Internacional

Congolês comove Estrasburgo

Estranho mundo este em que “dizer que as mulheres têm direitos e que os violadores são criminosos é um acto de dissidência”. Na República Democrática do Congo assim é. Denis Mukwege, 59 anos, é um ginecologista que, perante os horrores com que foi confrontado em tempo de guerra civil, decidiu fundar o Hospital Panzi, em Bukavu. Aí trata mulheres e crianças vítimas de maus-tratos e violações. Fora da clínica advoga pelos direitos das mulheres e pelo fim da impunidade da violação, arma de repressão e terror que continua a assombrar a sociedade congolesa.


Prémio Sakharov 2014, protagonizou esta semana momentos de rara emoção no Parlamento Europeu. Perante os deputados (que o aplaudiram de forma quase tão calorosa como as galerias, em especial a pequena 'claque' congolesa, que coloriu o espaço com cânticos), Mukwege lembrou que a região onde habita é das mais ricas do planeta, embora o povo viva na pobreza - e sofra as maiores barbaridades por parte dos senhores da guerra. “O corpo das mulheres é um campo de batalha. As pessoas são escravizadas. Na semana passada 50 pessoas foram mortas à catanada. Num mês e meio 200 pessoas foram torturadas”.

Falou também do seu trabalho de salva-vidas: “Em cada mulher violada vejo a minha mulher, em cada mãe violada vejo a minha mãe e em cada criança violada vejo os meus filhos. Como me poderia calar quando vejo bebés de 6 meses com as vaginas destruídas?”.

Mukwege espera que a entrega do prémio desperte consciências sobre a extracção sem controlo de minérios para abastecer baterias de smartphones e tablets, uma fonte de enriquecimento dos poderosos que reprimem as populações, perante “um acordo de paz assinado em 2013 que é letra morta”. E espera que os crimes de violação sejam equiparados ao uso de armas químicas. 

cesar.avo@sol.pt