Opiniao

Paris-Lisboa

Paris continua a ser uma festa. Calhou-me ainda por cima estar lá no primeiro sábado de outubro, o da Noite Branca, celebração anual da música e das artes – por sinal com direção artística de José Manuel Gonçalves, um programador português que há dois anos, em entrevista ao Le Monde, definia arte como “uma utopia de transformação íntima”.

 

Esta iniciativa, que Paris realiza desde 2002, ultrapassou fronteiras e acontece hoje em diversas cidades europeias – Braga tem a sua desde há 5 anos.

A Noite Branca de Paris contou com mais de 130 projetos de artistas plásticos, além de espectáculos de música um pouco por toda a parte, na rua ou em monumentos nessa noite abertos ao público.

Na Catedral de Notre-Dame, houve um concerto de órgão.

Em frente ao Hotel de Ville, uma instalação do artista chinês Zhenchen Liu, 270 blocos de gelo colorido simbolizando o mundo, que deveriam derreter lentamente ao longo da noite e formar uma pintura conjunta. De facto, como a noite se mostrou inesperadamente primaveril, alguns blocos derreteram tão depressa que a praça mais parecia um lago – mas a animação continuou até ao fim da madrugada, com inúmeros carrinhos de kaftas ou cachorros quentes ao redor da obra e os cafés e esplanadas da zona abertos e cheios de clientela.

No centro de Lisboa, assim que se inauguram meia dúzia de hostels e os charters de turistas se intensificam ligeiramente, desata tudo a bradar contra a «invasão»: protestam os moradores, pela falta de sossego, protestam hoteleiros, sucedem-se as reportagens sobre as consequências assustadoras do amor dos visitantes e a sobrelotação da capital.

Sei por experiência própria que é difícil convencer muitos cafés e restaurantes lisboetas a alargarem o horário por uma noite, para um evento de rua especial – ou até, simplesmente, a aproveitarem um espaço extra e gratuito de esplanada que lhes permita duplicar a clientela: «É muito trabalho, não vale a pena».

Paris regurgita de turistas – e está sempre a inventar motivos para os atrair ainda mais.

Em Lisboa não é fácil almoçar às três da tarde nem jantar às dez da noite – «a cozinha já fechou, minha senhora». Os esforços para comover o chefe ou afagar-lhe o ego – «dê lá um jeitinho, gabámos tanto a excelência do vosso bacalhau e estes nossos amigos voltam amanhã para o país deles» – são, em geral, vãos. Ora adeus: se queriam bacalhau, viessem mais cedo; nem um pastelinho para recordação.

Em Paris, difícil é escapar aos apelos dos garçons especializados em marketing: «Falam português? Vêm de Portugal? Ah, Porto, Penafiel, Vila do Conde, tanto que gostei de andar por lá» – e o argelino não descansa enquanto não nos enfiar no seu restaurante, perseguindo-nos com ofertas de vinho e entradas.

Paris é também a cidade das livrarias – várias delas abertas até às onze da noite. Das duas existentes ao lado dos famosos cafés existencialistas de Saint-Germain-des-Prés, uma – La Une – fechou.

Mas continua a haver muitas, e sobretudo com vastidão de oferta: para um português, é estranho ver mesas e mesas cobertas de livros de filosofia, poesia, literatura, com capas sóbrias e apetecíveis, em vez de metros e metros de capas douradas ou embrulhadas em sacos de tule cor-de-rosa.

Volta-se de Paris com a sensação de que, ao contrário do que se ouve em Portugal de minuto a minuto, há mundos alternativos. E cheios de possibilidades.  

inespedrosa.sol@gmail.com