Economia

Empresas de José Guilherme falidas

José da Conceição Guilherme foi o protagonista ausente da comissão de inquérito ao caso BES. O empresário de 76 anos ficou famoso por oferecer um presente de 14 milhões de euros a Ricardo Salgado. Em 2006, o banqueiro aconselhou o empresário a procurar oportunidades no sector do imobiliário e da construção em Angola, em detrimento do leste europeu. A 'liberalidade' foi o suposto agradecimento pelo aconselhamento recebido. Mas menos de uma década depois, os negócios de José Guilherme já não prosperam da mesma forma. As empresas com interesses ou participações em Angola estão em falência técnica.
 

O SOL teve acesso aos últimos relatórios das empresas que José Guilherme assumiu ter em Angola, em respostas enviadas esta semana aos deputados da comissão. Além dos prejuízos e dos capitais próprios negativos, a complexa teia de empresas do construtor tem rácios de solvabilidade e rentabilidade negativos, liquidez reduzida ou inexistente e um grau de endividamento excessivo.

O empresário - conhecido por 'Zé Grande' - tem participações em mais de 20 sociedades, mas alega que apenas três - Guinzinga Investments, Guingola Investments e Lisampere - têm  actualmente interesses ou participações em Angola. 

Rede de empresas apresenta prejuízos

As empresas Guinzinga e Guingola têm sede na Zona Franca do Funchal, foram constituídas em Março de 2009 e têm como actividade principal a gestão de participações sociais de outras sociedades. José Guilherme é o administrador único destas empresas. As últimas contas reportadas - relativas a 2013 - mostram que ambas registam prejuízos desde 2010. A Guinzinga teve um resultado líquido negativo de 25 mil euros em 2013, o que compara com quase 246 mil euros em 2012. Já a Guingola perdeu 87 mil euros em 2013, o que representou um ligeiro decréscimo face aos 158 mil euros contabilizados em 2012. 

O acumular de prejuízos contribui para o agravamento da situação de falência técnica. Este cenário ocorre quando uma sociedade tem um passivo superior ao activo. A Guingola Investments tem activos de quase 53 mil euros e passivos superiores a 3,83 milhões de euros, o que empurra os capitais próprios para o valor negativo de 3,78 milhões de euros. Esta sociedade opera desde 2010 em falência técnica, à custa de endividamento. A Guinzinga Investments tem capitais próprios negativos desde 2010. Em 2013, a sociedade que também gere participações sociais tinha activos de 3,46 milhões de euros e passivos de quase 3,78 milhões.

A situação de falência técnica não obriga o construtor a declarar a insolvência destas empresas, embora aumente a probabilidade de tal acontecer a curto ou médio prazo. Ambas as sociedades são auditadas pela sociedade de revisores oficiais de contas Júlio Alves, Mário Baptista & Associados.

O SOL não conseguiu estabelecer contacto com as empresas até ao fecho da edição.

Outras empresas na esfera do empresário também apresentam uma situação frágil, nomeadamente aquelas que o empresário assumiu no negócio da Escom. «As sociedades Vergui e Guimavi, que domino, foram as sociedades através das quais participei no negócio das Torres Sky Center», adiantou o construtor civil, nas respostas enviadas ao Parlamento.

José Guilherme encaixou uma mais-valia de 25 milhões de dólares com a venda da posição de 33% das Torres da Escom, em Luanda, que comprara três anos antes à própria Escom. Comprou por sete milhões e vendeu por 32 milhões.

Entretanto, os resultados pioraram. A Vergui, criada em 1971, registou prejuízos de 689 mil euros em 2013. É detida por José da Conceição Guilherme, a sua esposa Beatriz da Conceição Veríssimo e o seu filho Paulo Jorge. Os capitais próprios são negativos em 887 mil euros.

A Guimavi, criada em Novembro de 1995, tem prejuízos de 633 mil euros e capitais próprios negativos de 1,5 milhões.

Recusas ao Parlamento

A rede de empresas de José Guilherme indicia sérias dificuldades financeiras. A Sintril, uma sociedade focada no arrendamento de bens imobiliários e anteriormente designada por Paulo, Guilherme & Veríssimo, teve prejuízos de 4,3 milhões em 2013 e está igualmente em situação de falência técnica desde 2012. É detida por José da Conceição e a sua esposa.

Por duas vezes, o construtor recusou ir ao Parlamento prestar declarações, invocando estar a residir em Angola e motivos de doença. No entanto, o Expresso noticiou que o empresário estivera em Portugal, o que levou a comissão a participar ao Ministério Público a recusa de José Guilherme em depor na Assembleia.

O construtor acabou a responder por escrito esta semana, recusando-se a esclarecer o presente oferecido a Salgado, por ser «interveniente num processo a decorrer no Departamento Central de Investigação e Acção Penal», o famoso caso Monte Branco. O empresário assumiu ter recorrido ao Regime Especial de Regularização Tributária (RERT) e admitiu que devia 120 milhões de euros ao BES em Agosto de 2014, na altura da resolução. Por isso, está «em conversações» com o Novo Banco para reestruturar a dívida. «Com a resolução determinada pelo Banco de Portugal já perdi cerca de 25 milhões de euros», lamentou.

 

sandra.almeida.simoes@sol.pt