caso levou os jornalistas a investigarem as ligações empresariais em causa, tendo o Correio da Manhã, nomeadamente, descoberto que o advogado bracarense se tornara sócio de Luís Filipe Vieira na Promotav. Nessa altura, o agente desportivo desvinculou-se da sociedade.

É convicção do MP, contudo, que Macedo não terá ganho com a criação da offshore tunisina mais do que as habituais comissões pagas aos intermediários na transação de futebolistas e que se terá limitado a servir de testa-de-ferro a Luís Filipe Vieira.