Cultura

Editor de Herberto Helder: ‘Não temos culpa que as pessoas açambarquem os livros’

Poemas Completos, de Herberto Helder, publicado ontem, reúne toda a obra do autor?

Poemas Completos, de Herberto Helder, publicado ontem, reúne toda a obra do autor?

Sim. Ele tem vindo a reunir periodicamente a sua obra completa, com títulos diferentes, ao longo dos anos. Há alguns poemas que não incluiu.  Desta vez optou pelo título Poemas Completos. Mas são os poemas completos que ele quer. Ou seja, o que ele considera o corpus definitivo da sua obra, incluindo os dois últimos livros. 

A tiragem deste livro vai ser limitada?

Em relação aos livros individuais, como aconteceu como o Servidões e A Morte sem Mestre, a tiragem é limitada. No caso da obra completa não há uma procura semelhante aos livros inéditos. A tiragem dura normalmente até chegar a altura de o poeta organizar uma nova edição da sua obra completa. Neste caso não se pode falar de uma edição limitada mas pode-se presumir que, em princípio, não haverá uma reedição. Se daqui a um ano ele publicar um novo livro inédito, vai querer pô-lo na sua obra completa, da qual haverá uma nova edição. Neste caso não se põe o problema de esgotamento e de corrida aos livros que tem acontecido nos inéditos.

E por que acontece isso com os inéditos?

Há duas razões. Primeiro, o Herberto Helder é, indiscutivelmente, o maior poeta português vivo. É natural que muita gente queira ter os seus livros. Depois, a tiragem limitada também provoca, ou acentua, uma corrida a esses livros. Temos de compreender que o Herberto Helder não gosta que os seus livros perdurem no tempo. É um poeta que está constantemente a retrabalhar os seus poemas. Passados seis meses provavelmente já os modificou. De certa maneira, ele quer que os livros sejam efémeros, durem um período de tempo curto. Depois reaparecem corrigidos nas obras completas. Quem não comprou o Servidões e A Morte Sem Mestre, vai tê-los agora nos Poemas Completos, numa versão revista e corrigida.

Há estudantes a pagar centenas de euros pelos seus livros. Ele tem noção disso?

Não sei. Sei que tem noção de que há uma grande especulação em torno dos seus livros. Que quando sai um livro inédito há pessoas, entidades ou alfarrabistas que conseguem comprar 20 ou 30 exemplares para vender a preços especulativos. Desde o primeiro livro do Herberto que isto acontece. Fizeram agora uma grande especulação em relação à limitação da tiragem apenas porque estava por trás uma editora grande como a Porto Editora. A mais prestigiada editora de poesia em Portugal, a & etc, faz 300 exemplares e não os reimprime. Quando o Herberto lá publicou fez 300 exemplares e não os reimprimiu. Um desses livros vale 300 ou mais euros. É uma prática discutível. Mas tem a ver com um determinado entendimento da poesia, que é o do Herberto e o de outras pessoas. Não tínhamos alternativa senão cumprir escrupulosamente as instruções do autor. São as regras dele. 

Foi dito que isto resultou de uma forte campanha de marketing...

Não houve da nossa parte, e digo-o com toda a sinceridade, a mais pequena campanha ou espírito de marketing. Se houve marketing foi provocado pela figura emblemática do autor. Não fizemos nada. Imprimimos os livros que o Herberto Helder autorizou que se fizessem e pusemo-los no mercado. Que as pessoas corram atrás dos livros, que os açambarquem, que os livros apareçam a preços mais elevados… Não temos culpa disso. O nosso interesse seria fazer 10 mil exemplares e vendê-los. Ganharíamos muito mais dinheiro do que vendendo metade, ou menos de metade, disso. Mas são as condições do autor e não podemos fugir-lhes.

É o autor que impõe as tiragens limitadas?

Claro, está escrito nos contratos. De outra maneira ele não os assinaria. O Herberto Helder é um homem de 80 e muitos anos, com uma personalidade muito forte. A partir de determinado momento não há nada a discutir. Ou é assim ou não é.

Como concilia a Porto Editora o seu habitual trabalho de promoção com um autor recluso?

Não há trabalho de promoção. O Herberto não dá entrevistas, não se deixa fotografar, não sai de casa. É um eremita. Só sai de casa para ir ao barbeiro. Tem que se aceitar. Não vale sequer a pena tentar argumentar com ele ou querer fazer as coisas de outro modo. Não é possível.

rita.s.freire@sol.pt