Opiniao

Pedaços de mau caminho

Há umas semanas, numa entrevista na televisão, o presidente da Câmara de Sintra era questionado sobre a importância de haver coordenação entre as várias empresas de transportes colectivos na área da grande Lisboa. Falava-se de facilitar a vida dos cidadãos, que, por exemplo, vivem em Cascais, trabalham em Lisboa e pelo meio ainda têm de deixar os filhos na escola, e que perdem horas da sua vida sentados ao volante e no trânsito.

DR  

Ora aqui está um ponto que o Alentejo tem em comum com Lisboa. Aliás, cheira-me que este é um assunto que toca a todos e é comum ao país inteiro. Mas puxando a brasa à minha sardinha, agora que estamos na época delas, é capaz de ser bem pior fora das áreas urbanas, no countryside português, ou, como também é conhecido, na província. É que, além da falta de ligações, ainda temos o problema da falta de informação e, para não destoar do resto do país, o estado miserável em que se encontram as estradas. 

Da última vez que estive em Évora, pude comprovar isso mesmo: carro avariado e encontro marcado na ponta oposta do Alentejo, no final do dia. O problema parecia fácil de resolver. Com certeza que haveria um autocarro ou um comboio que me fizesse chegar ao litoral. Mas não. Segundo informação do posto de turismo, o autocarro deixava-me a muitos quilómetros de distância do destino e sem ligação no próprio dia. E, via comboio, teria de ir a Lisboa ou Setúbal para voltar ao litoral alentejano. Claro que faltei ao encontro. Vim a descobrir depois, já em casa, que existia uma outra alternativa, mas que, pelos vistos, o posto de turismo desconhecia.  

No Verão passado, no hotel onde trabalhei em Alcácer do Sal, tive uma situação semelhante, no caso com um turista brasileiro. O senhor, na casa dos 60 e muitos anos, viajava sozinho e sem carro, à descoberta de Portugal e queria seguir para Sagres pela costa alentejana. Ofereci-me para ligar para o posto de turismo, achando que lá, como ponto central de informações, agregariam toda a comunicação que poderia interessar a turistas. Mas o posto de turismo não sabia de nada, a não ser das ligações à Comporta.

Ora, pior do que a falta de coordenação é a falta de informação, mas isso é todo um outro assunto. Depois de telefonar e retelefonar e  falar com várias pessoas cheguei à conclusão de que seria necessário um dia e meio para fazer o percurso entre Alcácer do Sal e Sagres, só uma hora a menos do que as 37 horas que o Google Maps prevê que uma pessoa demore se for a pé.

Suponho que a nossa sorte seja vivermos num país pequeno ou termos todos carro próprio. Mas é aqui que entra a questão do estado das vias de comunicação. Mais uma vez, puxando a brasa à minha sardinha, o IC1, que liga Grândola à Marateca, talvez seja o exemplo mais gritante da falta de investimento nas estradas. Embora seja de louvar a intervenção das câmaras municipais na tentativa de resolução do problema, o cidadão mais atento percebe rapidamente que 'em casa de ferreiro, espeto de pau'. Na vila de Grândola, por exemplo, a Câmara Municipal, prefere bater-se em manifestações, marchas e exigências pela manutenção das vias fora da sua jurisdição, como é o caso do IC1, do que olhar para o estado deplorável em que se encontram as ruas na própria vila e as estradas municipais circundantes. Tapam-se uns buracos, remenda-se aqui e ali.

Mas, isto tudo junto, para o turista que nos visita ocasionalmente no calor do Verão, é capaz de até dar um certo ar de aventura às suas férias.