Radiografia incandescente de uma estação excessiva

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A grande obra do verão, essa estação crescente e excessiva que tem vindo a emergir nos últimos anos, não é um calhamaço, mas um prodígio da condensação, dos efeitos de suspensão e desagregação, e que aponta para a sua vertente terminal. Thomas Mann escreveu uma breve novela que nos mostra os aspetos mais cruéis da decomposição que nos espera.

Por estes dias, as notícias rebentam nas praias. Alcançámos o pico da estação, e se temos ainda leitores, muitos estão dispersos, deslocados, experimentando as possibilidades de exílio veraneante. O certo é que deixou de ser possível ficcionar aquela suspensão sazonal, pois os acontecimentos já não abrandam senão por horas, e agora só resiste a prática de um certo alheamento em relação às tensões que esta estação excessiva nos impõe, como uma radiografia térmica. Não há outra estação que se torne mais concreta, mais física e impositiva como o verão. Para se escapar a ela é preciso viver estes meses encarcerado, debaixo de condições artificiais. O frio ainda pode ser repelido, mas o calor tem de ser suportado. Ainda antes de ser acusado nos termómetros, tudo começa com o deslocamento do eixo terrestre, na inclinação de 23,44° do planeta em relação ao plano da eclíptica. A astronomia fixa o solstício em torno de 21 de junho no hemisfério norte, o dia mais longo do ano, altura em que o Sol atinge a declinação máxima de +23°26′ — o ponto em que a Terra, se acha mais exposta, ferida de luz. E, como se sabe, nas últimas décadas, o verão tem vindo a conquistar terreno, a expandir-se como um tumor climatológico: os dados do Copernicus Climate Change Service revelam que o verão de 2023 foi o mais quente jamais registado na Europa desde que há registos — média de +2,5 °C acima dos valores de referência de 1991–2020.

Entre junho e agosto, as zonas mediterrânicas vêm registando máximas que ultrapassam os 45°C — valores que começam a ser tornar-se frequentes na Andaluzia, Sicília, Argélia, mas também em zonas antes temperadas. Lisboa em 2022 teve 47,4°C no Vale do Tejo. Em Bagdad, o asfalto funde-se. O verão transformou-se numa estação beligerante, em que as pequenas variações mostram esse astro vital na sua expressão menos benévola. Pode ler-se a sua ação nessas zonas condenadas a serem olhadas apenas enquanto paisagem, com a vegetação a acusar os destratos. Sob o stress hídrico, as plantas interrompem o crescimento, o mesofilo das folhas colapsa. O pinheiro-bravo fecha os estomas, a esteva carboniza-se antes do equinócio e a clorose espalha-se como lepra. Ao fornecer tantos sintomas de desgaste, a flora vinga-se do conceito de paisagem, mostrando-se um complexo sistema simbólico. A figueira gesticula, alargando os membros como se implorasse clemência, e a videira enrola-se sobre si própria. Por sua vez, a fauna escasseia. As aves reduzem o canto, algumas entram numa greve de zelo total, como o pisco. Os répteis apoderam-se das superfícies como de uma herança. Tornam-se lentos de tanto excesso, e lembram runas nos muros e paredes, sinais hieroglíficos que parecem dar a ler essa paralisação.

Na literatura talvez não haja obra mais fiel ao retrato inquietante que esta estação merece do que Morte em Veneza, de Thomas Mann, onde esta se mostra estranha, com o calor trazendo à tona o que há de doentio e mórbido. Ali o verão não surge apenas em pano de fundo, mas opera como engrenagem da decadência e do delírio. Desde o início da novela, o calor é o prenúncio de uma febre, não só epidémica, mas estética. A viagem de Gustav von Aschenbach para Veneza é motivada por um cansaço existencial que coincide com o impulso de partir, como se o calor despertasse o instinto de deslocação, de dissolução da forma rígida — social, pessoal, literária. Na estrutura interna desta obra, o verão promove um efeito de desagregação, começando pelo corpo, que transpira e se sente atravessado, que se decompõe, e depois da vontade, que acata o impulso, e, por fim, da razão, ao assistir impotente à irrupção do belo como força demoníaca. As ondas de calor são descritas com uma espécie de languidez febril, levando a um afrouxar da vigilância moral do protagonista. Assim, a estação comporta uma ambiguidade inquietante, entre a decomposição e o ardor. É um fermento.

No Verão, aquela cidade idílica das gôndolas e dos palácios, cede e desfigura-se, tornando-se uma zona pestilenta, de ar parado, onde os odores se entranham e geram esse alarme de sentir como tudo está podre. A cidade vai encarnar, desse modo, uma natureza que se vê suspensa, onde os elementos não libertam nem regeneram. A água não corre, os canais estagnam e apenas evidenciam esse cerco degradado. O tempo revolve-se, lento, contaminado, e é nessa escalada insuportável que o jovem Tadzio surge como um astro de outra ordem, uma figura que encarna no mundo sensível a beleza que consome Aschenbach como um narcótico.

Este obra dá-nos a subtil rutura de um verão que é a imagem avessa daquela que muitos de nós guardamos, como zona de expansão e receio, de gozo de um tempo vastíssimo e sem os constrangimentos de outras estações. O próprio texto está saturado de termos meteorológicos e atmosféricos: a bruma marítima, o calor que não alivia, o ar carregado de doenças. Tudo isso empurra para um lugar de que nos defendemos, uma paisagem interna que nos assola, e à medida que envelhecemos estamos cada vez mais próximos da degradação psíquica do protagonista. O verão inverte-se, assim, e assume uma força reveladora, adquire um peso trágico: se nos expõe à beleza de uma forma quase aflitiva, quando está já nos escapa, se ainda permite o êxtase e o devaneio, isto implica a suspensão do juízo, e paga-se muito caro.

Assim, um elemento crucial da narrativa desenvolve-se ao nível da linguagem, e Mann parece apontar para uma estação que nos lança numa condição metafísica, à medida que o calor e a humidade venezianos vão dissolvendo as barreiras entre desejo e alucinação, contemplação e vício. E depois há o cerco da epidemia de cólera, que se espalha como uma culpa sussurrada, um contágio moral. E se as autoridades tentam sempre dar conta do problema e gerir a situação, escondendo a verdade, o cheiro da cal é inconfundível. Temos assim o verão como a estação que denuncia esse efeito da ocultação, o gozo de um prazer interdito. Sabemos, assim, que o fim ocorrerá num dia destes, pois esta é a estação terminal, a que promete um ajuste contas, quando já não há margem para o recomeço, restando apenas o declínio.

Estamos muito longe, por isso, daquela suspensão das rotinas com a promessa de um retorno às origens, um retorno ao campo, aqui, somos entregues a esse eixo vazio, o da estagnação, da vertigem diante da beleza que já não ilumina, mas queima. Não consola, devora-nos. Nesse sentido, Thomas Mann faz o retrato de um incêndio que não conhece limites.

Mas voltemos aos efeitos desta estação que em tantos aspetos nos tolhe, desde logo provocando sofrimento nas funções cerebrais. Aos 39°C, o hipotálamo envia sinais erráticos: aumento do cortisol, fadiga neurológica, confusão mental. Os estados de hipertermia afetam diretamente o hipocampo. A memória derrete. Escrever torna-se um esforço, e mesmo pensar se assemelha a estar dominado por uma forma de febre.

Cada fenómeno astronómico do verão é uma nota numa partitura cruel. As Perseidas, entre 17 de julho e 24 de agosto, ferem a noite com luzes que nada explicam. A ausência de nuvens permite uma nudez celeste insuportável. Na planície alentejana, que tenderá a expandir-se e galgar as fronteiras regionais, os registos da flora apontam para uma resiliência extrema. A Artemisia campestris subsiste, com a sua raiz profunda. O alecrim expande-se em zonas calcárias. O canto da cigarra indica zonas de secura extrema, já que esta apenas canta entre os 28°C e os 40°C. Abaixo disso, cala-se. Acima, morre. Cada ruído tem uma temperatura. Cabe-nos erguer uma ópera da secura, mostrar essa determinação das cigarras, a população sonora deste país. São elas as suas narradoras dementes, do verão que se expande e expropria as outras estações. E a voz da cigarra diz-nos tanto, uma vez que aquilo não consegue passar nunca por canto, mas soa à sua combustão, ao seu cansaço absoluto. Elas queimam em som. E quando, de noite, suspendem a sua extenuante actuação, não há silêncio que não emerja tenso, crispado, expectante, como se a fauna recuasse para permitir que o calor tomasse a palavra.