Opiniao

É perigoso isolar a China

O pânico nas bolsas chinesas abalou, mas não diminuiu, a importância económica da China. Tem agora problemas que os países capitalistas sofreram muitas vezes. A intervenção governamental de Pequim terá, até, contribuído para agravar o alarme bolsista. Falta de experiência...

Nunca um país teve um crescimento económico tão rápido como o da China. Recentemente abrandou para subidas anuais do PIB à volta de 7%, o que é natural. Entretanto decorre a reconversão da economia chinesa: menor prioridade às exportações e ao investimento, mais ao consumo interno.

Não que a China se tenha voltado economicamente para dentro: encorajadas pelo Governo, as empresas chinesas investem cada vez mais no estrangeiro, como vemos em Portugal. Entre 2009 e 2014 o investimento directo chinês no exterior cresceu, em média, 19% ao ano, prevendo-se que continue assim.

No fim de Junho a China, com outros 56 países, como Portugal e vários países europeus, lançou em Pequim um banco internacional para investir em infra-estruturas. Também a Nova Zelândia entrou para o capital do banco, assim como a Austrália e a Coreia do Sul, estes dois países resistindo a pressões de Washington para ficarem de fora. O Japão hesita.

Portugal fez bem em participar neste banco. E os Estados Unidos fazem mal ao tentarem isolar economicamente a China. A Parceria com o Pacífico, iniciativa de Obama em apreciação no Congresso (e à qual, se tudo correr bem, se deverá seguir a Parceria com a UE), exclui a China.

O sucesso económico chinês não trouxe mais liberdade ao país nem maior respeito pelos direitos humanos. Mas o ‘modelo chinês’, de uma economia aberta ao mercado, mas sob a ditadura de um partido, atrai países em vias de desenvolvimento. Assim como, há 30 ou 40 anos, eles viam na URSS, não tanto um regime político, mas sobretudo um modelo para um rápido crescimento económico. Enganaram-se, mas o caso chinês é mais sólido do ponto de vista económico.

Ora, os EUA têm-se queixado da China, não tanto pela ausência de democracia, como pelo que os americanos entendem ser concorrência económica desleal. Durante anos Washington bramou contra o câmbio artificialmente baixo da moeda chinesa, graças a compras maciças, por Pequim, de títulos de dívida… americanos. Agora parece ultrapassada essa querela, mas há outras. Hillary Clinton, em plena pré-campanha eleitoral, acusou a China de pirataria informática atingindo os EUA. 

Os chineses não são, decerto, um exemplo de bom comportamento na cena internacional. E não se deve ignorar o grande investimento militar que a China tem feito, ao mesmo tempo que se mostra agressiva contra alguns vizinhos, como o Japão. 

Mas a firmeza quanto a direitos humanos ou a ameaças militares chinesas ganharia em ser acompanhada por cooperação na área económica e financeira, vantajosa para todos. Um exemplo: a China queixa-se, com razão, de que o Congresso americano impede que a sua quota e o seu poder de intervenção no FMI aumentem, não correspondendo hoje, de todo, ao peso económico do país. O que entrava a relação com Washington.

Na New York Review of Books George Soros apela a Obama para que proponha cooperação ao Presidente Xi quando este visitar Washington em Setembro. Mas o presidente americano está condicionado pela hostilidade à China da opinião pública dos EUA.