Internacional

Um Obama mais verde

A ano e meio de abandonar a Casa Branca, o Presidente dos EUA aposta num legado que carregue o apelido Obama. Ele é a legalização do casamento gay a nível nacional pelo Supremo - causa que o PR publicamente apoiava desde 2012 -, ele é o acordo nuclear com o arqui-inimigo Irão, ele é, agora, o Plano de Energia Limpa (PEL), revisto e apresentado no início da semana como «obrigação moral» no combate ao aquecimento global.

 

Como as outras iniciativas com cunho Obama, o PEL recebeu aplausos e vaias, apesar de, na prática, as metas na redução de emissões de carbono das centrais termo-eléctricas até 2030 poderem ser menos ambiciosas do que parecem. Porque a imposição de cortar 32% de emissões de CO2 tem por base valores de 2005: e, só desde esse ano até 2013, elas já baixaram 15%. Ou seja, o caminho já se está a fazer e o PEL nem sequer entrou em acção.

A aritmética não impede os republicanos de se insurgirem contra o plano - especialmente em tempo de maratona de candidatos a candidatos para suceder a Obama -, que apelidam de «catastrófico», «irresponsável e demasiado ambicioso», apenas para citar Marco Rubio e Jeb Bush. O apoio está do lado democrata, com Hillary Clinton a afirmar que é preciso «defender» o PEL e a acusar os republicanos de «não oferecerem uma solução credível» porque «não querem». 

Sector em declínio

No sector da electricidade, 75% das emissões ainda provêm do carvão. Daí o PEL já ter sido baptizado pelos detractores de arma numa ‘guerra ao carvão’, com os estados que mais dele dependem (como Virgínia Ocidental, Kentucky e Wyoming) a temerem pelos efeitos na economia e na redução de postos de trabalho.

Só que o sector já entra fragilizado neste combate: está a perder terreno face ao gás natural (mais barato e mais limpo) e tem menos procura. Muitas das centrais que laboram a carvão estão prontas para a reforma - e não há planos para se construir novas num cenário em que também as energias eólica e solar estão em crescimento.

Se por um lado estes factores sustentam a quebra já verificada das emissões de CO2, por outro o PEL não entra a matar. O plano prevê que a forma de reduzir as emissões nocivas ao ambiente e à saúde seja definida pelos estados. Cada um dos 50 tem uma meta a cumprir, atribuída pela Agência de Protecção Ambiental: se o objectivo é federal, o meio para o atingir é estadual (o que politicamente também protege Washington de críticas de autoritarismo). E esse meio pode ser comunicado à Agência de Protecção Ambiental até 2018, para estar em prática impreterivelmente até 2022. Estes prazos foram dilatados em relação a versões anteriores do PEL.

Para explicar o impacto no ambiente, Obama comparou o plano a tirar das estradas nacionais 166 milhões de veículos ligeiros - num país com 258 milhões de veículos ligeiros.

Dar o exemplo em Paris

Obama pretende levar o trabalho de casa para a Conferência do Clima em Paris, organizada pelas Nações Unidas, no final deste ano. O encontro tem por objectivo acordar uma redução de emissões a nível global e definir verbas para ajudar os países em via de desenvolvimento no combate ao aquecimento global.

Os EUA são o segundo maior emissor de CO2 do mundo, com quase 6 milhões de quilotoneladas, atrás apenas da China, que já ultrapassou os 10 (segundo dados de 2013). Obama precisa do PEL para falar, dar o exemplo e exigir aos parceiros que façam o mesmo.

Em Paris, talvez recorra à retórica do ‘vai-ou-racha’ que empregou em casa: «Somos a primeira geração a sentir o impacto das alterações climáticas e a última geração que pode fazer qualquer coisa quanto a isso».

ana.c.camara@sol.pt