Economia

Num beco sem saída

Quando o Banco Central Europeu (BCE) deu um salto de gigante e anunciou em Janeiro um programa de quantitative easing (QE), um ambicioso plano de injeção de dinheiro na economia para gerar inflação, dar crédito às empresas e animar a atividade económica, Mario Draghi estaria longe de imaginar que, quase um ano depois, a Europa não poderia estar mais afastada das previsões.

A inflação não dá sinais de subida - está em 0,1% na Zona Euro -, o crédito expande de forma tímida e o risco de estagnação económica é um fantasma sempre presente no conjunto de países da moeda única, sobretudo quando o motor germânico dá sinais de fragilidade. As medidas anunciadas ontem por Draghi, para reforçar o programa inicial, parecem pouco mais do que resignação.

O QE assenta sobretudo na compra de ativos financeiros pelo BCE, como dívida pública e privada. Em teoria, os bancos que vendem esses ativos ao BCE recebem dinheiro ‘fresco’ e podem utilizá-lo para emprestar às empresas e às famílias, dinamizando a economia.

Em paralelo, são impostos juros negativos nos depósitos que as instituições financeiras têm no BCE - na prática, os bancos têm de pagar para ter o dinheiro parado no banco central, o que deveria incentivar o crédito à economia real.

Ontem, Draghi anunciou o prolongamento por seis meses do prazo do QE (que só acabará agora em março de 2017), o tipo de ativos financeiros a comprar e agravou os juros negativos nos depósitos. Mas os mercados reagiram pouco entusiasmados.

«Devido às fragilidades evidenciadas pela economia da Zona Euro em várias frentes, o mercado esperava hoje medidas mais ambiciosas, que estimulassem a atividade dos agentes económicos. Em termos comparativos, o Reino Unido e os EUA estão muito mais robustos nesta altura, sobretudo no mercado de trabalho e no crescimento económico», explica ao SOL Steven Santos, gestor do banco BiG.

Riscos em Portugal

No habitual discurso depois das decisões do BCE, Draghi esforçou-se por garantir que as medidas estão a funcionar, mas o otimismo do presidente do BCE não é acompanhado pela generalidade dos analistas. «Só o facto de se ter alargado o programa indicia que não está a ter o efeito desejado», considera Nuno Rico, economista da Deco Proteste.

Um ano depois do início do QE, Steven Santos salienta que a inflação está «baixíssima» e o desemprego «crónico» afeta vários países europeus. Nuno Rico alerta que o programa de Draghi fica coxo se não for feito em paralelo com medidas orçamentais dos Estados-membros: «O QE precisaria de de investimento dos Estados-membros mas há muitas limitações do tratado orçamental».

O economista César das Neves está também apreensivo quanto ao nível de atividade económica na Europa. «De alguma maneira pode dizer-se que não consegue sacudir os efeitos da crise que já começou há mais de cinco anos», assume.

Caso se confirme o cenário de estagnação da Europa no próximo ano, o risco de Portugal enfrentar um novo período de declínio económico é elevado. Qualquer ‘espirro’ da economia europeia significa uma constipação em Portugal.

A maioria do comércio externo do país é feito com três mercados - Espanha, Alemanha e França. Espanha é o mais importante e é neste momento das regiões mais dinâmicas da Europa, mas a desaceleração alemã é uma grande fonte de preocupação. Os germânicos são a maior economia da Europa e, com a desaceleração da China, as exportações do país estão sob pressão. Qualquer quebra no dinamismo na moeda única «é negativa para a economia nacional», sublinha João César das Neves.

Contas difíceis em 2016

E, com os dados do terceiro trimestre a mostrarem que a economia nacional evoluiu 0% face ao trimestre anterior, os receios de uma estagnação mais prolongada adensaram-se. Embora a maior parte da desaceleração económica do trimestre tenha sobretudo motivos internos - há quem aponte as eleições para a travagem nos investimentos, por exemplo -, será um risco se este desempenho se mantiver no final do ano e ao longo de 2016.

«Esse valor nulo é preocupante. As contribuições negativas vêm dos dois lados, mas mais da frente interna do que da externa. A queda em cadeia do investimento e das exportações parece manifestar que a situação de paragem é transversal», diz César das Neves.

Caso este abrandamento se mantenha, o novo ministro das Finanças Mário Centeno poderá ter de fazer contas mais difíceis no próximo ano, quando tiver de apresentar o Orçamento do Estado. Com menos atividade económica, as receitas de impostos dos Estados diminuem, pelo que a margem de manobra para alívios fiscais e aumentos de despesa seria mais curta.

O Programa do Governo do PS tem várias medidas expansionistas já em 2016, como a devolução mais célere de salários da função pública, mas o documento baseia-se em previsões económicas da Comissão Europeia que apontam para um crescimento de 1,8% na Zona Euro, que alguns economistas já começam a pôr em causa.