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Jardins por um fio

O projecto inspira-se numa técnica milenar japonesa (kokedama), mas a sua autora é bem portuguesa. Apesar de Ana Miguel desenvolver o seu trabalho como arquitecta paisagista em Vila Real, a sua paixão pelo mundo vegetal não conhece fronteiras. Os seus pequenos e delicados objectos sintetizam, numa interpretação pessoal, o jogo entre a ciência e a arte. Apesar de não falar com elas, a autora de FIU revela que tem uma ligação especial com as plantas e diz que é importante percebê-las e entender as suas necessidades. “Estou sempre atenta aos sinais que vão mostrando”.


A construção de cada peça é totalmente manual. Depois da moldagem da terra das raízes, em forma esférica, o musgo seco é usado como vaso orgânico, que envolve o torrão. O fio dá-lhe o toque final e permite que seja pendurado em qualquer lado. “Deparei-me com esta derivação da técnica bonsai e quis aprofundar a pesquisa. Depois de algumas experiências fui aperfeiçoando, até obter os objectos que vemos hoje”, diz orgulhosa a paisagista.

O sucesso do FIU aconteceu, em grande parte, graças às redes sociais: “Partilhei com alguns amigos no Facebook, que me incentivaram a continuar. Graças ao passa-palavra surgiu a hipótese de vender em algumas lojas e no meu site”. O cuidado que estas plantas exigem requer que a escolha dos pontos de venda seja criteriosa porque, revela Ana Miguel, “para serem regadas, as peças devem ser mergulhadas num recipiente durante uns minutos, deixar escorrer e voltar a pendurar. E nem toda a gente tem paciência para isso”, diz-nos com a voz tranquila de quem passa largas horas imerso num trabalho delicado e minucioso.

Acessíveis a todas as carteiras (os preços variam entre os 6 e os 40 euros), as plantas da FIU podem ser encontradas à venda nas lojas CRU e Mundano, no Porto, e no espaço de Alexandra Moura, em Lisboa. Quem não tiver estas cidades por perto, tem sempre a possibilidade de recorrer ao site, que faz envios para todo o país e até para o estrangeiro.

Aberta a desafios que os clientes lhe lançam, Ana Miguel dá preferência às plantas que conhece melhor e que não precisam de muito espaço na raiz, adaptando-se assim melhor a este tipo de vaso. “Trabalho muito com os fetos, com aromáticas, suculentas e árvores anãs. A cada peça junto uma etiqueta com as suas necessidades em termos de rega e de luz”. A arquitecta adverte que há que ter atenção a algumas situações muitas vezes negligenciadas mas que, ainda assim, podem afectar a saúde destes seres, como o arejamento das casas, o uso de ar condicionado ou a adaptação dos cuidados à estação do ano, entre outros factores.

Ana Miguel já perdeu a conta às plantas que saíram das suas mãos. O volume de trabalho varia consoante as épocas do ano e depende de encomendas especiais, como casamentos ou instalações para espaços comerciais. Uma certeza que ganhou é que FIU, além de um passatempo, é uma paixão que lhe ocupa todo o tempo livre. Mas isso é, na sua opinião, um privilégio. E revela: “Não é um trabalho monótono, porque cada planta é um mundo”.