Opiniao

Acredito mesmo é na vida antes da morte

O grande aliado dos que têm o poder é o cansaço. Se ele não existisse, se a adrenalina fosse constante e o cérebro não tivesse urgência de descanso, as questões morais colocar-se-iam de uma outra maneira. Mas sem insónias, o poder não é regulado pela noite e os dilemas deixam de o ser. Só há melancolia ou verdadeira angústia nos que têm o tempo folgado. Na maioria dos outros, nos que vivem a pensar que as horas não são suficientes, o cansaço salva-os da dúvida… e afasta-os de uma ideia moral.

É uma ideia verdadeira. As ideias morais cultivam-se e precisam de tempo, por isso (talvez por circunstâncias ou sorte minha) encontrei mais pessoas com vontade de serem ‘melhores pessoas’ entre os mais humildes, verdadeiros campeões das pequenas batalhas. Gente que com sacrifício, método e sofrimento enfrenta turbulências e as consegue derrotar. Não desvalorizo os combates onde o que está em jogo não é um lugar na história, mas apenas o necessário desbravar do caminho ou a luta pela sobrevivência. Em todos os minutos de todos os dias há sempre quem morda os lábios e prossiga – quando morrerem ninguém se lembrará, mas talvez da soma do seu sofrimento, das suas pequenas batalhas vitoriosas, surja a recompensa.

Da soma do caminho de todas as pessoas, importantes e anónimas, se faz esta corrida de que percebemos pouco o sentido. Uma metáfora de tudo o resto. Com as tralhas que guardamos sem percebermos as razões por que o fizemos, dos números de telefone de gente que nos atafulha o sistema e que não interessa ao menino Jesus. Enfim. Talvez por os números de telefone serem como objectos e estes como o estado de espírito de um bipolar em fase aguda – somamos contactos, juntamos este e aqueloutro e o espírito não entende o porquê de um dia termos acreditado que aquela pessoa ou ‘coisa’ nos interessou de alguma maneira. De madrugada, escondido das conspirações do mundo, a um canto da sala, apaguei secretamente dezenas de números e limpei a casa do que não reconheci. Soube-me pela vida.

Não deixa de ser uma espécie de viagem, já dela tenho aqui falado. Dentro de cada um de nós existem sombras, murmúrios, presenças. Carregamos uma casa às costas, uma casa assombrada onde replicamos divisões, mobílias e tudo o resto. Não há maior assombração do que uma viagem ao interior do que somos. Os fantasmas não se escondem da luz, alguns arrumam-nos, outros deixam-nos de rastos. Não há tratadores de almas que nos possam salvar, não é coisa sequer que valha a pena desejar. Viver em paz significa aceitar que a nossa casa assombrada é uma jóia preciosa. A única que temos, a única que levaremos connosco.

Recebi uma carta de uma leitora que me perguntava onde penso o que penso? Se o fazia enquanto escrevo, no duche, antes de dormir? Gosto quando me escrevem; permite-me reflectir sobre o que jamais me passaria pela cabeça. Bem, não me falta o sono apesar das insónias – sim, é possível tê-las durante o tempo que dormimos, acordamos ainda mais cansados do que antes, como se a vida fosse dupla em nós. Mas de todos os sonos que um dia me escaparão, nenhum será tão marcante como aquele que já perdi: o que se arrastava pelo despertar, os fins da manhã e princípio de tarde em que bastava esticar a perna no lençol para mais trinta minutos de vida entre a realidade e o sonho. Um longo despertar que já não volta. Não há plásticas que permitam o regresso da juventude.

Mas acredito mesmo é na vida. Se estiver em silêncio escuto tambores e antecipo movimento. Creio na vida depois da morte, chego a sentir a presença de guardiões de fronteiras e pastores de estranhas ovelhas. Mas acredito ainda mais na vida antes da morte. Na que vivemos aqui, mesmo quando é tão difícil redescobrir o sorriso. Antecipar a vida depois da vida tem o mesmo efeito de fazer contas ao dinheiro que ganharemos ao jogo – desvia-nos da única coisa que temos como certa: viver.

E a vida é mesmo um milagre. Temos tantos fios, tantas estradas de sangue, tantos sistemas que se cruzam, tantos ossos, cartilagens, articulações, lóbulos, células, músculos, neurónios, tecidos, glândulas, gordura, paredes, vasos, proteínas, hormonas, nervos e glóbulos que acaba tudo por ser uma questão de sorte. A Democracia tem menos cangalhada e funciona pior do que a generalidade dos nossos corpos. O procurador-geral da anatomia humana, a existir, faz as coisas de maneira a, mesmo entupidos de tralha, continuarmos a ter espaço de arrumo durante uns anos valentes. Os que temos tal ventura.

Ah, e ignorantes. Sabemos mais do que os nossos bisavós. Mas somos conscientemente mais ignorantes do que eles. O mesmo poderia dizer deles, pais dos nossos avós, em relação aos seus antepassados. Sabiam mais e em consciência desconheciam também mais. E assim sucederá nas gerações futuras, é matemático. Porque a cada grande resposta dada, a cada descoberta ou caminho aberto, nascem mais dez perguntas, novas urgências e estradas até então desconhecidas. A nossa ignorância não terá um fim.