Terminou a maratona de debates presidenciais televisivos. Analiso-os, aqui, segundo um conjunto de critérios que considero importantes. (Por economia de espaço, e não existindo perigo de confusão, designarei os candidatos pelas suas iniciais.)
Existem três candidatos de esquerda – CM, AF e JP –, no sentido tradicional de preferirem a igualdade à liberdade; três ao centro – LMM, HGM e AJS – que se distinguem pelas generalidades ou argumentos formais, que tantas vezes camuflam posição substantivas; e dois à direita – JCF e AV. Aqui, à direita, as diferenças são muito mais acentuadas do que à esquerda ou no cinzento centro: JCF é de uma direita liberal, em muitos aspetos societais próximo da esquerda, mas cuja declaração perentória de não-veto do projeto de lei Trabalho XXI ou da lei da nacionalidade são marca de água de um candidato de direita; AV é de uma direita iliberal, quem em muitas matérias económicas está muito próxima da esquerda (vide, TAP, pensões, Mercosul).
Para quem considera que a verdadeira imagem de marca do populismo é não tanto a agenda, mas a recusa de argumentos cognitivamente sofisticados face aos de ‘senso comum’, AV é o campeão do populismo, num campo que inclui também a esquerda, sobretudo CM e JP. No outro extremo, o da ‘argumentação ilustrada e especialista’, JCF.
Apenas um candidato revela perceber o facto fundamental de que as pessoas reagem a incentivos, e ele é JCF. Trata-se de um ponto basilar para entender o alcance, o modo e as limitações das políticas públicas, em áreas tão diversas como o SNS, a habitação, a fuga de talento jovem, a reforma laboral, o crescimento empresarial ou a privatização da TAP. À esquerda pede-se sempre mais Estado e, no fundo, nacionalizações puas e duras. Ao centro, ‘business a usual’ numa economia e sociedades sobre regulamentadas. Para AV o único problema da intervenção estatal e das suas falhas é a corrupção que se propõe resolver policialmente. Dir-se-á que não são matérias do escopo presidencial. Talvez, mas são ilustrativos de mundivisões que são relevantíssimas para o desempenho do cargo.
Quanto ao ‘estilo presidencial’ – reativo ou proativo –, a generalidade dos candidatos deseja exercer uma ‘magistratura de influência’ promovendo através dela as suas agendas prioritárias. Ao centro imperaria uma magistratura discreta (talvez mais a de ASJ), centrada nos Conselhos de Estado (onde LMM parece depositar enorme fé), nas reuniões das quintas-feiras ou na promoção do diálogo (sem foco concreto ou baseado em banalíssimas agendas). Um Presidente à esquerda, por outro lado, seria muito interventivo em defesa de uma leitura ‘abrilista’ da Constituição. Semelhante, de sinal contrário, seria o estilo de AV: estridente, condicionando os governos e testando os limites legais os poderes presidenciais. Os estilos de JCF e HGM são menos previsíveis: suspeito-os interventivos e com desejo de ter uma palavra efetiva (mais ou menos discreta) nas suas áreas de especialidade (a economia e a defesa, respetivamente).
O mais decisivo, para mim, é a apreciação que fazem da evolução do estado da nação ao longo deste século. Todos dirão que não foi famoso. Mas a verdadeira questão é qual a urgência corrigir o rumo. Para LMM e AJS o essencial está bem e são necessários apenas uns ligeiros ajustamentos aqui e ali, feitos com consenso, diálogo e gradualismo. HGM não se percebe bem: sugere urgência, mas não entendo onde e para onde. À esquerda, é urgente subverter das regras do jogo capitalista que traíram Abril. De resto, apenas JCF e AV transmitem impaciência na necessidade reverter a trajetória de declínio económico e social que tem caracterizado este século. Ao Presidente não cumpre ser protagonista desta inversão. Mas está certamente no seu poder insistir para que tal se faça.
Os debates consolidaram a minha opinião sobre o que não desejo. Não desejo que vença alguém que a pretexto da defesa do regime (entenda-se a democracia) acentue a anquilose do seu modo de funcionamento e a frustração dos cidadãos como esse próprio regime.