Pedro Nuno. Vitória sem surpresas

Será uma vitória mais suada do que inicialmente se previa. Pedro Nuno teve que sair da zona de conforto para evitar surpresas, mas no domingo vai receber as chaves de António Costa

Hoje é o primeiro dia do futuro do Partido Socialista pós-António Costa. Oito anos depois, chegou finalmente a hora de Pedro Nuno Santos, que nos últimos anos não se poupou a esforços para garantir a sua eleição como secretário-geral do PS.

Apesar de a sua hora ter chegado dois anos mais cedo do que esperava, o ex-ministro das Infraestruturas não precisou muito tempo para pôr a máquina a funcionar a todo o vapor. Imprevisto foi só o adversário. José Luís Carneiro apareceu na corrida e, apesar de um início tímido, rapidamente foi recolhendo apoios de todos os que querem a garantia de que o PS não se acantona à esquerda.

Foi assim que a campanha interna, que no início parecia um passeio para Pedro Nuno Santos, se tornou surpreendentemente mais disputada, ao ponto de nos últimos dias ter havido quem admitisse que os resultados do próximo sábado poderiam trazer uma surpresa.

Apesar do susto de que algum imprevisto pudesse acontecer, nos últimos dias o ambiente ficou mais tranquilo. Até entre os mais otimistas apoiantes de José Luís Carneiro, há consenso de que seria necessário mais algum tempo para tentar fazer mossa à vitória, considerada mais  do que certa, de Pedro Nuno Santos.

A batalha dos apoios

Logo nos primeiros dias, foi sem surpresa que a maior parte das estruturas do partido, federações e concelhias, manifestaram o seu apoio a Pedro Nuno Santos. Depois das estruturas, também muitos notáveis do partido a nível nacional e autárquico. O partido parecia estar unido em torno do ex-ministro, razão pela qual, num primeiro momento, Pedro Nuno não deu grande importância à concorrência e referiu-se a José Luís Carneiro com parcimónia. 

Mas, à medida que os dias foram passando, o ainda ministro da Administração Interna foi dando sinais de que não estava na corrida apenas para fazer de corpo presente. Apoios de peso foram chegando, com Fernando Medina, ministro das Finanças e eterno rival de Pedro Nuno Santos, à cabeça. Além de Medina, muitos outros notáveis foram-se juntando, numa primeira fase vindos de outros tempos da história do Partido Socialista, mas a pouco e pouco vieram também os de uma geração mais nova. 

A guerra dos nomes foi o primeiro fator a deixar nervosa a campanha de Pedro Nuno Santos que rapidamente passou a um registo mais agressivo em relação ao outro candidato. 

O radical e o conservador 

Bastaram poucos dias para que o debate interno começasse a tornar-se estridente. Pela boca de alguns apoiantes de José Luís Carneiro, chegaram acusações de radicalismo ao candidato adversário. A moderação e o bom senso, diziam, estavam do lado do ministro da Administração Interna, que, entre outras coisas, provou a sua eficácia nas pastas governativas que foi ocupando. Figuras como Adalberto Campos Fernandes não se pouparam a vincar as principais fragilidades de Pedro Nuno Santos, recordando episódios como o da decisão precipitada sobre a localização do aeroporto ou as polémicas em torno da gestão da TAP que acabaram por conduzir à sua demissão. 

Do outro lado, saltaram também os generais mais graduados para defender as qualidades do candidato. Francisco Assis, o apoio mais surpreendente de Pedro Nuno Santos, acabou também por ser uma das vozes mais úteis para desmistificar o radicalismo do candidato a sucessor de António Costa. A narrativa para combater a ideia de radicais e moderados partiu também da boca de Pedro Nuno: “Eu não sou radical, tenho é convicções”. 

Mas a verdade é que a campanha se radicalizou em torno desta dicotomia, e rapidamente começaram as acusações personalizadas. A campanha que estava pronta para uma vitória fácil teve que se reorganizar, o candidato que recusou liminarmente debater com o seu adversário manteve essa determinação, mas acabou por ter que se desdobrar em muito mais entrevistas do que as que inicialmente tinha decidido fazer. 

Na lógica das perceções, a vitória de Pedro Nuno Santos deixou de ser assim tão certa. Na volta que os dois candidatos deram ao país neste curto espaço de tempo, começaram a surpreender as salas cheias à espera de José Luís Carneiro, que, lembrando outras batalhas internas partidárias, começou a apelar ao voto livre dos militantes. 

Na véspera de os militantes serem chamados a votar, as incertezas parecem estar a dissipar-se. A última semana foi favorável ao recrudescer de uma onda de vitória em torno da campanha de Pedro Nuno. Nos bastidores, voltaram a fazer-se contas e contatos e ao fechar do pano ninguém acredita no partido que a vitória possa fugir a Pedro Nuno Santos. 

A certeza é de tal forma que o próprio António Costa, que decidiu não manifestar apoios, acabou por sancionar a campanha de Pedro Nuno Santos ao dizer, em entrevista à TVI, que agora é tempo de um novo ciclo e de uma nova geração, desobrigando o futuro líder de subscrever as suas opções enquanto chefe do Governo. 

E os preparativos para o dia seguinte já estão em marcha: o Nascer do SOL apurou que António Costa já tem um ato simbólico previsto para o pós-eleições, com a entrega ao seu sucessor da chave do seu gabinete no Largo do Rato, no final da manhã de domingo.