Politica

João Proença: 'Costa foi empurrado por quem sentia o lugar em causa'

O director de campanha de António José Seguro espera que o vencedor das primárias, seja qual for, dê lugares no partido a quem ficar na oposição interna. Nas alianças de Governo, diz que não se pode excluir Marinho Pinto.

António José Seguro propõe reduzir deputados. Que sentido faz diminuir a representação do interior do país, ao arrepio da defesa da província, uma bandeira do líder do PS?

Vai uma grande confusão sobre esse assunto, quer na representação da província, quer dos pequenos partidos. Os pequenos partidos vão ficar a ganhar porque até agora não elegem em muitos círculos eleitorais e vão ter um círculo nacional no qual todos os votos contam. Quanto ao interior, os deputados aí já são poucos, pelo que um sistema proporcional não os irá reduzir ainda mais. A redução não é para poupar dinheiro, mas para garantir uma melhor representação, maior ligação dos eleitores aos eleitos e um melhor funcionamento do Parlamento.

Outro aspecto de reforma é o aumento de incompatibilidades dos deputados. Há uma aproximação ao discurso populista, que considera que os políticos são desonestos?

Hoje há um descrédito da classe política, ligada a vários fenómenos que incluem casos de corrupção e a confusão entre política e negócios. É urgente que haja mais transparência no exercício da actividade política e fundamental mostrar que em política não vale tudo. As eleições europeias, em Portugal e noutros países, puseram esse tema na agenda.

A condenação judicial recente de figuras do PS, de Armando Vara e José Penedos a Maria de Lurdes Rodrigues, é um embaraço para o PS ou é um bom argumento sobre a necessidade dessa reforma?

Acho que esses casos são um alerta para a necessidade de maior transparência. Mas nenhuma dessas pessoas está condenada definitivamente, e espero que ainda haja uma alteração das decisões. Verifico também que, enquanto estes casos já foram julgados, os grandes casos de confusão entre actividade política e os negócios, como os do BPP e BPN, ainda não conduziram a uma sentença. O que é surpreendente.

Seguro tem-se assumido como o representante do militante anónimo, do homem de província, contra o elitismo de Lisboa e das elites. Este PS rejeita as suas elites?

O PS é um partido com elites, implantado no meio universitário e a nível nacional, mas também de bases. Um partido que nunca teve guerras de barões, ao contrário de outros, mas agora alguns querem fazer valer não os baronatos, mas o poder das grandes figuras do partido. Lá porque um candidato tem com ele alguns de dirigentes, nomeadamente ligados a Lisboa, isso não significa que as elites estejam mais com uma candidatura do que com outra. O que o Seguro pretende dizer é que todos os votos valem por igual. E o que é preciso dizer é que o poder centrado no Terreiro do Paço já acabou.

A vitimização de António José Seguro, acusando Costa de deslealdade, não corre o risco de ser a marca que deixará nas primárias?

Não há vitimização, há uma reacção de quem se sente numa situação de dificuldade. Repare-se que António Costa, que apareceu com uma atitude messiânica a alegar que era o melhor homem para dirigir o PS, não teve a coragem de assumir de forma direcção a convocação de um congresso extraordinário. Foi sempre por meios estranhos, com moções colocadas à última hora em comissões políticas. É preciso também recordar que José Sócrates demitiu-se há três anos depois da segunda maior derrota eleitoral do PS e então António Costa não quis ser candidato, invocando que tinha um compromisso com o povo de Lisboa. Seguro foi eleito secretário-geral, e não tendo estado ligado ao Governo de Sócrates, mas assumindo a herança dessa governação, conseguiu rapidamente colocar o PS à frente nas sondagens. E o PS foi o único partido socialista do Sul da Europa que passou para a frente dos partidos conservadores.

Diz que Seguro assumiu a herança da governação socrática? Um dos ataques que fazem a Seguro é ele ter feito o contrário disso.

O PS foi julgado pelos eleitores, com uma derrota pesada. Sócrates teve coisas muito boas e teve coisas más. Teve um problema que foi o de que assinou um memorando com a troika altamente penalizador, negociado num clima de ruptura financeira do país. Podemos achar que a culpa foi da direita e os partidos à esquerda que forçaram a queda do Governo. É verdade, poderia não ter havido um memorando, e o memorando foi negociado à pressa por um Governo que não estava preparado para aquela negociação. O Governo fez muitas asneiras na negociação do memorando.

O líder do PS exclui de futuras alianças de Governo este PSD e a esquerda que não é europeísta. Quem sobra?

Ele não diz bem isso. O PS se não tiver maioria absoluta, terá de negociar um programa de Governo. Seguro limita-se a indicar que há matérias das quais não prescinde na negociação desse programa: a defesa do Estado Social, a continuação de Portugal na Europa e no euro, a recusa da privatização de sectores fundamentais da economia. Não exclui ninguém à partida.

Marinho Pinto é um aliado possível?

Para já ninguém sabe o que é Marinho Pinto. Qual é o seu programa eleitoral? Mas ninguém pode excluir Marinho Pinto, como não pode excluir o Livre ou outros partidos com representação parlamentar, a não ser partidos de extrema-direita.

Diz-se que o PS ficará fracturado durante muito tempo. Como pensa fazer pontes se Seguro ganhar?

Como se fizeram no passado. O PS, em termos internos, não pode ficar prisioneiro de grupos e de alianças do passado. Tem de ser capaz de mobilizar os melhores. Seguro demonstrou que o consegue fazer, com a lista para o Parlamento Europeu. E nesta campanha para as primárias demonstrou que sabe liderar e está pronto para ser primeiro-ministro. Portanto estou confiante que depois das eleições saberemos ultrapassar esta crise, que abriu feridas e atrasou a oposição ao Governo. A maioria absoluta nas legislativas estava à vista.

Se Costa ganhar as primárias, tem disponibilidade pessoal para colaborar com a nova liderança do PS?

Há que perguntar a próxima liderança se quer unir o partido ou dividir o partido. Mas depois das eleições, seja qual for a liderança, haverá maiorias e minorias no PS, como já havia. Seguro fez questão na comissão política e na comissão nacional de incluir um terço do que representava a lista de Francisco Assis em 2011. Portanto sempre tentou, e bem, assegurar a representação da minoria quando houve luta no interior do partido. Vamos ver como será no futuro.

Espera que essa tradição de representação da minoria se faça, mesmo se Costa vencer, é isso?

Sim. O partido sempre teve presente a unidade na diversidade. Esperemos que se mantenha.

Para lá das críticas a Costa, vê algum mérito dele neste processo de confronto interno?

Neste momento, acho que foi muito mau. Penso que ele foi empurrado por quem sentia o seu lugar de deputado em causa ou que tinha ambições políticas e precisava de um outro líder. Ele foi o líder disponível. Foi mau para o partido que tivesse avançado neste momento. Agora, António Costa é um político com muitas qualidades, como outros, por exemplo, Jorge Coelho, António Vitorino ou António Guterres. Todos eles são líderes de presente e de futuro.

António Costa tem o apoio de todos os ex-líderes que tomaram posição, da maioria dos presidentes de câmara e de presidentes de concelhia. Não é uma evidência que o partido o prefere?

Não. Nas eleições federativas Seguro teve o apoio da maioria dos militantes. E não acho que António Costa tenha o apoio da maioria dos notáveis do partido. A maioria deles não se pronunciou. E se há uma maioria de presidentes de câmara, estou convencido que a maioria dos autarcas apoia Seguro. Nas federações, Seguro tem consigo a maioria dos militantes. Mas essas contabilidades não nos preocupam.

Como vê o facto de Sócrates usar o espaço que tem na RTP para fazer campanha por António Costa?

O último programa foi especialmente infeliz. Ainda por cima numa televisão pública. 

manuel.a.magalhaes@sol.pt