Sociedade

Quais as diferenças entre a nova e a antiga emigração portuguesa?

Nas vésperas do mês de férias dos emigrantes, o Governo apresentou no parlamento um relatório sobre os portugueses no estrangeiro. O estudo, que excluiu os luso-descendentes, pretende ser um primeiro retrato anual sobre actual emigração portuguesa.

Aqui ficam, segundo o Relatório da Emigração 2013, do Observatório da Emigração, os principais traços da nova e antiga emigração portuguesa:

Portugal é o país da União Europeia com mais emigrantes

Dos 216 milhões de emigrantes em todo o mundo em 2010, 2,3 milhões eram portugueses, o que colocava Portugal como 12º país do mundo com mais emigrantes e o primeiro entre os países da União Europeia proporcionalmente à sua população.

Contando com os descendentes directos destes emigrantes, a população de origem portuguesa no estrangeiro ultrapassará os cinco milhões.

Em meio século (1960-2010), o número de emigrantes portugueses na Europa cresceu nove vezes, passando de 165 mil para mais de um milhão.

Em 2010, mais de dois terços dos portugueses emigrados viviam na Europa e quase um terço na América do Norte e do Sul. 

Seis dos dez principais países de destino da emigração portuguesa eram europeus, bem como os dois países com mais emigrantes portugueses: França e Suíça.

O país da UE em que viviam mais emigrantes portugueses eram França (617 mil recenseados), seguindo-se Espanha (99 mil), Reino Unido (92 mil), Alemanha (75 mil) e Luxemburgo (61 mil).

O essencial da emigração portuguesa para os países da EFTA concentrava-se na Suíça (quase 170 mil). 

Mais de 80 mil portugueses saíram anualmente do país durante os anos da troika

A crise mundial de 2008 fez diminuir a emigração portuguesa, mas a partir de 2010, com a Europa a dar sinais de retoma, Portugal, mergulhado ainda na crise da dívida soberana, sob um programa de assistência financeira e com taxas de desemprego recorde, viu aumentar o número de saídas do país.

Estima-se que, entre 2007 e 2012, deixaram o país, em média, 80 mil portugueses por ano.

Nos anos mais recentes estimativas feitas pelo secretário de Estado das Comunidades, José Cesário, colocavam o número de saídas anuais acima das 100 mil.

Oito dos dez países com mais entradas de portugueses eram europeus, durante o período de 2001 e 2008, altura em que a Espanha, Suíça e Reino Unido eram os primeiros destinos da emigração portuguesa.

Nos últimos anos o Reino Unido destronou a Espanha - que ocupa agora o quarto lugar - como o principal destino de portugueses.

Entre os destinos preferidos dos portugueses, destaca-se ainda o ressurgimento da Alemanha.

Reino Unido, Suíça, Alemanha e Espanha são agora e por esta ordem os destinos da emigração portuguesa, embora os investigadores aconselhem prudência na leitura desta hierarquização dada a "ausência de dados recentes fiáveis" sobre a entrada de portugueses em França, Angola e Moçambique.

Para Angola e Moçambique estima-se que irão cerca de 10 a 12 por cento dos emigrantes portugueses e 1 por cento para o Brasil.

Em dez anos, entre os censos de 2001 e 2011, a população portuguesa emigrada nos países da União Europeia e da EFTA registou taxas de crescimento que variavam entre os 6 por cento na Alemanha e os 150 por cento no Reino Unido.

Em termos absolutos, os crescimentos mais significativos ocorreram na população emigrada na Suíça (mais 68 mil pessoas nascidas em Portugal), no Reino Unido (mais 55 mil), Espanha (mais 42 mil), França (mais 36 mil) e Luxemburgo (mais 19 mil). 

Em 2013, os dados do Observatório dão contra da entrada de 30.121 portugueses no Reino Unido, 11.401 na Alemanha, 2.913 no Brasil, 815 na Noruega e 443 na Dinamarca, valores que confirmam "a tendência para um aumento acentuado da emigração.

Emigração mais masculina e comunidades mais envelhecidas

Quando considerados os 34 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), onde a emigração portuguesa cresceu 17 por cento, as novas entradas registadas entre 2000 e 2011 não foram suficiente para compensar o envelhecimento da população ali residente.

Os portugueses idosos residentes cresceram 80 por cento, enquanto os adultos activos, dos 25 aos 64 anos, aumentaram apenas 10 por cento.

Em 2001, os idosos representavam 10 por cento dos emigrantes nestes países, passando em 2011 para 15 por cento. Pelo contrário, os adultos activos caíram de 84 por cento para 79 por cento dez anos mais tarde.

Brasil, Canadá, Estados Unidos e Venezuela contam-se entre os países com comunidades emigrantes mais envelhecidas.

No mesmo período, a emigração portuguesa "tornou-se ligeiramente mais masculina", com um crescimento de 19 por cento no número de homens emigrados. As mulheres registaram uma subida de 14 por cento.

O relatório atribui esta subida da emigração de homens ao "grande crescimento de uma emigração para Espanha em que predominava a procura de trabalho pouco qualificado no sector da construção e obras públicas".

Mais quadros superiores, mas portugueses continuam a ser operários

Nos últimos anos, registou-se a emigração de um significativo número de quadros com qualificações académicas superiores, mas a maioria dos portugueses que deixam o país continuam a ter apenas o ensino básico.

Desde 2001, os quadros superiores foram o grupo de emigrantes que mais cresceu, quase duplicando (88 por cento), no entanto em 2010/2011 mais de metade dos que emigraram continuavam a ter apenas o nível básico de escolaridade (61 por cento), embora o seu peso na emigração tenha caído.

Quase um terço dos portugueses emigrados tem o ensino secundário, tendo aumentado 5 por cento a sua proporção entre 2000/01 (23 por cento) e 2010/11 (28 por cento). 

Os portugueses com o ensino superior representam 10 por cento do total, em 2010/11, quando há dez anos representavam apenas 6 por cento.

As profissões predominantes entre os portugueses emigrados são as profissões operárias, que ocupavam cerca de um terço (31 por cento) dos portugueses emigrantes. 

Outro terço era composto por trabalhadores não qualificados e trabalhadores de montagem ou operadores de máquinas e 10 por cento eram quadros superiores ou dirigentes, a mesma percentagem pessoal nos serviços e vendedores. 

As profissões com menor proporção entre os portugueses emigrados eram as relacionadas com a agricultura e pescas (3 por cento).

Por país de residência, a emigração portuguesa era "mais operária" nos países da emigração europeia dos anos 1960, com maior peso dos pequenos negócios em países como a África do Sul, o Brasil e a Venezuela, e mais terceirizada em destinos como o Canadá e o Reino Unido.

O relatório regista ainda que, muitas vezes, apesar de terem cursos superiores, os portugueses ocupam trabalhos abaixo das suas qualificações.

Remessas crescem desde 2011 e representam quase 2 por cento do PIB 

Os emigrantes portugueses enviaram em 2013 mais de três mil milhões de euros em remessas, valor que representa cerca de 1.8 por cento do Produto Interno Bruto (PIB) do país.

França e Suíça são a origem de mais de metade do total de remessas recebidas em Portugal (30 por cento e 25 por cento, respectivamente). 

O terceiro país mais importante é Angola, de onde são originárias 10 por cento das remessas recebidas. 

Alemanha, Espanha e Reino Unido, que com a Suíça integram o grupo dos quatro principais países de destino da emigração actual, seguem-se na lista dos países que mais dinheiro mandam para Portugal, todos com envios acima dos 100 milhões de euros anuais. 

Abaixo dos 100 milhões de euros anuais estão os EUA, o Luxemburgo, a Holanda e a Bélgica. 

No conjunto, estes dez países estão na origem de 93 por cento do valor total das remessas recebidas em Portugal.

O valor das remessas começou a registar quebras a partir de 2001, foi oscilando até 2011 e subiu significativamente em 2012 e 2013, ainda que o valor continue bastante abaixo do registado em 2001. 

Em 2007 e 2008, o peso subiu ligeiramente, tal como nos últimos anos, desde 2011, para valores já próximos dos 2 por cento do PIB, mas ainda longe dos 3 por cento no início deste século e muito longe dos cerca de 10 por cento do PIB em 1979.

Recuperar economia para travar emigração

No preâmbulo do Relatório da Emigração relativo a 2013, que o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas apresentou no Parlamento em meados de Junho, o Governo reconhece que desde 2010 a emigração tem aumentado "muito rapidamente" e defende o "imperativo estratégico da recuperação económica", como "a única forma" de travar a emigração e garantir "o regresso de muitos dos que saíram".

O relatório assume que o fenómeno da emigração tem hoje "características substancialmente diferentes das que se verificaram anteriormente", entre as quais "a migração de um significativo número de quadros com qualificações académicas superiores" e "de famílias inteiras, incluindo um número significativo de crianças em idade escolar", bem como "de pessoas com idades mais avançadas e por vezes com empregos duradouros em Portugal, em resultado de dificuldades para cumprirem compromissos estabelecidos".

Este foi o primeiro relatório desde a aprovação, há um ano, de uma resolução da Assembleia da República que pedia ao Governo relatórios anuais sobre esta matéria. 

A Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas sublinha, no documento, que este é um "fenómeno muito complexo", sobre o qual várias organizações produzem dados, o que apresenta "problemas de harmonização".

Uma das dificuldades relaciona-se com a questão dos luso-descendentes, sobre os quais apenas poucos países apresentam dados.

Por isso, os investigadores conseguiram apenas estimar "a ordem de grandeza da população de origem portuguesa constituída a partir da emigração", considerando "provável" que, em 2013, aquela população se situasse entre os 5 e os 5,5 milhões de pessoas.

Lusa/SOL