Big five

Quem esperava que estas eleições fragilizariam o Governo enganou-se. E o primeiro-ministro tinha razão quando reclamava que vencer as principais cidades o ajudaria a governar.

O PSD conseguiu vencer os cinco maiores concelhos do país, para além de garantir o controlo da Associação Nacional de Municípios Portugueses que, com Luísa Salgueiro, se transformara num mero instrumento do PS.
Os grandes vencedores da noite foram Luís Montenegro e Hugo Soares. O primeiro, porque estava mais uma vez acossado por uma violação do segredo de justiça. O segundo, porque tinha nestas eleições um sério teste às suas competências.

No plano nacional, inverteu-se a tendência que relegava o PSD para municípios menos urbanos e a esquerda radical quase desapareceu do mapa autárquico: o BE suicidado pelo ego das irmãs Mortágua; o PCP afundado pela sua liderança, que mais não é do que a comissão de trabalhadores de um partido que só subsiste porque tem o beneplácito de organizar e não pagar impostos na Festa do Avante!; o Livre ficou-se pelos meios urbanos, onde, ainda assim, é irrelevante e fez escolhas incompreensíveis de candidatos ignorantes, como sucedeu no Porto.

O PS de Carneiro conseguiu sobreviver num cenário muito desfavorável. Para a nova liderança socialista, a derrota do frentismo radical em Lisboa pode ser vantajosa a prazo, porque esmaga a tendência mais esquerdista do partido. Aliás, onde o PS concorreu com moderados obteve um bom resultado. Venceu algumas capitais de distrito, o que ameniza a derrota e garante que o partido continua a ser incontornável no poder autárquico.
O Chega não teve o resultado que pretendia. Venceu apenas em três municípios mas, ainda assim, multiplicou por sete o número de vereadores eleitos. O score do Chega no Porto é, de resto, paradigmático do que sucedeu ao partido. Ventura encontrara um bom candidato, respeitado e reconhecido pelas elites da cidade e membro do seu anunciado governo sombra. Corte-Real tem larga experiência política no PSD, onde foi, nos últimos quatro anos, líder da bancada laranja na Assembleia Municipal. Ainda assim, ficou aquém das expectativas.

Como eu prevenira na minha última crónica, a candidatura de Corte-Real não ganhou com o ‘bota abaixo’. Apesar dos expressivos recursos, o seu discurso securitário não o distinguiu das outras candidaturas. Mas cometeu o erro de criticar projetos populares e muito consensuais na cidade, como o Bolhão e o Batalha. Corte-Real granjeou o aplauso de Rui Rio ao verberar o Executivo cessante, esquecendo-se, porém, que este não era o seu adversário, porque não ia a votos. Dessa forma, alienou o voto daqueles que, simpatizando com Ventura, não gostam de ver a sua cidade apoucada. Acresce que a receita do Chega de criar realidades alternativas e construir perceções para atrair votos funciona a nível nacional, mas esbarra, a nível local, com as convicções e a autoestima do eleitorado.

Quanto a Pedro Duarte, teve o inegável mérito de vencer um adversário mais conhecido e com uma longa carreira na cidade. Conseguiu atrair os jovens para a sua campanha, e tem agora condições políticas para fazer um grande mandato e abrir um novo ciclo, com novas ideias para a cidade. Encontra a Câmara com boas contas e uma estrutura técnica profissional e competente. O alinhamento partidário com o Governo, muito raro no Porto, ser-lhe-á útil. Já quanto a liderança do Norte, que reclama para si, não será fácil, porque a região revelou sempre algum ressentimento pelo estatuto que o Porto inegavelmente tem. É, não obstante, um desígnio interessante e possível, se conseguir agregar o apoio e reconhecimento dos presidentes de Câmara da AD.

Quem esperava que estas eleições fragilizariam o Governo enganou-se. E o primeiro-ministro tinha razão quando reclamava que vencer as principais cidades o ajudaria a governar.