Samuel Mariño é um caso raríssimo no mundo da ópera: um soprano masculino. A particularidade do seu timbre permite-lhe interpretar canções escritas para vozes femininas, mas também para os célebres castrati, os cantores eunucos que nos séculos XVII e XVIII deslumbravam as audiências com as suas proezas vocais.
Mas nem sempre este sopranista viu a sua voz como um dom. Nascido há 31 anos em Caracas, filho de professores universitários, sofreu em criança com os comentários e as provocações dos outros miúdos. Quando pensava que teria de fazer uma operação para resolver o assunto, um médico aconselhou-o a não fazer nada: a aceitar-se como era e a procurar fazer uso da sua voz única.
Acabou por estudar no Conservatório de Paris e tornou-se um fenómeno no meio musical. Atualmente tem contrato com a Decca e reside em Berlim. Já esteve várias vezes em Portugal, mas só para apanhar o avião para a Venezuela. Segunda-feira, dia 17 de novembro, às 20h00, estreou-se nos palcos portugueses com uma atuação no Grande Auditório do CCB, acompanhado pelo Gabetta Consort. O programa inclui obras de Purcell, Vivaldi, Graun e Händel, de quem interpretará a cantata dramática Il Delirio Amoroso.
Quando se deu conta de que tinha uma voz diferente da dos seu colegas e amigos?
Foi aos 15 anos, quando a voz de todos eles já tinha mudado e a minha não. Por isso, pedi aos meus pais que me levassem ao médico para saber o que se passava. Fomos a mais de um médico. Vários recomendaram-me fazer cirurgia e outro tipo de tratamentos. Disseram-me que poderia perder a voz, que durante uns tempos não conseguiria falar. E, para mim, a voz sempre foi muito importante, uma vez que era – como dizer? – o único ‘instrumento’ que tinha para me defender. Os miúdos da escola gozavam comigo, provocavam-me, e eu tinha pavor de perder a voz, porque não conseguiria responder-lhes. Até que houve um médico que sugeriu aos meus pais que não fizéssemos nada e que eu simplesmente aceitasse a minha situação. E depois perguntou-me porque é que eu não continuava a cantar – eu já cantava num coro – e que talvez assim pudesse fazer algo de útil com esta voz.
Portanto, a princípio, viam isso como um problema, uma desvantagem?
Sem dúvida. E ainda vejo dessa forma. Por exemplo, quando ligo para o banco, atendem sempre ‘Bonjour, madame’ [risos], tenho sempre de provar que sou eu. Neste mundo em que vivemos hoje, as diferenças ainda não são vistas como algo muito bom. Ser diferente não é tão bom como isso, sabe? Portanto, ainda vejo a minha voz como uma desvantagem.
Mas também a vê como um dom, certo?
Absolutamente.
Uma bênção…
Sim, sim, também a vejo dessa forma. Sou muito grato à natureza, a Deus, por ter esta particularidade, porque é isso que me permite fazer aquilo de que gosto.
Quando e como surgiu a música na sua vida?
A música surgiu na minha vida de uma forma bastante aleatória, inesperada. Não venho de uma família rica ou com muito dinheiro; na verdade, venho de um meio humilde. O meu pai vem de uma favela em Caracas. Ambos os meus pais são professores universitários e trabalhavam o dia todo, das sete da manhã até às sete ou oito da noite. E à tarde, quando terminávamos a escola, eu e os meus irmãos tínhamos sempre de estar ocupados. Uma dessas atividades para mim, que sou o mais novo, era tocar piano. Depois puseram-me em aulas de música à tarde, e foi assim que descobri a música. Mas além da música, fiz muitas outras coisas: natação, basebol, futebol, karaté… fiz muitíssimas coisas e a música foi uma delas.
O ensino da música clássica tem uma grande importância na Venezuela, não é? Todos conhecemos Gustavo Dudamel e o El Sistema…
É verdade. Mas ainda não temos tanto a cultura da ópera. Temos cultura sinfónica, cultura instrumental, mas a cultura operática ainda não se consolidou na Venezuela.
Como descreveria a sua voz aos nossos leitores, que não o estão a ouvir?
É muito difícil, porque acredito que a minha voz é também a minha personalidade. Diria que a minha voz é muito rebelde, como eu. [risos] É rebelde, às vezes é bonita… Mas de todos os adjetivos que possamos utilizar – uns podem achar bonita, outros feia –, acho que algo que todos os que me ouvirem concordarão é que a minha voz é sincera. Quando canto, sinto-me livre. Quando canto, não tenho filtros nos meus sentimentos. Sinto que consigo dizer o que realmente sinto dentro de mim, e acho que esse seria o principal adjetivo que gostaria de usar para descrever a minha voz: uma voz sincera, honesta e real. Real também porque sou como tu ou qualquer outra pessoa; também tenho diferentes problemas na minha vida e, infelizmente ou felizmente, os problemas manifestam-se sempre através da voz. Quando temos vontade de chorar, a nossa voz fica trémula; quando estamos muito felizes, a nossa voz fica muito aguda. Isso também faz parte da minha voz, é real.
Mas sempre rebelde…
Muito rebelde mesmo. É muito difícil de controlar, porque o meu cérebro está ocupado com a técnica, com fazer as coisas como deve ser, mas depois a minha voz diz-me que não quer, que não quer fazer assim, que não consegue fazer assim. Tenho uma espécie de relação de amor-ódio com a minha voz.
Sente-se orgulhoso por fazer parte da tradição dos castrati, algo que desapareceu há muito?
Não posso dizer que me orgulho totalmente. Existe o aspeto do estrelato dos castrati, como Farinelli ou Cafarelli, esses grandes nomes, mas também houve um lado muito mau para a sociedade. Penso que mais de dois mil rapazes eram castrados por ano, naquela altura, e apenas sobreviviam uns poucos, porque não havia antibióticos, nada. E tudo era feito em nome da música – bom, e também por causa da religião, que impedia as mulheres de se apresentarem em palco. Por isso talvez não me sinta totalmente orgulhoso, mas sinto-me privilegiado por poder cantar este tipo de música, ainda que não a cante sempre, por motivos de saúde.
Por motivos de saúde?
A música de castrato é extremamente virtuosa, com notas extremamente agudas, para cima e para baixo, e aprendi com os cantores das gerações anteriores, com os contratenores que cantaram antes de mim, que se dedicaram exclusivamente à música para castrati. As suas vozes só aguentaram até aos 40 anos. E eu percebo porquê: é uma música tão exigente que o instrumento simplesmente fica esgotado a fazer todas estas piruetas, de ir acima e abaixo. É por isso que presto muita atenção ao que posso cantar como castrato e ao que não posso. É também por isso que canto muito repertório feminino. É muito mais saudável para a voz.
Um instrumentista profissional precisa de praticar muitas horas. Como é que um cantor, neste caso um sopranista, pratica? Também não pode forçar demasiado a voz, pois não?
Não, não posso forçar demasiado a voz. Pratico muitas horas, mas ultimamente o que mais tento fazer é também encontrar inspiração. E isso ocupa horas e horas da minha vida. Claro que preciso de praticar o meu instrumento; pelo menos uma ou duas horas e meia por dia. E depois preciso de aprender as notas, preciso de trabalhar o fraseado, a letra — isso é outro trabalho. Gostava de ser como um instrumentista, trabalhar 20 horas por dia se fosse preciso, mas infelizmente não posso porque preciso de cuidar do meu instrumento, que é a voz.
E onde procura essa inspiração? Ouvindo música, passeando no jardim…
A minha primeira inspiração é a natureza, os sons da natureza. Acredito que a música, e o canto, especialmente, por ser o primeiro instrumento do mundo, foram criados a partir da imitação dos sons da natureza, da imitação dos pássaros, da imitação do vento e assim por diante. A minha primeira inspiração é a natureza. E diria que a minha segunda inspiração é a humanidade, as pessoas, os sentimentos humanos, o que estamos a ver hoje no mundo em que vivemos.
Lembra-se da primeira vez que saiu da Venezuela? Como foi a experiência?
Lembro. Foi por volta de 2008, estava na Schola Cantorum, na Venezuela, e fizemos uma digressão em França. Cantar lá foi uma experiência muito bonita. E em 2013 mudei-me para cá para estudar no Conservatório de Paris. E depois fiquei. Hoje vivo em Berlim.
O mundo da música clássica e da ópera pode ser bastante conservador. Isso alguma vez lhe trouxe dissabores?
Não. Não tenho nada contra as coisas conservadoras. Na realidade, gosto muito de produções conservadoras. Adoro O Quebra-Nozes, esse tipo de coisas. O que me desilude é que não possa haver palco para toda a gente neste género musical. E é por isso que luto e que me esforço. No final de contas, a mensagem que quero passar é que pode haver um palco para todos neste género musical. Para pessoas de diferentes origens, para pessoas da Venezuela, para pessoas que não cresceram com música clássica, como eu, que também podem encontrar a sua inspiração aqui. E o que acontece é que continua a ser um meio muito fechado, muito conservador, onde não há espaço para pessoas diferentes. Acho que essa seria a minha única desilusão.
E como passa essa mensagem? Através da maneira como se veste, por exemplo?
Sim, pela maneira de vestir, pela maneira de cantar… E tento ser o mais autêntico possível. Houve uma altura em que tentei adaptar-me às coisas mais conservadoras e encaixar-me nesse padrão, mas é muito difícil porque não fui educado assim, não sou esse tipo de pessoa. [risos] Acho que tens de ser tu próprio, fazer o que te vem do coração. Claro, sempre respeitando os outros.
A sua voz é o seu instrumento de trabalho. Imagino que tenha de cuidar bem dela para que esteja sempre em óptimas condições. Isso implica sacrifícios?
Muitos. Desde que decidi que era isto que queria fazer, a minha vida tem sido de sacrifícios. Por exemplo, nunca fui a festas nem nada do género, embora adore dançar. Não vou a festas porque a música é tão alta que no dia seguinte não estaria a ouvir em condições, e além disso há o fumo dos cigarros. Mesmo assim, tento manter a minha vida o mais normal possível. Gosto de ir ao supermercado fazer as compras; isso relaxa-me. Gosto de limpar a casa e gosto de manter as coisas o mais simples possível, porque já vi muitos cantores com todos aqueles rituais antes dos concertos e testemunhei que, quando lhes falta alguma coisa, por muito pequena que seja, ficam a tremer. Não quero que isso me aconteça. Não quero sentir falta de nada porque verdadeiramente não preciso de nada.
Vemo-lo nos vídeos sempre a cantar com um sorriso no rosto, como se fosse fácil. Não tem de esforçar-se?
Tenho, claro. Faço muitos recitais e os recitais exigem esforço. Muitas vezes é uma luta, porque há momentos em que canto uma peça e penso: ‘Já disse o que tinha para dizer ao público, já lhes transmiti a emoção que queria transmitir’. Só que um recital tem uma hora de duração, é preciso continuar até ao fim. Algumas peças são tão profundas emocionalmente, envolvo-me tanto com a música que voltar à realidade é muito difícil. E é muito arriscado envolver-se tanto, porque às vezes já não se percebe se são os nossos próprios sentimentos a falar, os sentimentos da música ou da personagem.
Vem a Lisboa cantar sobretudo obras de Händel. O que tem de especial para si a música barroca e porque acha que continua a ter tanto significado para nós ao fim de cerca de três séculos?
Händel é um compositor muito teatral – tudo é muito teatral, com muitos efeitos. E também é muito carinhoso com a voz. Não é como o Vivaldi, que é muito mais instrumental. Mas penso que a música barroca ainda ressoa hoje por causa das emoções que evoca. É uma música muito emotiva. E tem muitas semelhanças com a música que se faz hoje, sempre com aquela linha de baixo, e tem imenso ritmo. Acho que isso diz muito à minha geração – a várias gerações, na verdade. Crescemos com música pop, música rock, que tem sempre aquela linha de baixo constante, tal como a música barroca. Portanto, acho que é muito acessível. É menos complicada que Wagner, muito menos complicada que Wagner [risos], às vezes muito menos complicada que Puccini, e essa acessibilidade a um público mais vasto também conta.
Onde vai buscar toda essa alegria e energia? É algo que lhe vem de dentro?
Acho que vem da liberdade, da sensação de liberdade. Desde que me lembro, sempre me disseram o que tenho de fazer, como me devo comportar, como me devo vestir, como devo cantar. Acho que essa alegria vem do simples facto de ser livre, de ser livre quando canto, de ser livre em palco e, finalmente, de ser eu próprio.
Sente-se mais livre em Berlim do que era em Caracas?
É um tipo de liberdade diferente, porque em Berlim, por exemplo, não tenho a minha própria língua. Não posso falar castelhano, e acho que a tua personalidade também vem da tua língua, das expressões que usas, tudo isso. Para mim, isso é liberdade: poder falar castelhano, poder falar ‘venezuelano’. Mas, ao mesmo tempo, Berlim, e a Europa em geral, ofereceu-me outro tipo de liberdades que porventura ainda não existem no meu país, como a liberdade de género, a liberdade em muitos outros aspetos, incluindo a liberdade económica. São coisas diferentes.
Mantém-se a par do que acontece na Venezuela, vê as notícias? Tem família lá?
Sim, claro, os meus pais vivem em Caracas — os meus pais e toda a minha família. Só a minha irmã vive em França e o meu irmão no Chile. Estou a par de tudo o que acontece na Venezuela. Durante um tempo tentei, como fazem muitos cantores de ópera, viver numa bolha. Dizer: ‘Eu faço arte, a política não me interessa’. Mas isso é impossível porque ainda estou muito ligado às pessoas da Venezuela, sou venezuelano e represento a Venezuela, também. Continuo atento. O que tem acontecido nestas últimas semanas, como o ataque à Venezuela proposto pelo Presidente Trump, não me parece correto. Há um bocado perguntou-me de onde me vem a inspiração. Também vem desses acontecimentos, bem como da ação política de María Corina, que apoio, juntamente com a oposição, para que nos possamos livrar do regime de Maduro. Isso também me inspira, porque, como disse, quando canto, sinto-me livre, e gostava que todos no meu país também fossem livres.
Tem medo de perder a voz, ou pelo menos ese timbre que a torna tão especial?
Tenho muito medo, porque sei que nada dura para sempre. Sei que não vou ter esta voz para o resto da vida. Não acredito. Nem Alfredo Kraus, que teve uma voz espetacular até aos 70 anos, era o mesmo que era em jovem. Tudo tem tendência para desaparecer, por isso tento aproveitar ao máximo o que tenho e também ouvir o meu instrumento. Por exemplo, hoje estou com 31 anos e a minha voz e o meu cérebro dizem-me que já não quero demonstrar tanto virtuosismo, o virtuosismo já não é algo que me atraia verdadeiramente. Talvez me sinta mais atraído pelo legato, pela linha melódica, pelas emoções mais profundas do que pelas mais superficiais. Talvez seja algo que a minha voz e o meu cérebro me vêm dizendo há algum tempo.
Alguma vez lhe passou pela cabeça tornar-se uma estrela da pop?
Sim, já me passou pela cabeça. Não porque queira ser uma estrela, não quero isso, mas porque gostaria de levar a minha mensagem de liberdade a um público mais vasto do que o da ópera. Talvez isso fosse a única coisa que me faria sonhar ser uma estrela pop.
Quem sabe um dia…
[risos] Não sei, porque sou uma pessoa muito, muito simples. Adoro a minha vida normal, ir ao supermercado, fazer compras. E não sei se me sentiria bem com toda a gente a reconhecer-me. Há duas semanas, estava na Indonésia, e fui reconhecido na rua. [risos] Não sei, parece-me tão estranho…