A passada terça-feira ficará na história da política japonesa. Pela primeira vez, uma mulher chegou ao mais alto cargo do Governo nipónico, através de uma maioria parlamentar inequívoca. 237 votos na Câmara dos Representantes, ou Câmara Baixa – a mais poderosa das duas existentes –, e 125 na Câmara dos Conselheiros, ou Câmara Alta, selaram a ascensão de Sanae Takaichi ao posto de líder do executivo do Japão.
A votação no Parlamento que elevou Takaichi ao estatuto de primeira-ministra seguiu-se a uma eleição interna do partido atualmente no poder, o Partido Liberal Democrata (PLD), onde a política de 64 anos deixou pelo caminho outros três candidatos. E se a maioria em ambas as Câmaras foi contundente, o percurso para a obter foi marcado pela incerteza e por bloqueios. Como noticiou a BBC, «o seu caminho para o cargo mais alto parecia estar bloqueado quando o partido Komeito, parceiro de longa data da coligação do PLD, retirou o seu apoio». «Mas um acordo de última hora com outro partido da oposição – o Partido da Inovação do Japão (JIP), de direita, conhecido como Ishin, salvou-a», explicou ainda a mesma notícia.
Mas Takaichi parece não ser consensual, mesmo entre as mulheres. E isto porque é uma conservadora e admiradora de Margaret Thatcher, primeira-ministra do Reino Unido nas décadas de 1970 e 1980. O mesmo artigo conta com o testemunho de uma jovem japonesa progressista de 21 anos que não poupou críticas à recém-nomeada primeira-ministra: «Todos dizem: “Uau, ela é a primeira mulher primeira-ministra da história do Japão e isso é uma grande oportunidade para o empoderamento feminino”, [mas] se analisarmos as suas convicções políticas e aquilo que ela defende, percebemos que algumas das suas ideias são muito tradicionais. Em vez de criar uma mudança estrutural, ela perpetua o sistema patriarcal».
Independentemente das críticas, há esperança de que a ex-ministra de Shinzo Abe – primeiro-ministro japonês assassinado a 8 de julho de 2022 – consiga mitigar e reverter alguns dos problemas que atualmente o país enfrenta.
Na sua primeira declaração, a nova líder japonesa deixou clara a sua missão: «Fortalecida por uma crença forte e inabalável no poder latente e na vitalidade do Japão e do povo japonês, dedicar-me-ei completamente ao cumprimento do meu dever de traçar um caminho para o futuro do Japão. Trabalharei com determinação em prol da nossa nação e do povo japonês, cheio da determinação de avançar com tenacidade em qualquer circunstância. Esforçar-me-ei por construir uma economia forte, transformando a inquietação e a apreensão das pessoas em relação às suas vidas atuais e ao futuro em esperança, e enfrentarei os desafios que se colocam à comunidade internacional, ao embarcar na restauração da diplomacia japonesa que floresce no centro da cena mundial». «Peço ao povo japonês a sua compreensão e cooperação, ao assumir estas responsabilidades», concluiu.
Se tudo correr dentro da normalidade, isto é, se o governo demonstrar capacidade para resolver boa parte dos problemas internos e externos do país, o que ajudará certamente a afastar a possibilidade de uma eventual queda, a ‘Dama de Ferro’ japonesa será sujeita ao escrutínio popular apenas em 2028.