Albert Londres não conseguia ficar parado muito tempo no mesmo sítio. Certa vez, quando as circunstâncias o obrigaram a circunscrever-se às fronteiras do Hexágono, foi dar uma volta – a Volta a França em bicicleta, na companhia de um batalhão de ciclistas.
«Instalar-me!», disse um dia à sua filha. «Oh, a horrível pequena-burguesia! Ter móveis meus, um bom sofá que me reteria nos seus braços familiares; cortinas nas janelas para me cortar o horizonte!».
Nascido em Vichy em 1884, Londres mudou-se primeiro para Lyon e mais tarde para Paris, onde queria fazer carreira como poeta. Quando a Grande Guerra rebentou, foi nomeado correspondente do jornal do Ministério da Guerra. O seu primeiro artigo, de setembro de 1914, descrevia o incêndio da catedral de Reims, provocado por um bombardeamento alemão.
«Era a mais bem preservada de França», escrevia Londres. «Só por ela, ter-nos-íamos tornado católicos».
A sua missão seguinte, logo em 1915, levou-o ao sudeste da Europa. De Itália seguiu para a Grécia e posteriormente para os Balcãs e a Turquia, acabando por fixar-se algum tempo em Salónica, onde fundou um jornal de língua francesa.
De regresso a França, começou a sonhar com uma grande reportagem em Moscovo, onde uma pequena fação da esquerda, os chamados bolcheviques, havia acabado de tomar o poder.
Mas antes haveria ainda de passar pelo Médio Oriente. Em Beirute, conta-nos o seu biógrafo, Pierre Assouline, em Albert Londres – Vie et mort d’un grand reporter 1884-1932 vê-se perante «uma gente que só conhece duas linguagens: a força e a sedução. Por outras palavras, o pau e o dinheiro». A caminho de Damasco é atacado por bandidos. E em Jerusalém apercebe-se do «desespero dos imigrantes judeus na Palestina, devido à violenta hostilidade dos árabes»…
Finalmente, em 1920, o País dos Sovietes (diz-se que Hergé se poderá ter inspirado em Londres para moldar o seu repórter Tintim). A guerra civil aproximava-se do desfecho. «Com Moscovo por termo de comparação, Petrogrado parece-se com a liberdade… Em Petrogrado, temos a impressão de andar com uma corrente ao pescoço; em Moscovo, é a mão na nuca». O regime bolchevique, que tão ardentemente desejara conhecer desde 1917, não lhe deixou boas recordações.
Em 1922 parte de novo, desta vez com o Japão, a China, a Indochina e a Índia na ementa. Começa por Tóquio, onde tudo lhe parece estranho e novo. «As casas são todas irmãs, as ruas são gémeas e depois de nos termos cruzado com dois mil japoneses acreditamos que foi sempre o mesmo que encontrámos. A vida mudou de planos. O mundo parece-me do avesso».
Uma espécie de nómada moderno, Albert Londres vagueou por Paris e Vichy, Atenas e Salónica, Beirute e Damasco, Jerusalém e Telavive, Moscovo e Petrogrado, Tóquio, Osaca, Pequim, Xangai, Saigão, Calcutá, Praga e Varsóvia, Caiena e Buenos Aires… E até por Londres, quando fez um périplo pelas comunidades judaicas da Europa. Apenas uma nota final: apesar do seu apelido, não falava inglês e consta que não gostava especialmente de Inglaterra.