Trump, as escadas rolantes e a utilidade da ONU

No 80.º aniversário da ONU, a AG voltou a fazer manchetes. A atenção dividiu-se entre a Palestina, as escadas rolantes e o teleponto

A octogésima Assembleia Geral das Nações Unidas (UNGA) ficará inevitavelmente marcada pela questão do reconhecimento do Estado da Palestina. Mas nem só de discussões sobre a resolução do conflito no Médio Oriente foi feita a UNGA. O inevitável Presidente americano, Donald Trump, foi também protagonista, e não apenas pelo discurso.

Eis que, ao chegar ao edifício, as escadas rolantes que facilitariam a subida do Presidente e da primeira dama deixaram de funcionar. Depois do contratempo, e uma vez chegado ao icónico púlpito das Nações Unidas pronto para iniciar o seu discurso, foi a vez do teleponto puxar o tapete a Trump. 

Mesmo assim, o líder da Casa Branca conseguiu arrancar uma gargalhada da Assembleia: «Não me importo de fazer o discurso sem teleponto, porque o teleponto não está a funcionar. Sinto-me muito feliz por estar aqui convosco, apesar de tudo, e assim fala-se mais com o coração. Só posso dizer que quem estiver a operar este teleponto está em apuros». 

Mas Trump rapidamente passou do humor ao ataque, tendo as Nações Unidas como alvo principal. Apresentando-se, mais uma vez, como o grande promotor da paz no mundo, a chave mestra sem a qual as guerras não conheceriam fim, o Presidente dos EUA lamentou que a ONU não tenha a capacidade de fazer o mesmo que os Estados Unidos (isto quando é Trumpo inquilino da Sala Oval). «Estou muito honrado por ter feito isto. É uma pena que tenha tido de fazer essas coisas em vez das Nações Unidas. E, infelizmente, em todos os casos, as Nações Unidas nem sequer tentaram ajudar em nenhuma delas. Eu acabei com sete guerras, lidei com os líderes de cada um desses países e nunca recebi sequer um telefonema das Nações Unidas a oferecer ajuda para finalizar o acordo». «Tudo o que recebi das Nações Unidas», lamentou, «foi uma escada rolante que, ao subir, parou no meio do caminho. Se a primeira-dama não estivesse em ótima forma, teria caído. Mas ela está em ótima forma».

O líder republicano continuou a sua crítica à organização liderada pelo ex-primeiro-ministro português António Guterres, dizendo que, enquanto reunia esforços para terminar conflitos, não se lembrou da ONU porque «estava demasiado ocupado a trabalhar para salvar milhões de vidas, ou seja, para salvar e parar estas guerras, mas mais tarde percebi que as Nações Unidas não estavam lá para nós». «Sendo assim», perguntou, «qual é o objetivo das Nações Unidas?». «Tudo o que parecem fazer é escrever uma carta com palavras muito fortes», mas «são palavras vazias e palavras vazias não resolvem a guerra».

Também houve tempo para criticar o conjunto de estados que decidiu reconhecer o Estado da Palestina, considerando que, ao fazê-lo, estão a recompensar o terrorismo do Hamas: «Agora, como que para incentivar a continuação do conflito, alguns membros deste órgão estão a tentar reconhecer unilateralmente um Estado palestiniano. As recompensas seriam demasiado grandes para os terroristas do Hamas pelas suas atrocidades».

Quanto à guerra na Ucrânia, o líder do executivo norte-americano reconheceu que colocar um ponto final no conflito entre Kiev e Moscovo não se revelou tão fácil quanto o próprio pensava. Além disto, voltou a repreender alguns membros da NATO por não terem cessado a compra de «produtos energéticos russos». 

«Pensem nisso», acrescentou, «estão a financiar uma guerra contra si próprios». Trump voltou também a reforçar a ideia de que a Europa deve intensificar os seus esforços: «Temos um oceano entre nós [e a Europa], vocês estão ali mesmo, e a Europa tem de se esforçar mais. Não podem continuar a fazer o que estão a fazer. Estão a comprar petróleo e gás à Rússia enquanto lutam contra a Rússia».