A fina flor do entulho

André Ventura levou meses para revelar o seu governo sombra. Mas, para apresentar os nomes que anunciou, salvo raras exceções, mais lhe valera mantê-los na penumbra.

Não se percebe muito bem por que razão André Ventura, na euforia da noite eleitoral em que conquistou para o Chega a condição de partido líder da Oposição, resolveu comprometer-se com a apresentação de um governo sombra. Porque, sejamos objetivos, tratando-se o Chega de um partido com pouco mais de seis anos de existência, está muito longe de poder ter ou atrair quadros de qualidade reconhecida.

E também por isso, e ainda porque o próprio André Ventura sabe que o Chega é, ainda e até ver, um partido quase de um homem só, não havia necessidade de se comprometer com a apresentação de qualquer equipa alternativa.

Aliás, bem sintomático de que se tratou de uma óbvia precipitação no calor da vitória e de um erro crasso foi todo o discurso com que André Ventura veio justificar a sua candidatura às eleições Presidenciais de janeiro próximo.

Disse o líder do Chega e da Oposição, por junto, que tinha de assumir o sacrifício de mais uma campanha pessoal porque não havia mais ninguém, a não ser ele, que pudesse representar o partido em condições de poder disputar uma segunda volta.

E é verdade.

Mas importa também lembrar o pedido de desculpa que Ventura começou por fazer na mesma declaração ao país em que confirmou a entrada na corrida a Belém.

Foi a propósito de ter admitido, inicialmente, apoiar a candidatura presidencial de Henrique Gouveia e Melo: «Sei que me referi ao Almirante Gouveia e Melo num primeiro momento desta caminhada presidencial. Quero pedir desculpa aos portugueses. Não sabia, como não podia saber, que o Almirante Gouveia e Melo, não obstante a forma como se apresentava às eleições presidenciais de fora do sistema, traria para dentro da sua candidatura o pior que o sistema político tem ou teve».

Em entrevista ao SOL, dissera na semana anterior que «o primeiro elemento que gerou afastamento [da candidatura do almirante Gouveia e Melo] foram as pessoas de quem se começou a rodear». «Corruptores», chamou-lhes em entrevista à CNN-Portugal.

Ora, André Ventura foi recrutar para ministro sombra da Justiça  precisamente um dos presentes na cerimónia de apresentação da candidatura do almirante: Rui Gomes da Silva, ministro demitido no Governo de Pedro Santana Lopes e antigo vice-presidente do Benfica.

E diz Ventura que a candidatura do almirante é que «quer ser fora do sistema mas traz toda a malha do sistema para dentro da candidatura»??? 

Ai a coerência.

E onde está ela quando Ventura afirma a cultura cristã e defende o fecho das fronteiras a muçulmanos quando esse mesmo ministro sombra da Justiça será o representante das arábias caso Luís Filipe Menezes seja eleito em Gaia e lhe passe, por incompatibilidade, a presidência da Câmara do Comércio Arábia-Portugal?

Mas pior, muito pior, é olhar para a restante lista de ministros sombra do Chega, não obstante honrosas exceções, embora raras, e verificar o curriculum vitae de cada um deles, já que vai ao cúmulo de apresentar como ministro sombra com as mais altas responsabilidades financeiras e económicas um renomado incumpridor pessoal e acumulador de dívidas e de insolvências de empresas no passado.

Pois é. Lá diz o povo que mais vale só que mal acompanhado.

Com uma já assinalável lista de colegas de partido, de bancada ou de listas de candidatos  a diferentes cargos públicos que comprometem a sua honorabilidade e credibilidade, Ventura devia ter cuidado com as pedras que atira aos telhados dos outros, porque os tem e são de vidro que estilhaça com estrondo.

André Ventura disse na declaração de candidatura: «O líder de um partido deve agir com o que tem e não com o que gostariam que tivesse. A política muitas vezes é a arte do possível. E a arte de garantir que aquele partido que lideramos, independentemente do risco pessoal que corremos, está representado».

Seja, mas que esteja representado por gente com um mínimo de coerência, decência e sensatez.

E não pelo primeiro que lhe sai em sorte entre desamparados, desorientados e oportunistas – ou, nas palavras de Ventura, «o pior que o sistema tem ou teve».

mario.ramires@nascerdosol.pt