Politica

Propaganda: PSD puxa ao centro e tenta descolar da folha de Excel

“A vida não cabe numa folha de cálculo” é uma frase que parece passada a papel químico de um discurso de um partido de esquerda sobre os anos de governação de Passos e Portas. Mas está num tempo de antena do PSD que irá para o ar esta sexta-feira na RTP1.

O mote do vídeo é explicar o que é “ser social-democrata no séc. XXI” e o discurso é todo feito para evitar a colagem do PSD à direita. “Criou-se a ideia de que a austeridade é de direita e isso é errado”, comenta ao SOL um deputado do PSD, enquanto outra deputada defende que “em Portugal não há partidos de direita”. É o início de uma viragem que os sociais-democratas perceberam ter de começar a fazer.

Enquanto o PS faz acordos à esquerda, os sociais-democratas fazem tudo para chegar ao eleitorado do centro onde, acreditam, estar a chave para uma maioria absoluta numas próximas legislativas que querem que aconteçam quanto antes.

No tempo de antena, o partido recua até à sua fundação para lembrar o que foi ser social-democrata nos anos 70 quando foi preciso “iniciar reformas” e o que foi sê-lo nos anos 80 e 90 quando as prioridades eram “libertar a economia da tutela do Estado”, reforçar a “liberdade de imprensa” e dar prioridade à Europa.

Mas o grande objetivo é chegar aos anos 2000, quando o vídeo recorda o “longo caminho para devolver a esperança aos portugueses” e “a coragem para tomar as medidas necessárias para tirar Portugal da bancarrota”, tudo isto, sendo “fiel à matriz inicial” do PSD que se define como “personalista, humanista e reformista”.

A ênfase fica quase toda na “justiça social” e num programa que defende “o Estado que país possa financiar e não o Estado utópico”, um “Estado que nos deixe o futuro, não a fatura”.

 

Independentemente “do sexo, da sexualidade, religião ou raça”

Com a tónica do discurso posta na liberdade individual e no mérito, o PSD destaca a importância da igualdade de oportunidades para todos, independentemente “do sexo, da sexualidade, religião ou raça”. Um discurso que é mais comum à esquerda e que ganha importância numa altura em que o PS se apresenta com um dos Governos mais inclusivos de sempre.

O tom do vídeo reforça uma ideia que a moção de rejeição ao programa do Governo de Costa introduziu, na qual o PSD e o CDS se apresentam como “os partidos moderados do sistema político nacional” que se opõem “a este processo de radicalização em curso que está a tornar Portugal refém das agendas ideológicas sectárias desfasadas da realidade”.

A estratégia de voltar a colocar o PSD no centro do espetro político tem, de resto, vindo a ser defendida por vários sociais-democratas. Depois de, no rescaldo das legislativas, o tom ter subido ao ponto de Passos Coelho chamar “reviralho” à esquerda, no PSD foram várias as vozes que aconselharam mais moderação.

 

‘Barões’ já tinham aconselhado Passos a mudar discurso

Um dos primeiros a defender publicamente a necessidade de evitar a colagem à direita foi Nuno Morais Sarmento, numa entrevista à RTP3, numa altura em que o debate se fazia já nos bastidores do partido, com alguns sociais-democratas a duvidar de uma oposição feita quase exclusivamente no argumento da ilegitimidade política do Governo PS.

Marques Mendes foi outro dos que defenderam esta estratégia. No último sábado, o comentador da SIC disse mesmo que o Congresso do partido marcado para Abril poderia mesmo servir para reformular o programa político do PSD e aproximá-lo do centro.

Ontem, foi a vez de Manuela Ferreira Leite criticar a forma como até agora Passos Coelho tem dirigido a oposição a António Costa. “Fez-se a discussão do programa do governo (…) e ninguém percebeu porque é que não houve um consenso entre a coligação e o PS”, disse Ferreira Leite, na TVI24, que entende que PSD e CDS se acantonaram numa posição que não lhes permitiu negociar, depois de terem insistido “na ideia de que aquilo que era proposto pela coligação era caminho único”. Algo que, em sua opinião, “não se pode fazer em democracia”.

margarida.davim@sol.pt