Ucrânia. Tentativa de paz polémica 

Esta semana marca um ponto de viragem no conflito ucraniano. EUA e Rússia sentaram-se à mesa, Trump acusa Zelensky de ser um «ditador» e recebe elogios da cúpula de Moscovo. Os aliados tentam reagir.

Ucrânia. Tentativa de paz polémica 

A última semana ficará marcada na história como um ponto de viragem na abordagem dos Estados Unidos em relação à Ucrânia. Por vários meses, durante a campanha eleitoral, o Presidente americano, Donald Trump, repetiu que colocaria um ponto final na guerra da Ucrânia que, nas suas palavras, «nuca deveria ter começado». A promessa inicial era de que cessaria as hostilidades nas primeiras vinte e quatro horas, forçando tanto o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, como o Presidente russo, Vladimir Putin, a ir à mesa de negociações.

Após a vitória eleitoral de Trump no dia 5 de novembro, e até há bem pouco tempo, Zelensky parecia animado com a abordagem do Presidente americano à política externa, assente na máxima da «paz pela força». Mas desde a chamada telefónica de Trump com Putin, a relação tem-se vindo a deteriorar gradualmente, chegando ao ponto de rutura na quarta-feira. 

Encontro em Riade

No início da semana, deu-se o primeiro encontro de alto nível entre representantes americanos e russos na Arábia Saudita – onde estiveram presentes os chefes das respetivas diplomacias, Marco Rubio e Sergei Lavrov -, marcando um ponto final no isolamento russo. Desde a invasão em larga escala da Ucrânia, a ligação Washington-Moscovo foi cortada por completo.

Após o encontro em Riade na terça-feira, Lavrov mostrou-se se esperançoso na reaproximação das duas potências, garantindo que a Rússia estará pronta para um «processo sério» para acabar com o conflito. Rubio, enquanto Senador, fora vocal no apoio à Ucrânia, mas no ano passado votou contra um pacote de ajuda aos ucranianos avaliados em 6 mil milhões de dólares, justificando-se com o argumento de que a China, o principal rival americano neste momento, estaria feliz com o envolvimento americano na Europa. O Conselheiro de Segurança Nacional, Mike Waltz, diz que os EUA estão determinados numa paz duradoura, mas insistiu que os americanos merecem «algum tipo de compensação» pela ajuda prestada ao longo dos últimos três anos, mencionando as «matérias-primas, os recursos naturais, o petróleo e o gás» dos ucranianos. É de notar que nem a União Europeia nem a Ucrânia estiveram presentes. Era esperado que Zelensky se deslocasse à Arábia Saudita na quarta-feira, mas adiou a viagem para o próximo mês, avançou a Reuters.

O Presidente ucraniano rejeitou categoricamente o plano que envolvia a exploração mineral a favor dos americanos, garantindo que não autorizou «os ministros a assinarem o acordo porque não está pronto. Na minha opinião, não nos protege», referindo a ausência de garantias de segurança por parte dos americanos. 

Declaração histórica

Na quarta-feira, Donald Trump publicou uma declaração nas redes sociais que ficará para a história. Um ataque à Ucrânia em várias frentes, numa retórica inflamada que já lhe é reconhecida. «Pensem nisto», começou, «um comediante de sucesso modesto, Volodymyr Zelensky, convenceu os Estados Unidos da América a gastar 350 mil milhões de dólares para entrar numa guerra que não podia ser ganha, que nunca deveria ter começado, mas uma guerra que ele, sem os EUA e “TRUMP”, nunca conseguirá resolver». A publicação continua com um ataque à Europa, que culmina com a frase «Temos um grande e belo Oceano como separação». Mas a parte que mais polémica tem causado é a que refere o cancelamento do processo eleitoral na Ucrânia: «[Zelensky] recusa-se a fazer eleições, está muito mal nas sondagens ucranianas e a única coisa em que era bom era a tocar Biden “como um violino”. Um ditador sem eleições, é melhor Zelensky agir depressa ou não lhe restará um país».

Esta passagem, que ignora os casos históricos de suspensão de eleições em tempo de guerra e que o ditador está em Moscovo, mereceu, naturalmente, elogios rasgados das autoridades russas. Dmitry Medvedev, ex-presidente e agora vice-presidente do Conselho de Segurança da Federação Russa, citou a frase anterior de Trump, comentando que se lhe tivessem «dito há apenas três meses que estas eram as palavras do presidente dos EUA, eu ter-me-ia rido à gargalhada. Donald Trump tem 200% de razão», concluindo com uma ofensa a Zelensky: «Palhaço falido». 

«Entretanto», continua Trump no seu comunicado inflamado, «estamos a negociar com sucesso o fim da guerra com a Rússia, algo que todos admitem que só “TRUMP” e a Administração Trump podem fazer. Biden nunca tentou, a Europa falhou em trazer a paz e Zelensky provavelmente quer manter o “gravy train” a funcionar». «Eu amo a Ucrânia», concluiu, «mas Zelensky fez um trabalho terrível, o seu país está destruído e MILHÕES morreram desnecessariamente – E assim continua…». 

Reação dos aliados

A declaração tem gerado críticas generalizadas, tanto de apoiantes quanto de detratores – ainda que alguns destes últimos estejam agora felizes com a postura do Presidente americano. John Bolton, assessor de Trump para a segurança nacional durante a primeira presidência, disse que «as caracterizações feitas por Trump sobre Zelensky e sobre a Ucrânia são das declarações mais vergonhosas alguma vez feitas por um presidente dos Estados Unidos da América». Também Mike Pence, o primeiro vice de Trump na sua primeira passagem pela Casa Branca, criticou o comunicado do Presidente, mesmo que não indo tão longe quanto Bolton. «Senhor Presidente», escreveu na rede social X, «a Ucrânia não iniciou esta guerra. A Rússia lançou uma invasão hostil e brutal que custou centenas de milhares de vidas. O caminho para a paz deve ser construído com base na Verdade».

Após a exclusão da Europa no processo de paz, o presidente francês, Emmanuel Macron, convocou uma cimeira de emergência no Palácio do Eliseu, em Paris, com vários líderes europeus. Para além de Macron, marcaram presença os chefes de Estado da Polónia, de Espanha, de Itália, do Reino Unido, da Dinamarca, dos Países Baixos e da Alemanha, acompanhados pelo presidente do Conselho Europeu, pela presidente da Comissão Europeia e pelo Secretário-Geral da NATO. O resultado da reunião não é claro, mas parece ter cumprido o objetivo principal. Macron e Keir Satrmer, o primeiro-ministro britânico, foram convidados para se sentarem à mesa de negociações em Washington, D.C, para reunir com Donald Trump e deixar clara a sua estratégia e demonstrar que a Europa tem uma palavra a dizer na resolução de um conflito que, no final de contas, é em solo europeu. A reunião deverá acontecer no início da próxima semana.

Assim, o mundo aguarda certamente expectante o resultado das negociações que, mesmo que possam significar o fim do conflito em solo ucraniano, poderão não servir os interesses de todos os envolvidos – principalmente a União Europeia e a Ucrânia.