Vida

Pedro Luz: 'Não me custa desfazer de negócios'

Empreendedor é palavra que lhe assenta naturalmente. Da roupa aos hotéis, passando pela noite e pela restauração, Pedro Luz, 63 anos, já fez história em várias áreas. Recebeu o SOL para uma breve visita ao seu mais recente interesse: a hotelaria. Nos últimos dois anos, abriu vários negócios na Baixa de Lisboa, todos com o selo Brown’s: Coffee Shop (em duas lojas), Apartments e DownTown. Com um modus operandi ‘colonizador’, escolheu o cruzamento das ruas da Vitória e dos Sapateiros – tal como tinha feito antes, nas lojas de roupa, primeiro junto à Avenida da Liberdade, depois na zona da Avenida da República; e nas discotecas, na área de Alcântara.


 na baixa, iniciou-se com a cafetaria, em 2009, depois o brown’s apartments, no mesmo edifício. seguiram-se o downtown, em julho de 2011, e a casa de hambúrgueres, em novembro do mesmo ano.

começa por mostrar o brown’s downtown, o mais recente empreendimento. tem um grande lobby, com mobiliário de design, computadores, mas, para quem espreita de fora, não parece um hotel. «estava devoluto. era um prédio típico da baixa, tinha habitação e uma fábrica de gravatas no primeiro andar. no rés-do-chão penso que funcionou um banco, no início do século xx. mantive estes arcos, que eram de um banco ou de uma casa bancária, e a compartimentação de gaiola pombalina», explica, no átrio.

homem viajado, não gosta da ideia de estar em cidades diferentes com hotéis iguais. «a vantagem de ter quartos diferentes é que acabam todos por ganhar um certo carácter», afirma – há 36 por onde escolher. «gosto muito do design dos anos 50, 60, 70 do século xx. é incrível a qualidade do design – podiam ter sido desenhadas agora, não é? mesmo a chaise-longue [aponta para uma no quarto] é para aí de 1928, tem quase 100 anos, é incrível a sua actualidade. esta cadeira do [charles & ray] eames é fabulosa. acho que este edifício, que é do século xviii, liga perfeitamente», defende, sobre a sua assumida paixão. o espaço foi também concebido para ser de trabalho, com um computador mac em cada quarto e wi-fi.

a aposta, quer neste hotel quer no brown’s apartments, uns metros mais à frente, foi fugir ao standard hoteleiro, em que os quartos não se distinguem uns dos outros. os hóspedes são, na esmagadora maioria, estrangeiros «do mundo todo. austrália, japão, estados unidos, nova zelândia…. mais entre os 20 e os 40 anos, sobretudo casais», relata.

também ajuda o facto de lisboa estar na moda, nos últimos anos, com vários artigos na imprensa internacional a eleger a cidade como a melhor da europa. em meia dúzia de passos, pedro abre as portas do brown’s apartments, com 24 quartos espalhados sobre o café, repleto de jovens e de turistas. «aqui era o edifício das finanças, depois eles mudaram-se e o prédio ficou vago. este estava em melhor estado», começa por apresentar. nos quartos há sempre música. pede chaves específicas a uma funcionária – «conheço os quartos de cor» – e entra num mais espaçoso, com um espelho enorme, fotografias da baixa a preto e branco. as peças de design continuam lá, são referência contínua. nunca lhe levaram um objecto do quarto, algum hóspede-caçador-de-souvenirs? «não. é estranho, não é? mas espero que não!».

já é dono de um pequeno império na baixa e soube criar uma marca – a brown’s. o que o levou a escolher esta zona da cidade e esse nome?

o eixo da baixa-chiado-bairro alto-príncipe real é uma zona nobre. a melhor de lisboa. e não havia aqui nada de design. comecei com a coffee shop e achei que brown’s ligava bem com café. mantive o nome.


há quem diga que o café é uma espécie de starbucks made in portugal.

não podemos considerar tudo o que tenha sofás um starbucks. não acho graça aos cafés normais – a pessoa bebe café e vai-se embora. há espaços bonitos – o nicola, a brasileira e outros clássicos, mas da maioria não gosto, com as luzes fluorescentes e o mata-moscas. o brown’s, desde que abriu, ficou cheio – tem muitos portugueses, no verão é que se notam mais os estrangeiros. fazem falta mais cafés aqui. o problema é que não há espaços muito grandes. e há a questão do licenciamento. o investimento é caro também. a baixa não é fácil.


então foi-lhe difícil instalar-se, arrancar com os projectos?

é mais caro fazer a recuperação do que fazer de novo – que é o que acontece nos prédios na baixa. a nível dos licenciamentos é tremendamente difícil. há um ano e meio de espera, no mínimo – isso devia ser agilizado. qualquer tipo de investimento na baixa é para recuperar património. deve haver mais de 50 prédios a cair, só nesta zona – ou mais! lisboa e a baixa, em particular, não tinham este género de espaço.


porquê abrir a casa de hambúrgueres mesmo em frente ao brown’s coffee shop?

o espaço estava para trespassar e achei que poderia funcionar. ali era uma loja de jeans, a jean cooper, muito importante nos anos 80. a rua da vitória é uma rua importante – onde está a shop one eram os porfírios e esses, antes da zara, tinham fila à porta.


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quer manter a marca brown’s na baixa?

na zona histórica. o chamado downtown de lisboa é dos melhores da europa. no chiado não se pode fazer mais nada – à parte de ser pequeno, já está todo comprado e reabilitado. a baixa vai ser melhor. há uma série de hotéis que vão abrir e trazer também restaurantes. agora dedico-me aos hotéis. de imediato não tenho outro projecto – mas pode acontecer.


a sua vida fez-se de uma sucessão de projectos, e talvez um dos maiores contributos para esses interesses variados tenham sido as suas viagens. começaram de pequenino – é de lisboa, da estrela, e foi para tomar aos 9 anos, para um colégio interno.

o nun’álvares. o meu pai, que era comandante da polícia na esquadra do rato, achou que eu precisava de uma certa disciplina. olhando para trás, acho que foi a melhor coisa que me podiam ter feito. adorei.


então por que fugiu 22 vezes, enquanto esteve lá até aos 15 anos?

precisava mesmo de uma certa disciplina… vinha à boleia para lisboa. lá arranjei os meus mecanismos para fugir. mas normalmente era apanhado ainda em tomar. e era sempre castigado por isso – o ‘estudo da meia-noite’: tinha de estudar até à meia-noite na sala de aulas, com os outros meninos maus. havia também a famosa palmatória, usada sempre que necessário.


e era necessária muitas vezes?

eles achavam que sim. ainda levei muitas palmatoadas.


parece um pouco violento.

dói um bocado [risos].


por onde andou depois dos anos de colégio interno?

fui para lisboa. estava a estudar no liceu pedro nunes e então vem a época do rock. na rua de são bernardo havia uma banda de rock, os ecos. tinha um amigo que era o mentor do grupo e eu assistia aos ensaios. o baixo tinha uma casa de caixões e os ensaios eram ali…


isto nos anos 60?

talvez em 1965. a história da música fascinou-me. queria pertencer àquele universo. até fiquei a trabalhar com os ecos, como agente. ajudava a arranjar contratos. depois então foi a força aérea.


aí o sonho do seu pai realizou-se, não?

pois. fui técnico de radar, mas por acaso.


no meu imaginário força aérea é piloto.

no meu também [risos]. não levei a tropa muito a sério.


mas quando entrou já havia guerra.

...no auge. também não fui bem um soldado exemplar. a minha tropa foi uma festa – tento tirar o melhor partido das situações em que estou, não sou muito de dramatizar. estive na ota, na base aérea ao pé de alenquer, foram dois anos e meio, mas vinha para lisboa todos os dias – só na recruta, que foram três meses, é que fiquei lá. tinha um morris cooper s, um acontecimento na altura: um miúdo com 18 anos, nos anos 60, ter um morris cooper s era uma coisa… foi o meu pai que mo ofereceu. tive uma grande sorte porque não fui mobilizado.


como convivia a sua família com o regime, com a ditadura?

vivia-se, convivia-se. aquele drama de portugal ser um país sinistro, horrível, nessa época, era verdade. mas em lisboa não era assim tão mau.


lembra-se da história de não se poder ter isqueiro sem uma licença?

parece mentira mas é verdade. e havia aqueles que denunciavam os que não tinham licença. era estúpido. absurdo. nessa altura comecei a viajar muito, ia a paris, que foi a primeira cidade lá fora que visitei. ia de comboio – é outra coisa que parece mentira [risos] – sozinho. ia à aventura.


não devia ser muito comum na altura.

não. lá está: a história do colégio interno, que dá outra forma de encarar a vida.


expediente?

talvez.


quando chegou a paris pela primeira vez, levou alguma referência? foi atrás do quê?

tinha lá um amigo a viver. fiquei a trabalhar num filme como figurante – ainda fiz isso em dois filmes. pagavam super bem!


quem eram os realizadores?

não me lembro.


foi ver os filmes?

não.


então nem sabe se chegou a aparecer ou se as suas cenas foram cortadas?

não faço ideia!


não lhe podem ter escapado as diferenças entre lisboa e paris nessa época, entre as pessoas, entre as mentalidades.

ainda as há. mas estamos a falar do maio de 68: paris, naquela altura, estava no auge da contestação, da confusão.


ia para os lados da sorbonne para se meter na confusão?

ia mais para almoçar [risos]. a cantina era muito barata. ia mais a paris pela música. naquela altura a cidade era [os bairros] saint-germain-des-prés, quartier latin, saint michel. uma vida muito boémia.


fala francês?

desde pequenino. acho que toda a gente da minha geração fala. paris, na altura, era uma cidade fabulosa, ainda havia aqueles clubes de jazz. lembro-me perfeitamente do bilboquet [clube de jazz fundado em 1947, em saint-germain-des-prés, onde tocaram charlie parker, miles davis, duke ellington...], que era onde as grandes bandas americanas actuavam em paris.


havia algum intuito político nas viagens?

eu andava ali no meio do maio de 68 – mas era mais para ir à sorbonne por causa dos almoços… ficava em paris um mês ou dois e depois voltava. percebi que aqui, em portugal, isto estava um bocado atrasado e compreendi que era preciso fazer qualquer coisa. comecei a fazer roupa.


hoje ainda desenha a sua roupa?

a maior parte. mando fazer num alfaiate. estou bem? [mostra o que traz vestido]


impecável. foi em paris que descobriu essa apetência para fazer roupa?

sim. naquela época, começaram a aparecer as primeiras boutiques na rive gauche, espaços realmente diferentes do que havia em portugal.


alta-costura?

não, não, pequenas boutiques.


o que se vestia em portugal?

mandava fazer umas camisas giríssimas na camisa d’ouro, uma supercamisaria que ainda existe – hoje é uma loja muito modesta, mas na altura não: era a melhor camisaria de lisboa.


que outras cidades, lá fora, foi conhecer?

depois de paris, amesterdão.


já havia aquela liberalização no que toca a drogas e sexo, em amesterdão?

as drogas nunca foram a minha área, nunca gostei. é estranho, para uma pessoa ligada à noite, mas nunca, nunca, nunca. nunca fiquei muito apaixonado por amesterdão.


paris ainda é a sua cidade de eleição?

hoje já há muitas.


voltou então para lisboa e começou a desenhar roupa.

sempre tive um espírito empreendedor. na altura, por comparação a paris, lisboa era uma cidade muito atrasada, parada, pré-histórica. entretanto abriu a outra face da lua, uma superloja, que também tinha bar, na rua rosa araújo. na altura, era do joão lagos, do luís pinto coelho e de um sá carneiro, e era o grande ponto de encontro de lisboa. era lá que eu vendia também a minha roupa, com etiqueta deles. depois comecei a fazer para a charlot, que era a melhor loja de homem de lisboa, na barata salgueiro, e na bataglia, na júlio dinis. o que desenhava dependia das fases. para a charlot, por exemplo, fazia safaris, aquelas roupas que se usavam nas colónias, de linho. toda a gente adorava os safaris. o que veio a seguir?... a loja das calças, no centro comercial apolo 70, que foi dos primeiros a abrir em portugal [1971]. falava com as costureiras e explicava como queria as calças e a roupa. também tive a jimmy’s, na avenida infante santo, e a tomsk, na da república.


e a inspiração para o que criava vinha das suas viagens?

sempre. as viagens e a música. já ia a londres, também. havia aquela gente toda, o david bowie, os pink floyd, os rolling stones, os beatles... a minissaia, a twiggy, uma superloja em kensington, que era a biba... londres era o centro do mundo. entretanto, tive de fazer uma confecção maior, as colecções eram vendidas em várias lojas. e montei uma marca, a mash – mostrei a primeira colecção no hotel sheraton, com passagem de modelos, música, isto em 1974 ou 1975.


tinha uns 25 anos – era um miúdo!

é o colégio interno – ajuda a não ser tão miúdo. já trabalhava com pequenas fábricas, em lisboa, na trofa, famalicão, onde fazia as roupas. e tinha distribuição no país inteiro, do minho ao algarve.


quantas lojas tinha no 25 de abril?

quatro – uma na avenida de roma, a golden, a jimmy’s na infante santo, uma na álvares cabral e outra na rua de buenos aires. ligaram-me para casa, vivia em campo de ourique – penso que a primeira foi a golden –, por volta das 10 da manhã, a dizer que estava lá um soldado a ordenar o fecho da loja. um quarto de hora depois ligaram-me da buenos aires a dizer que estavam lá dois soldados, que era para fechar a loja. meia hora mais tarde era da álvares cabral, estavam lá três soldados… estava a passar-se algo. para aí ao meio-dia percebi que era uma revolução [risos]. foi uma festa. dei uma volta pelo carmo. as lojas estiveram fechadas nesse dia. eles não sabiam o que se ia passar e queriam evitar que estivessem pessoas na rua.


o que foi feito dessas lojas?

bem, depois ainda abri mais – as mash, na rua augusta, na rua do carmo, na garrett, na rua do ouro.


começou a colonizar a baixa…

sempre foi difícil abrir uma loja na baixa. ao contrário de hoje, as lojas na baixa vendiam muito – os espaços eram caros. bom, mas em portugal não havia nada de roupas jovens. o 25 de abril foi óptimo. à parte das festas, houve um aumento de salários, com uns três anos de euforia. as pessoas tinham dinheiro e queriam gastá-lo.


continuou ligado à música nesse tempo?

sim, tinha duas passagens de moda por ano – e para se vender roupa tem de se vender uma certa atmosfera, uma imagem, da qual a música faz parte. viajava muito porque comecei a importar, de londres, jeans, por exemplo. depois o que me leva para o fabrico é que já tinha uma rede de clientes grande e as importações foram dificultadas – os registos de importação tornaram-se cada vez mais difíceis de obter, as taxas eram maiores… os clientes queriam roupa, eu já não tinha como a entregar: tive de fabricá-la.


com a chegada da inditex, o grupo que detém a zara, a bershka e outras lojas de pronto-a-vestir, é que as coisas começaram a correr mal para si.

pois, era um grupo enorme com preços que… que ainda hoje têm. mesmo em tempo de crise, a zara continua a fazer lucro. fruto das minhas viagens, para ver tendências, tecidos, o caminho da moda (quem faz moda não pode ficar aqui na rua dos sapateiros), começo a ver que, em lisboa, só havia o whispers, o stones, o ad lib era muito elitista... a cidade precisava de algo maior.


de uma discoteca grande, portanto.

o plateau.


mas o plateau já existia – o pedro comprou a quota de um sócio.

sim, foi o [espanhol] paco que o fez. quando entrei, em 1986 – e não quero subestimar a figura do paco –, o plateau levou um abanão grande. só que o espaço também era muito pequeno. hoje é a boîte ideal, tem o tamanho certo. mas na altura tinha acabado de fechar o studio 54 em nova iorque…


frequentou o studio 54?

muito. era único. foi a primeira grande discoteca do mundo. a primeira e a última, porque depois do studio 54 nunca mais houve nada. antes eram coisas pequeninas, boîtes, caixinhas. nova iorque é sempre especial, mas nessa altura era a época do andy warhol, dos velvet underground, dos stones – o mick jagger passava lá a vida… o studio 54 era uma discoteca diferente também das de hoje, um bocado elitista. não entrava toda a gente.


e como entrava o pedro?

nunca tive problemas para entrar no studio 54. uma vez fui com a ana salazar, toda a gente à porta e nós entrámos. a fila era uma constante, havia sempre lá um mar de gente à porta. como era a única grande discoteca, podiam fazer uma filtragem. um cenário. o palace também não ficava muito atrás.


mas esse não tinha lá o andy warhol.

não. cheguei a ver o andy warhol no studio 54… também vi uma vez o [robert] de niro. eram miúdos essa gente toda. havia uma liberdade maior. e toda a dimensão: era um antigo teatro convertido em discoteca, tinha vários pisos, zona privada – um espaço excepcional. já em lisboa, só havia aqueles sítios de que falei. apareceu-me aquela litografia gigante na rua maria luísa holstein.


o alcântara-mar.

e o alcântara-café – estão ligados.


nessa fase, como estavam os seus negócios de pronto-a-vestir?

ainda os tinha. o meu negócio principal na roupa não eram as lojas, era a distribuição. portugal entra numa crise enorme – aliás, nós estamos sempre em crise, por uma razão ou outra –, aquilo que era bom começou a ser mau e eu já tinha montado o alcântara-mar, que estava realmente a correr muito bem. resolvi vender as lojas.


tinha mais de 400 clientes.

espalhados pelo país, através da distribuição. era brutal. a mash era uma coisa séria.


um império.

era, era. meu e da té, a miúda com quem vivia na altura – vivi com ela 14 anos –, uma pessoa extraordinária.


entretanto teve de fechar as fábricas.

as fábricas trabalhavam sob contrato comigo, não eram minhas. as lojas, sim. e essas trespassei-as – foram fáceis de trespassar, estavam nos melhores sítios de lisboa.


custou-lhe?

nada. foi uma alegria [risos]. vendi-as muito bem. estava muito entusiasmado com a noite. o plateau correu muito bem. depois o alcântara-mar e o alcântara-café, que coincidiram com o fim da roupa.


entrou também na restauração, também sem experiência na área.

no alcântara-café entrei com um grande amigo, o antónio pinto, um super-chef num dos melhores restaurantes da bélgica, o belga queen – ainda no ano passado foi considerado o melhor restaurante da cidade. liguei ao pinto e disse ‘vamos fazer um restaurante em lisboa’ e ele aceitou logo. o alcântara-café quando abriu foi uma coisa extraordinária – as pessoas entravam e ficavam a olhar… e com a cozinha do antónio pinto era especial. o alcântara-mar ainda estava no auge.


como eram as noites no alcântara-mar?

foi a primeira grande discoteca. grande a todos os níveis. surgiu também o culto do dj – e tivemos a sorte de ter os melhores, como o vibe, que era um miúdo e começou connosco, o mário roque, o tó ricciardi… tivemos o privilégio e a sorte de trabalharem connosco. o alcântara era onde tudo se passava. havia os alcântara-dancers, com umas pernas enormes… e quando abre o alcântara-café, com a ponte a ligar os dois espaços… tinha uma certa força. o [realizador pedro] almodóvar ia lá, aquilo começa a ser conhecido mesmo na europa. o [actor] miguel bosé também ia. muita gente. o enrique iglesias. o jeremy irons, o wim wenders. o [designer] philippe starck. no plateau era mais o rock.


e continua a ser…

mas é bom! e é um espaço clássico.


é verdade que havia colaboradores seus que não o conheciam e não sabiam que era o ‘patrão’ quando estava nas discotecas?

é normal, eram tantos. ia lá também porque se eu não gostasse daquele tipo de casas penso que nunca teria corrido tão bem. era preciso gostar do que estava a fazer.


era à sua imagem.

também viajava para procurar inspiração para as decorações, as tendências. o alcântara-mar durou 14 anos, o que, para uma discoteca daquela dimensão, não é mau. depois abri um restaurante muito giro na avenida 24 de julho, o 24 de julho. fiz também a cozinha com o antónio pinto, escolhemos italiano, o pinto tinha ganho um prémio na bélgica, o melhor cozinheiro italiano fora de itália. o problema ali, a razão de ter acabado foi que a 24 de julho, uma avenida onde se podia arrumar o carro, subitamente torna-se uma via rápida em que é proibido estacionar – os carros passam a 100 à hora.


mas também tinha bares como hoje.

sim, mas na altura eram ‘bem’.


entretanto o pedro ficou com o 24 de julho e o seu sócio com o alcântara-café. o negócio desfez-se.

não me custa desfazer de negócios – negócios são negócios. quando chega a altura de sair, saio. fiz do 24 de julho o gringo’s. lisboa nunca tinha visto um tex-mex, aquela comida mexicana é boa, os nachos, as quesadillas... a música rock chamou muito os motards e as harleys. hard-rock. teve graça. quando transformei o espaço no mao já a 24 de julho estava muito mal. montei o dock’s.


antes disso teve o negócio dos croissants.

tive sempre uma grande ligação a paris. havia muitas croissanterias e disse ‘vou fazer uma coisa destas em lisboa’. acabaram por ser umas 20 e tal lojas, nos anos 90. a da avenida de roma foi um fenómeno, tinha fila constante, como há nos pastéis de belém agora, para comer croissants. a avenida de roma foi uma zona muito boa. parece mentira também... já não vou lá há 20 anos. e depois montei uma fábrica de pastéis de nata: vendíamos uns milhares por dia.


o que aconteceu a esse negócio?

apareceram uns espanhóis que quiseram comprar a fábrica dos pastéis de nata. vendi.


os espanhóis andam sempre a estragar-lhe os negócios.

[risos]


mas não desarmou e criou a companhia das sandes.

com umas 60 lojas.


o português não é muito dado a comer sandes. é mais de sentar-se para almoçar, nem que seja miniprato.

foi o que me disseram, mas afinal enganaram-se [risos]. diziam-me que as pessoas faziam sandes em casa – mas fiz 60 lojas.


e vendeu quando estava no auge.

é a melhor altura para vender. houve uma oportunidade, uma boa proposta.


já tinha aberto o dock’s, o indochina…

abria uma casa de dois em dois anos. ali, nas docas, estavam armazéns de bacalhau. achei gira a arquitectura, os barracões em madeira, a proximidade com o rio, parque de estacionamento gigante... depois as docas perderam um bocado a graça. agora estão todos no cais do sodré, pintaram o chão. no outro dia passei na rua do alecrim, de automóvel, olhei e vi milhares de cabeças, encostadas umas às outras...


foi uma zona onde nunca investiu.

não acho graça. no meio das minhas viagens, houve uma altura em que comecei a ir muito à ásia, hong kong, singapura, vietname, malásia, china. é uma zona única. assisti a coisas incríveis em saigão, o crescimento daquilo – e ainda não parou. tóquio é obrigatório. xangai é diferente de tudo – a qualidade dos hotéis, dos restaurantes, dos bares, das lojas. penso que o futuro vai estar nessa zona do mundo. o indochina é fruto dessas minhas viagens. há um sítio onde é imperdoável eu nunca ter ido: buenos aires. sempre que tive tudo programado para ir aconteceu qualquer coisa – da última vez, disparou aquela crise económica brutal, as pessoas andaram a saque aos supermercados. não se vai para uma cidade no meio dessa confusão.


o que lhe falta conhecer, além de buenos aires?

não falta assim muita coisa...


entretanto voltou à carga com a restauração, no indochina.

no primeiro piso. o meu amigo manuel salazar, marido da ana, tinha uns clientes japoneses. o manel era muito fã da comida japonesa, sushi, sashimi, e estava com medo de levar os japoneses ao meu restaurante... mas eles adoraram!


como correu esse casamento entre restauração e noite?

não resulta muito bem em lisboa. as pessoas vão jantar e saem, nem olham para a discoteca. e os que vão à boîte não vão ao restaurante.


o que o fez então abrir o zocco em 2005?

achei que o projecto do indochina estava um bocado cansado e experimentei fazer esse italiano, o zocco. correu super bem.


até…?

até... a renda ali é muito cara, uns 12 mil euros por mês, por cada espaço, mais o pessoal… os encargos são brutais. teria de dar almoços e jantares.


ainda tem algum dos espaços das docas?

não, só o plateau. e agora estou a fazer os hotéis. mudei outra vez, como fiz ao longo da vida.


tem um gosto pessoal pelos seus negócios?

se não gostasse, não saía assim como está. a pessoa tem de gostar daquilo que faz, acreditar que pode funcionar e fazer. mas não fico sentimentalmente agarrado a um prédio. imagine que eu ficava agarrado sentimentalmente ao alcântara-mar: estava desgraçado!


quando olha para trás, quais foram os melhores tempos?

agora. estou a gostar muito de fazer isto.


continua a sair à noite?

sim, mas vou mais a restaurantes, aqueles que se estendem pela noite. há uns anos, toda a gente ia ao alcântara-mar: havia uma fauna típica, mas os outros iam também. hoje as pessoas não se misturam tanto.


porquê transformar o alcântara-mar em w?

o alcântara estava esgotado. o w foi um projecto giro. quando apareceram muitas discotecas começou a faltar gente para as encher – e uma discoteca só é boa se tiver atmosfera, se não mais vale ficar em casa.


como é a concorrência nesse meio?

como em todos. não tenho razão de queixa.


e na baixa? vem todos os dias, está sempre presente?

tenho um gerente. toda a vida deleguei. é impossível controlar tudo. depois, como é que eu ia a buenos aires? [risos]

ana.c.camara@sol.pt