Uma viagem fora da Europa

Relato telegráfico de um percurso pelas três maiores cidades do Canadá, com uma escapadela às celebérrimas Niagara Falls.

Se acordássemos em Montreal sem saber onde nos encontrávamos, era impossível saber que estávamos no Canadá. 

Aquela imagem que tínhamos dos canadianos nas revistas dos anos 50 e 60 – gente de aspeto saudável, de cabelo claro e pele corada, vestida de modo informal mas agradável – desapareceu. Nas ruas vemos muçulmanos, hindus, sul-americanos, asiáticos, negros e muitos homeless (sem abrigo). Alguns supostos canadianos que se cruzam connosco vestem-se mal e apresentam-se de forma desleixada. 

A atual paisagem humana nada tem que ver com o Canadá dos cartazes turísticos. E eu interroguei-me: como é possível organizar toda esta gente – com educações diferentes, culturas diferentes, religiões diferentes, hábitos diferentes – para fazer funcionar uma sociedade que, de um modo geral, funciona bem? Mas aqui e ali já se observam uns sinais que podem ser preocupantes: lojas fechadas com ar abandonado, escadas rolantes paradas no Metro, WCs públicos fora de serviço, sanitas e lavatórios tapados com plástico e fita gomada para não serem utilizados.

 

Claro que este não é um problema do Canadá mas de todo o mundo ocidental. Nas grandes cidades dos EUA e da Europa a população é hoje uma miscelânea de etnias e de culturas. E parece um fenómeno imparável: por um lado, como a luz atrai as moscas, o Ocidente atrai gente pobre dos quatro cantos do mundo; por outro, ao Ocidente falta cada vez mais mão-de-obra, sobretudo para os trabalhos menos qualificados, e por isso precisa de imigrantes, como antes precisou dos escravos. 

Enquanto isso, com a emigração, os países pobres vão ficando humanamente mais pobres e mais refinados nas suas características. Se, ao contrário do que sucede no Ocidente, acordarmos na capital de um país da África Negra, da Índia, da Ásia ou da América do Sul, sem sabermos onde estamos, ao olharmos para as pessoas saberemos de imediato onde nos encontramos.

Aí não há dúvidas. 

A confusão só existe na Europa e na América do Norte.

Montreal foi a primeira capital do Canadá, mas não é a maior cidade. Localizando-se no Quebeque, antiga colónia francesa, a língua predominante (e que eles mais gostam de falar) é o francês. Mas percebe-se uma mistura de culturas. A zona mais antiga da cidade, junto ao porto, com as suas ruas pedonais cheias de lojas para turistas e de restaurantes, salpicadas aqui e ali por galerias de arte, faz lembrar Greenwich Village, em Nova Iorque, com os seus prédios do tempo da arquitetura do ferro. São edifícios de estrutura metálica e fachada em vidro. Não sendo o ferro considerado na época um material nobre, forravam-no às vezes com pedra, dando um aspeto algo pesado a edifícios estruturalmente leves. 

Como todas as cidades do norte do continente americano, Montreal tem a sua downtown, que é a zona dos arranha-céus. Aí se concentram os principais serviços e empresas.

O nome de Montreal provém de uma elevação que domina a cidade – o Mont Royal – onde existem duas zonas de características distintas: uma de planalto, urbana, com muita gente nas ruas, muitos restaurantes e animação, em que se concentravam até há poucos anos os emigrantes portugueses. Numa das ruas principais existe um banco (de sentar) com uma placa onde se lê uma frase em francês e português: «Montreal é uma pequena cidade que se desejaria pôr numa étagère (escaparate)… Pode-se dizer que em Montreal não há ruas – mas alinhamentos de jardins. É um encanto. Eça de Queirós»

Aqui perto vivia Leonard Cohen, numa casa curiosa, de tipo quase rural, junto precisamente a um pequeno jardim.

Além desta zona urbana, em Mont Royal existe uma outra zona, de floresta, parcialmente ocupada por dois grandes cemitérios de quilómetros de extensão. E nesta zona florestal também há casas ou empreendimentos dispersos, onde habitam figuras célebres. 

Em Montreal há ainda um famoso parque de diversões, chamado La Ronde, que compete com os maiores do mundo mas se torna quase inacessível: nos feriados formam-se filas de quilómetros para entrar e em cada diversão há uma longa fila que, mesmo nos dias normais, pode levar duas horas. Um visitante, durante um dia inteiro, pode não conseguir andar em mais de três diversões. Verifica-se, aliás, uma situação muito desagradável: uns ditos ‘bilhetes platina’, mais caros, dão ao utilizador direito a passar à frente das outras pessoas nas filas. 

Muito mais se poderia dizer de Montreal. Para já fica este apontamento de uma cidade cujo ambiente urbano é acolhedor mas que do ponto de vista humano é igual à de qualquer outra metrópole da Europa ou dos EUA.

 

Todas as grandes cidades canadianas existem junto à fronteira com os Estados Unidos, e Montreal não é exceção. A uma hora e meia de carro fica Otawa, a atual capital do país. É uma cidade relativamente pequena mas que, no primeiro contacto, provoca uma enorme surpresa – pela imponência da praça do Parlamento, onde não se poupou espaço nem riqueza arquitetónica. Dentro da escala limitada da cidade, o centro político surge como uma visão inesperada, quase irreal. 

A cerca de 500 km para oeste fica Toronto, a grande cidade do Canadá, que também já foi capital, celebrizada pela famosa CN Tower construída em 1975 para torre de comunicações. Está para o Canadá como a Torre Eiffel está para a França. É uma grandiosa obra de engenharia. Mas esperam-se horas para subir ao piso superior. A fila dá a volta a todo o grande hall do piso térreo, em sucessivos ‘s’, andando para a frente e para trás, num percurso que parece não ter fim. 

Ao contrário de Montreal, que sendo uma grande cidade mantém uma escala humana, Toronto é mais impessoal, já se assumindo como uma grande metrópole. Mas é uma cidade bonita, com zonas características, de influência marcadamente inglesa (e americana) e grandes arranha-céus. 

 

A duas horas de carro de Toronto fica Niagara. A expectativa é a de um encontro brutal com a natureza indomável. Mas a realidade é outra: à chegada deparamo-nos com uma feira, uma espécie de mini Las Vegas, com montanhas russas, casas assombradas, pistas de kart, restaurantes para todos os gostos. Só depois disso vemos as cataratas ao longe.

Ali, há duas quedas de água diferentes: uma do lado dos Estados Unidos, mais pequena, outra do lado do Canadá, a mais mediatizada e verdadeiramente imponente. A vista abarca facilmente as duas. Para ver as cataratas de baixo e sentir a força bruta da água o melhor é apanhar um barco, que parece transportar uma excursão de monges: toda a gente veste compridas capas vermelhas (ou azuis). Só que são de plástico, para proteger os turistas da ‘chuva’.

O barco vai até muito próximo da queda de água maior, em forma de ferradura, e coloca-se mesmo no centro desta. Mas, por estranho que pareça, a ondulação é pequena, o barco pouco balança. É esquisito vermos toda aquela gigantesca massa de água a cair tão próximo de nós e o barco quase sem se mexer. 

Também é interessante ir até ao local onde começa esta cascata. É que o rio que a alimenta estende-se por uma enorme superfície e parece pouco profundo, nada fazendo prever o estardalhaço que vai provocar ao cair no precipício.

 

Perto das cataratas, vale a pena dar um salto a Niagara by Lake. É uma terra bonita de mais, onde a natureza é dominada até ao mais ínfimo pormenor, em aberto contraste com a natureza indomada das cataratas. Em cada canto há um jardim, tudo é florido, as casas estão arranjadas a primor, como se fossem acabadas de pintar, e os quintais são autênticos bouquets de flores. Fez-me lembrar Carmel, uma cidade americana, da Califórnia, onde Clint Eastwood tem um restaurante.

E a estrada para lá é um encanto. Aliás, as estradas no Canadá são geralmente um encanto. Com floresta de um lado e doutro, as árvores brotam de um manto contínuo de relva verde. De quando em quando surgem casas de madeira de tons alegres, como pingos de cor numa floresta encantada.

O campo canadiano é uma beleza que só se pode apreciar nesta época do ano, pois durante muitos meses fica coberto de neve. 

 

Nota-se, porém, como comecei por dizer, um estranho contraste entre a paisagem natural ou construída e a paisagem humana.

A envolvente é de um país do Norte da Europa ou da América; os habitantes são do oriente ou do hemisfério sul. 

Sabendo-se que um país é o espelho dos seus habitantes, e estando estes a mudar, é muito provável que o país também se vá transformar. E uma interrogação assalta-me ao espírito: como será o Canadá daqui a 50 anos?

Com a invasão silenciosa de povos vindos de muitas geografias e latitudes, dentro de umas décadas as sociedades ocidentais estarão provavelmente transfiguradas. Viverão sob outras regras. Aliás, há sítios no Ocidente onde isso já acontece.