Opiniao

O Reino Unido e a União Europeia

A União Europeia acumula crises. A do euro não está resolvida – só o estará com mais união política, algo muito difícil. Não se encontrou, ainda, forma de democratizar a tomada de decisões na UE – o Parlamento Europeu não chega, até porque as pessoas não se sentem nele representadas. Mais grave de tudo: o esquecimento dos valores humanistas que lançaram a integração europeia. Daí a incapacidade de a UE dar uma resposta cabal ao maior fluxo de migrantes desde o fim da II Guerra Mundial. 

Entretanto desenha-se a possibilidade de o Reino Unido abandonar a UE. A concretizar-se, o “Brexit” (saída dos britânicos) seria um enorme abalo para uma Europa comunitária em crise.

A campanha pelo não e pelo sim já decorre no Reino Unido, embora ainda não se conheça a data do referendo. A ideia de lançar um referendo partiu do primeiro-ministro, Cameron, para limitar os estragos infligidos ao partido conservador pelo UKIP, partido contrário à UE, e para conter a fúria contra Bruxelas de boa parte dos conservadores.

Em 2009 Cameron tinha retirado os eurodeputados conservadores do Partido Popular Europeu, considerado em Londres demasiado europeísta, integrando-os num grupo mais eurocéptico. Mas isso não chegou para acalmar os adversários britânicos da UE, como antes não chegara a devolução de parte da contribuição britânica, obtida por M. Thatcher.

Não é o primeiro referendo sobre a Europa comunitária no Reino Unido. Em 1975 o primeiro-ministro trabalhista Harold Wilson promoveu e ganhou um referendo sobre sair ou ficar na CEE. Nessa altura as reservas britânicas à integração europeia partiam mais do lado trabalhista do que dos conservadores.

Mas as reservas britânicas à integração europeia vêm muito de trás. Em 1946 Churchill preconizou os Estados Unidos da Europa, mas excluiu o seu país dessa nova entidade – pesava então mais o Império, que aliás iria acabar em breve.

Durante a década de 50 do séc. XX os britânicos tentaram formar na Europa uma grande zona de comércio livre. Mas como seis países europeus avançaram nessa altura para algo mais político – o chamado Mercado Comum, ou CEE – o Reino Unido teve de se contentar com uma pequena zona de comércio livre, a EFTA (de que Portugal foi membro fundador, apesar de não ter então democracia e de ter colónias).

Logo em 1961 Londres percebeu que tinha apostado no cavalo errado e pediu a adesão à CEE. Por duas vezes, 1963 e 1967, o presidente francês de Gaulle fechou a porta aos britânicos, que só em 1973 conseguiram entrar na CEE, já de Gaulle não era presidente de França.

E agora? Cameron prometeu em 2013 que renegociaria a ligação da seu país à UE, apresentando depois os resultados para uma decisão em referendo. Mas está numa situação complicada: se não obtiver mudanças significativas arrisca-se a um não à UE no referendo (resultado que ele não quer). E há revindicações britânicas que os seus parceiros europeus não aceitam, a começar por Merkel – embora nenhum deles deseje a saída do Reino Unido da UE. Para já, muito antes de concluídas as negociações, seis ministros de Cameron declararam querer fazer campanha pela saída.

Ironicamente, a Escócia ameaça desligar-se do Reino Unido e tentar aderir à UE, se no referendo ganhar o não. Talvez esta perspectiva ajude a manter os britânicos na Europa comunitária.