Não tenho TikTok. Uma falha como mãe: devia estar lá para ver onde andam os meus filhos. Por outro lado, sei que ninguém me iria seguir e eu não saberia quem seguir. Não ligo os nomes às contas, não sei como comentar ou sequer como publicar. Muito menos o que dizer daquilo. Já lá estive de visita, com o mesmo espírito e o olhar curioso de quem viaja para outra civilização, e, como era de esperar, senti-me uma intrusa num espaço que não é meu e muito menos para mim. Pode ser que seja da idade, da linguagem, dos conteúdos, da dinâmica ou de tudo junto. Sendo uma rede em que qualquer vídeo vale mais que mil imagens, assustou-me. Filmar o quê e para quê? Parece-me estranho. Por isso fugi. Aquilo é uma anarquia em modo de rede social.
Diga-se, ainda, que não percebo o conceito de influencer e diz que é ali que eles nascem, os influencers. Parece-me, sem ciência que suporte aquilo que me parece, que são pessoas normais que, por razões que os próprios desconhecem, passaram a ser conhecidas por milhares e milhares de pessoas que interrompem o scrall para assistirem aos mini-vídeos que eles fazem. Essas pessoas, uma multidão anónima da qual fazem parte os nossos filhos, são os seguidores, tipo fiéis de uma seita. No meu léxico (antigo diga-se), os influencers não são mais do que gurus de tribos antigas, líderes que não sendo espirituais – ou em alguns casos talvez sejam – arrastam multidões porque acertaram no tom, na cor, na mensagem, no ritmo. São pessoas normais e não normais que conseguem o efeito que só os desastres ou o circo romano conseguiam: quem olha, não desolha, fixa com perplexidade numa atração irracional. O que é o pôr-do-sol no Monte Evereste a comparar com o drama do casal do terceiro andar do meu prédio? Perguntava há mais de um século esse génio da natureza humana que era Eça de Queiroz. Uma banalidade de beleza que nada se compara às misérias ou tragédias mundanas e humanas, respondo eu à retórica. O TikTok, ou aquilo que ali se passa, é isso: uma tragédia. Não há arte nem espetáculo. É apenas nada sobre coisa alguma.
Coreografias criadas, dançadas e cantadas por crianças de 8 anos ou menos, mascaradas de mulheres, e animadas por enfeites digitais; vídeos de bizarrias; discursos inflamados, cortados e manipulados para fazerem parecer o que não é; tutoriais de coisas certas e incertas; mentiras ou inverdades, como agora se chamam às mentiras. Tudo coisas que encantam plateias desde muito antes do circo romano, das bruxas queimadas em fogueiras ou dos anões disparados por canhões no circo.
Pior do que ver é fazer. E aqui entram os pais. Por cada criança que publica um vídeo no TikTok, a CPCJ devia receber um alerta e abrir um inquérito. Isso ou qualquer coisa parecida. As crianças, quando abrem contas no TikTok denunciam onde moram, quem são, lançam a sua imagem para o mundo em busca de likes e partilhas. Quantas vezes não devem ser os próprios pais a aplaudirem com orgulho esta partilha da beleza, da graça e de talento dos filhos? Demasiadas, parece-me. Sou do tempo em que as raparigas queriam ser atrizes e os rapazes queriam jogar futebol como o Ronaldo; estou agora no tempo em que as raparigas e os rapazes apenas querem ter tantos seguidores quantos um YouTuber sem nome próprio ou apelido. Parece-me que falhamos em toda a linha.