Soprava pelo lado direito como uma rajada vermelha

De cada vez que um dos meus amigos atravessa a estrada da morte sem olhar para trás recordo-me da expressão espantada de Nelson Rodrigues quando a mulher lhe veio dizer que Guimarães Rosa estava morto: «Morreu?! Mas morreu como se estava vivo?!». No dia 7 de outubro de 1974, a criançada voltava às aulas. Eram…

De cada vez que um dos meus amigos atravessa a estrada da morte sem olhar para trás recordo-me da expressão espantada de Nelson Rodrigues quando a mulher lhe veio dizer que Guimarães Rosa estava morto: «Morreu?! Mas morreu como se estava vivo?!».

No dia 7 de outubro de 1974, a criançada voltava às aulas. Eram longas as férias desse tempo. Tanto assim que lhes chamavam «férias grandes». Nesse ano de 1974, foi difícil voltar às aulas, lembro-me bem. O país estava confuso e nós também. Entre os professores que apareciam e os que faltavam, havia horas livres a fio para gastar com uma bola e balizas improvisadas. Marcavam-se golos fora das pautas, passava-se administrativamente e também se chumbava por faltas. O mundo era bem mais divertido do que é hoje e Portugal tinha uma esperança nos olhos das pessoas que foi morrendo com o passar dos anos e a multiplicação infeliz
de governantes incompetentes
e desonestos.

Na véspera o Benfica dera 4-0 ao Académico de Coimbra, que era a Académica travestida de então, e estava dado o mote para um campeonato ganho com brilho sob o comando de Milorad Pavic, um daqueles treinadores que teve sucesso no Benfica e, em seguida, insucesso no Sporting. Seja como for, adiante… Bate o Benfica o Académico sem apelo nem agravo, e este Benfica terá ao longo da época muito pouco Eusébio, muito pouco Jordão e ainda menos Artur Jorge, o que seria caso para alarme em qualquer linha avançada do mundo. Mas a máquina funcionava…

Homem do dia: Moinhos.

Até quase poderia dizer homem do ano, com 13 golos no campeonato (melhor marcador do Benfica à frente de Nené com 11) e outros 5 na Taça de Portugal, mas vou ficar-me pelo jogo da Luz, 5.ª Jornada.

Moinhos era uma figura. Quem não se recorda dele, procure uma fotografia ou veja aquela que aqui acompanha o texto, toda ela cheia de meus amigos jovens, o Toni, o Romeu, o Vítor Baptista, o Barros, o Pietra… O último, Moinhos, não enganava: todo ele era anos 70! Mário Jorge Moinhos Matos, nascido em Vila Nova de Gaia no dia 13 de maio de 1949. Jogou no Vilanovense e no Boavista antes de vir para o Benfica. Ficou quatro épocas, de 1973 a 1977, sendo de todas elas a melhor esta da qual vos falo.

Contra o Académico (e não é fácil escrever Académico quando não é do de Viseu a que se alude…), Moinhos cumpria tão somente o seu terceiro jogo completo desde que assinara pelo Benfica. Pavic gostava dele, como Mário Wilson também gostou no ano seguinte. Aos 8 minutos fez o um-a-zero, de cabeça, e preparou-se para afiar as botas. Jordão marcou o segundo, pela meia hora, e tudo assim ficou até ao intervalo. O Académico não podia; o Benfica não queria.

Ainda me vou lembrando desse jogo, a pouco e pouco, mas lembro. O Benfica podia ter ganho por uma meia dúzia, se tivesse aproveitado a dinâmica de Vítor Martins, Toni e Simões, mas lá na frente tudo muito perdulário, muito pouco concentrado, não atinando com os buracos concedidos pelo desastrado Brasfemes e deparando com a agilidade temerária de Cardoso.

Lanço mão aos jornais velhos, para não assassinar a memória e levar o estimadíssimo leitor a erros de lembrança sempre tão vulgares.

No Académico jogavam os magníficos Gervásio e Mário Campos, mas já muito devagarinho. E Costa e Vala. E o Zé Belo e Gregório Freixo. E ainda entrou esse meu grande amigo de tantas horas, o Vítor Manuel, vejam bem.

Entraram Vítor Baptista «o ponta-de-lança da infância sem ternura», como escreveu José Jorge Letria para a voz de Vitorino, e Ibraim, um dos esquecidos das glórias encarnadas. Saíram Nené e Jordão. Moinhos ficou, pois claro. A tarde era dele. Gozou-a bem. Só na jornada 16, em Belém, Moinhos voltaria a marcar: dois golos na vitória por 2-1, com o golo azul a ser de Pietra que não tardaria a vestir de vermelho. Em 1977, fechado o capítulo Benfica, Moinhos regressou ao Boavista. Três épocas antes de seguir para Espinho onde acabou a carreira. Moinhos aproveitou o cheque em branco que Pavic que entregou. Na segunda parte faz mais dois golos e ainda chutou duas bolas nos postes, coisa que lhe poderia ter rendido, se a sorte não fosse madrasta, um dia para nunca mais esquecer. Mas não deixa de ser bela a magia clássica do hat-trick.

Fino, quase esquálido, cabeleira longa, meias em baixo, junto aos calcanhares. Era assim Moinhos. Uma figura: repito. Foi campeão pelo Benfica três épocas consecutivas. Quantos se podem orgulhar disso? Corria como o vento. Surgia, inesperado, ao encontro conclusivo com a bola. Era de um tempo ainda antes deste tempo amorfo e bisonho. De um tempo em que havia uma alegria nos olhos dos crentes e um futuro que outros haveriam de estragar.

As crianças regressavam às aulas. Aprenderam o quê? Domingo em Lisboa. Outubro na Luz. Moinhos correu sobre a relva, pela direita, como uma rajada vermelha… A morte levou-o agora, na ventania que fez rodar as últimas velas
do seu nome.

afonso.melo@newsplex.pt