Canadá. Mais quatro anos de poder liberal

Apesar do desgaste provocado por dez anos de Trudeau, os conservadores não conseguiram chegar ao governo. Mark Carney será o líder nos próximos quatro anos

«Quem está disposto a defender o Canadá comigo?», foi assim que Mark Carney abriu o seu discurso em Ottawa depois de emergir como vencedor das eleições legislativas. Será Carney, que já era primeiro-ministro interino após a saída de Justin Trudeau a 14 de março, e o seu governo liberal a enfrentar o desafio da governação nos próximos quatro anos – uma tarefa que, dada a conjuntura, promete uma complexidade acrescida.

O novo executivo canadiano deverá pautar-se pela continuidade, do ambiente aos temas socioculturais, sendo Carney um progressista ao estilo do seu antecessor. Ainda assim, segundo vários indicadores – como, por exemplo, o do crescimento económico –, o país parece necessitar de reformas urgentes, e o novo primeiro-ministro parece determinado em colocá-las em marcha.  Mas quem é, afinal, Mark Carney?

Um veterano da grande finança

De forma resumida, é um veterano do setor financeiro. Começou na Goldman Sachs, onde ascendeu a cargos superiores e, de 2008 a 2013 – um período em que o mundo se viu a braços com uma crise financeira global – foi Governador do Banco do Canadá. Em 2013 foi convidado para o cargo de Governador do Banco de Inglaterra, posição na qual se manteve até 2020, tendo enfrentado os tempos conturbados do Brexit. Depois voltou a Nova Iorque. De acordo com as informações apresentadas no website do Partido Liberal, «começou a desempenhar as funções de Enviado Espacial das Nações Unidas para a Ação Climática e o Financiamento, ajudando a mobilizar o mundo para a construção de economias mais fortes enquanto lutamos contra as alterações climáticas». Foi nas legislativas deste ano que se candidatou, pela primeira vez, a um cargo público. «Durante toda a minha carreira, liderei pessoas em situações de crise. Agora, na maior crise das nossas vidas, estou pronto para liderar o Canadá». Mas o que pode, realmente, trazer de novo?

Promessas de rutura e continuidade

Bem, o primeiro-ministro interino concorreu com base no slogan «Lutar. Proteger. Construir.», e a sua campanha foi inevitavelmente marcada pela oposição à retórica ofensiva de Donald Trump. «O Presidente Trump quer quebrar-nos para que a América nos possa controlar. Isso nunca acontecerá», disse Carney num vídeo publicado no seu site de campanha. O sucessor de Trudeau prometeu também cortar impostos à classe média e reverter o rumo em matéria de habitação: «Está na altura de o (…) governo voltar a dedicar-se à construção de casas a preços acessíveis». 

Também no website do Partido pode ler-se que um dos objetivos do governo passará por «construir a economia que regista um crescimento mais rápido do G7». Caso o consiga, Carney romperá, de facto, com o seu antecessor, já que, de 2015 a 2024, o Canadá foi o país cujo PIB per capita real menos cresceu na OCDE, ficando-se por uns modestos 1,7% – 11,5% abaixo da média da OCDE e 11% abaixo da média do G7. Pior que o Canadá só o Luxemburgo, que viu o seu PIB per capita real cair na ordem dos 0,9% nos últimos nove anos.

Se os canadianos votaram nos liberais na esperança de que Carney coloque o país no rumo do crescimento económico, no que diz respeito à matéria ambiental e às questões socioculturais só podem esperar continuidade. O novo primeiro-ministro é um fervoroso defensor de políticas que ajudem a mitigar as consequências das alterações climáticas e, tal como Trudeau, tem o NetZero – acabar com as emissões de gases com efeito de estufa – até 2050 como uma das grandes prioridades. Os opositores afirmam que esta política não é conciliável com o crescimento económico.

Uma recuperação notável

Após dez anos de desgaste que enfraqueceram Trudeau e forçaram a sua queda antecipada, os liberais registavam uma desvantagem nas sondagens sem precedentes, encontrando-se a cerca de 20% dos conservadores ainda em janeiro deste ano. Mas, apurados os resultados do passado dia 28, o partido Liberal venceu as eleições com 43,7% dos votos, mais 2,4% apenas que os adversários diretos liderados por Pierre Poilievre. Estas percentagens traduzem-se 169 e 144 assentos no Parlamento canadiano, respetivamente. 

Apesar de ter conquistado uma vitória na qual poucos teriam apostado há uns meses, os liberais ficaram aquém da maioria absoluta por apenas três deputados, mas a vitória não deixa de ser notável. O resultado reflete um aumento de 11,1% dos votos em relação ao último escrutínio, superando o aumento do partido Conservador (+7,5%) que vinha registando – e confirmou nas urnas – um crescimento sustentado. Ainda assim, Poilievre perdeu o seu assento no círculo pelo qual sempre concorreu, Carleton, Ontário, para o liberal Bruce Fanjoy que registou um aumento extraordinário de 19% em relação a 2021.

Todos os outros partidos – Verdes, Bloc Québécois, Partido Popular e NDP – viram as suas votações decrescer face às eleições de há quatro anos, sendo que o último, que era a terceira força política canadiana, foi o mais penalizado pelos eleitores. O partido liderado por Jagmeet Singh, que também perdeu o seu assento no parlamento, perdeu 11,5% do eleitorado face a 2021 e vê assim a sua bancada parlamentar ficar reduzida a apenas sete elementos. 

Com tudo o que aconteceu no cenário político do Canadá ao longo dos últimos meses, do enfraquecimento de Trudeau e crescimento exponencial dos conservadores à eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, existem várias questões que, neste momento, teimam em não ser respondidas. Mas, dentro deste leque destaca-se, inevitavelmente, uma: foram os conservadores que perderam a eleição, ou foram os canadianos que perderam uma possibilidade de inverter o rumo que tem vindo a ser seguido pelo país sob a liderança dos liberais?