Sociedade

Sócrates prometeu elogiar Venezuela para facilitar negócios de amigos

Os investigadores da Operação Marquês suspeitam que José Sócrates utilizou dois elementos da sua antiga equipa em S. Bento para fazer lóbi no estrangeiro, sobretudo em favor dos grupos Lena e Octapharma, a troco de contrapartidas. Trata-se de Guilherme Dray, chefe de gabinete do seu último governo, e Vítor Escária, antigo assessor para a economia.


Em 2013, Sócrates deu por concluído o primeiro ano dos seus estudos em Paris e tornou-se consultor para a América Latina da multinacional farmacêutica Octapharma. É desde esta época que Dray e Escária terão usado uma vasta rede de contactos acumulados com personalidades estrangeiras para angariar negócios para o ex-governante distribuir entre empresários amigos: além do Grupo Lena e da Octapharma,  empresas ligadas a companheiros de outros tempos como Horácio Carvalho (empresário da Covilhã que foi arguido no caso Cova da Beira), António Morais (arguido no mesmo caso e antigo professor de Sócrates) e Nuno Vasconcellos (líder da Ongoing).

A Vítor Escária - que acumulava o lugar de professor no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) com o de consultor de várias empresas, e passara a receber nesse ano uma avença da Proengel, empresa da esfera de Carlos Santos Silva - calhou o dossiê mais duro: Venezuela.

 Em 2010, com Sócrates ainda ao leme do país e Hugo Chávez vivo, Escária acompanhou os encontros entre ambos e respetivas comitivas, que culminaram com a adjudicação ao Grupo Lena da construção de milhares de habitações - um dos negócios que o Ministério Público suspeita estar na origem da fortuna acumulada na Suíça em nome do empresário Carlos Santos Silva, mas que serão na realidade o resultado das contrapartidas a Sócrates.


Tentativas falhadas de encontro com Maduro

Em 2013, porém, os trunfos políticos em Portugal tinham mudado de mão e na Venezuela também. Sócrates desdobrava-se em vão para ser recebido pelo novo Presidente, Nicolás Maduro, que passara a ter relações amistosas com o governo de Passos Coelho. Em cima da mesa e de caráter prioritário estavam os pagamentos ao Grupo Lena - em atraso devido à crise e às trancas à saída de divisas - e a abertura de portas junto do ministro da Saúde da Venezuela para se conseguir novos contratos que favorecessem a esfera empresarial de Paulo Lalanda e Castro (o patrão de Sócrates, como este entre amigos gostava de o referir).

Vítor Escária (na foto), nesse ano, andava numa roda viva e mal tinha tempo para o ISEG. As viagens sucediam-se, mas apenas conseguia chegar a figuras de terceira linha, como Temir Porras - político muito influente na época de Chávez, conhecido na imprensa do país como “el lobista del poder”. Porras tem o perfil certo, mas é escorregadio. Como Escária se queixava entre o seu núcleo mais próximo, andava também a tratar da sua vida.

 No final do ano, e depois de falhar a vários encontros com Sócrates, o venezuelano que sabia como levar a rega aos seus terrenos anunciou uma deslocação a Portugal para um encontro com empresários com negócios no seu país, a fim de cobrar as ‘rendas’.

Segundo o SOL apurou, em dezembro de 2013 Sócrates encontrou-se finalmente com o chávista no Ritz e, enquanto decorria a conferência, Carlos Santos Silva foi chamado ao local, com o ok para despachar os assuntos do Grupo Lena. O ex-vice-ministro de Chávez não abandonou o país sem receber também Lalanda e Castro, ficando a promessa de um futuro encontro deste com o ministro da Saúde da Venezuela para agilizar os pagamentos dos contratos do país com a Octapharma, que tinha lá empatados 30 milhões de euros em hemoderivados.


O discurso que a Venezuela queria que o ex-PM fizesse

Em 2014, a crise política rebentou na Venezuela. A oposição fez xeque-mate, houve confrontos e a repressão na resposta deteriorou a imagem internacional de Maduro. Em fevereiro, a Sócrates - tal como a outras personalidades europeias - chegou um pedido de apoio ao regime. A ideia inicial, transmitida a Escária através de Temir Porras e de contactos com o embaixador venezuelano em Portugal, era a de recolher depoimentos de vários políticos por toda a Europa para depois passar nas televisões do país. E contavam com Sócrates.

 O SOL teve acesso ao documento que estaria para ser gravado por diversas personalidades estrangeiras: “A Venezuela que eu conheço tem um povo nobre, solidário, um povo que valoriza a sua democracia e que defrontou com êxito o titânico desafio de superar a pobreza. Por estas razões, apoio a iniciativa do Presidente Nicolás Maduro de promover a paz e o diálogo e rejeito qualquer forma violenta de agressão que se produza contra a democracia na Venezuela”.

Nesse mês, a imprensa portuguesa noticiou que o PCP manifestava a sua solidariedade com o “regime que promovia a melhoria das condições de vida da população” e que organizações como o Conselho Português para a Paz e a Cooperação “apelavam a todos os democratas o apoio para com o povo venezuelano e as suas importantes conquistas”.

Mas Sócrates, como espalhou pelos mais próximos, considerou a proposta escrita uma saloiada. E mandou transmitir que estava disposto a dar viabilidade à ideia mas com outra ‘narrativa’ e no seu espaço de comentário aos domingos, na RTP1. Isto desde que do outro lado dessem um sinal de boa vontade ao que andava a pedir, num tempo em que os empresários portugueses se queixavam que na Venezuela “eram 100 cães a um osso e havia que dividir o bolo em fatias”.

Conforme o SOL já noticiou, Vítor Escária - um dos 12 peritos escolhidos por António Costa para elaborarem o programa eleitoral do PS - acabou por ser alvo de buscas em março deste ano. Nessa altura, o economista disse ao SOL que apenas fez “contactos com a Presidência de Moçambique”, a pedido de José Sócrates, declinando a sua intervenção em quaisquer diligências que favorecessem o Grupo Lena ou outros.

Mas além disso, os investigadores quiseram esclarecer a intervenção de Escária e Sócrates em diligências efetuadas na Argélia - onde o Grupo Lena tem diversos projetos. Sócrates telefonou, por exemplo, à ex-embaixadora argelina em Lisboa e ao embaixador português na Argélia, para que fosse agendada uma audiência dos administradores do Grupo Lena com o ministro das Obras Públicas do país.


Lula, Soares e o grande encontro da esquerda no 25 de Abril

A operação de buscas a Escária, no início deste ano, estendeu-se em simultâneo ao antigo chefe de gabinete de Sócrates, Guilherme Dray, e à Ongoing.

 Enquanto Escária geria a complicada pasta da Venezuela, Guilherme Dray estava mais focado no Brasil, onde passara a trabalhar para a Ongoing, liderada por Nuno Vasconcellos e também com interesses neste país.

As relações de Sócrates com o ex-Presidente Lula da Silva mantinham-se firmes e os pedidos de encontro com o político brasileiro, através de Dray, eram de fácil agendamento. Naquele país, o ex-governante português apenas tinha de olear a máquina dos interesses de Lalanda e Castro, que se circunscreviam a pressões junto do Ministério da Saúde, para encontrar outras soluções para a venda de plasma pela Octapharma.

O estabelecimento de contactos e o agendamento de encontros feito por Dray estendia-se à política. Em 2014, com as medidas de austeridade, sucedem-se em Portugal os protestos de rua e organiza-se uma manifestação para celebrar condignamente os 40 anos do 25 de Abril.

 A Fundação Mário Soares e a Fundação Oriente organizaram então uma conferência sobre a Revolução. Soares pretendia trazer a Portugal um leque de políticos europeus da sua área política e aproveitar a oportunidade para preparar um convénio entre várias fundações. Sócrates, que pretendia regressar à vida política em alta, sugeriu-lhe a fundação brasileira de Lula. Rapidamente o programa entre Soares e a fundação liderada por Carlos Monjardino passa a ter outro orientador. Para estar presente, o ex-Presidente do Brasil impunha nomes de outro quadrante ideológico, como o do italiano Massimo D’ Alema.

 O SOL soube junto do círculo próximo de Soares que este ‘explodiu’ ao ouvir tal nome: não queria nada com comunistas. No entanto, contra a sua vontade, o plano continuava em marcha e foi Sócrates quem fez o convite ao político italiano. O programa ganhou novos contornos. Competia a D’ Alema, presidente da Fundação Europeia de Estudos Progressista, trazer mais instituições europeias.

Sócrates comprometera-se a financiar o projeto e o triunvirato constituído por Lula, o comunista italiano e o grupo de Sócrates torna-se o mentor de uma ideia que há tempos vinha amadurecendo. Aproveitavam o momento para pô-la em prática: transformar aquela reunião num fórum alargado das esquerdas.

A reunião nunca foi do conhecimento público e tão pouco se sabe se chegou a ocorrer. No entanto, segundo um artigo escrito por Mário Soares no seguimento das comemorações do 25 de Abril, algumas das personalidades festejaram num almoço o sucesso da manifestação que naquela quadra inquietou o governo de Passos Coelho: “À entrada e à saída fui abraçado por tanta gente e beijado por tantas senhoras que tive quase um colapso por efeito de uma grande baixa de tensão. Mas a seguir tive um almoço com o ex-Presidente brasileiro, Lula da Silva, (que viveu no Brasil o 25 de Abril), o jornalista francês Dominique Pouchin (que viveu o 25 de Abril) e ainda o socialista italiano Massimo D’ Alema, José Sócrates e Carlos Monjardino, onde conversámos sobre o 25 de Abril tal como foi visto na Europa e na América Latina”.


Xanana Gusmão em Timor e Manuel Vicente em Angola

Foi através de Dray que Sócrates tentou que o ex-Presidente brasileiro viesse ao Congresso do PS, em novembro de 2014, onde António Costa seria consagrado líder do PS. Mas Lula, que acompanhara a difícil caminhada de Dilma Rousseff na segunda volta das eleições presidenciais, precisava de descanso. Através de Dray, Sócrates propôs uma solução que prometia agradar a todos: estava disposto a financiar uma semana de férias em terras lusas para ele e para a esposa. Em troca, Lula apenas teria de marcar presença no Congresso. Sócrates, porém, seria detido nesse mês e Lula não veio.

As incursões na política nacional não tiravam tempo aos negócios. Dois meses antes deste desenlace, o ex-governante socialista continuava muito ativo, apesar de ter sido avisado de que estava a ser investigado (o que o levou a mudar hábitos e as formas de operar, nomeadamente com as conservas telefónicas).

Guilherme Dray - que desde 2013 passara a receber avenças de duas empresas de Carlos Santos Silva, a XLM e a Proengel - aguçou o engenho para angariar negócios que iam ao encontro das empresas ‘amigas’ noutros mercados. Arranjou então encontros entre Sócrates e o líder timorense Xanana Gusmão e descobriu novos mercados, como Líbia e Equador.

Sócrates, por seu lado, projetava uma lança em África. Esforçara-se em vão para chegar à fala com o Presidente angolano, José Eduardo dos Santos, e pediu a Dray que virasse as agulhas para o seu vice. O ex-chefe de gabinete, dentro da sua vasta agenda, encontrou a pessoa indicada: em setembro, foi Carlos Costa Pina, ex-secretário de Estado do Tesouro de Sócrates e à época administrador da Galp Energia com contactos privilegiados em Angola, quem forneceu o contacto direto de Manuel Vicente.

Como o SOL já noticiou, Sócrates ligou ao vice-Presidente de Angola, Manuel Vicente, a quem pediu para interceder pelos negócios do Grupo Lena, dizendo-lhe tratar-se de um grupo de pessoas a quem devia atenções. Tentou que Vicente recebesse os administradores do grupo Lena em Luanda, só que o governante estava de viagem marcada daí a dias para Nova Iorque, para a Assembleia-Geral da ONU, a 30 de setembro. Sócrates, que tem sempre um plano B em carteira, lembrou-se que também ele e os amigos tinham por lá afazeres e combinou que agendaria uma reunião através dos embaixadores angolano e português nas Nações Unidas.

Sócrates, que ao contrário do que afirmara a Manuel Vicente não tinha qualquer viagem agendada para aquele destino, ligou então a Santos Silva e trataram rapidamente de marcá-la, para ambos e para Joaquim Barroca Rodrigues.

Numa declaração à SIC, quando ainda estava preso, o ex-primeiro-ministro remeteu essa ajuda ao Grupo Lena para o plano da “diplomacia económica”.: “Acedi ao pedido por mera simpatia e fiz esse contacto com gosto, sem nenhum interesse que não fosse ajudar uma empresa portuguesa, como, aliás, fiz com outras”.

O MP sustenta, porém, que a diplomacia feita a troco de contrapartidas é crime.

felicia.cabrita@sol.pt

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