Politica

Dilma divide Brasil ao meio

A viver a pior seca dos últimos 45 anos, a polícia de São Paulo tem evitado usar a técnica de jatos de água para dispersar manifestantes. Mas a regra foi quebrada ontem, face à necessidade de retirar da Avenida Paulista os manifestantes anti-governo que ali acampavam desde domingo. Foi pela «segurança de todos», explicou o governador de São Paulo, Geraldo Alckimin, pois Lula prometera juntar-se a outra manifestação no mesmo local, esta a favor do Governo do PT.

O episódio retrata uma divisão social que, não sendo novidade, foi agravada pelos acontecimentos que se seguiram à detenção para interrogatório do ex-Presidente, a 4 de Março. O Financial Times expôs em gráfico a análise a 700 mil tweets que foram escritos com a palavra Lula nos dias seguintes à operação policial. E a imagem revela que, apesar das ruas mostrarem neste momento uma maioria anti-PT, os cibernautas brasileiros descrevem um país literalmente partido ao meio, entre os que celebraram as ações da Justiça e os que alinharam na tese de um golpe de Estado contra o governo de esquerda.

E se no mundo virtual não há riscos de violência, no real nem sempre é possível antecipar o choque entre as duas fações. No último domingo, dia em que se realizou por todo o país a maior jornada de protesto da democracia brasileira, foram várias as imagens de violência registadas, como a de um casal brutalmente agredido porque o homem vestia uma camisola vermelha com a imagem de Che Guevara.

Se a atual ‘guerra’ entre juízes terminar com Lula como ministro do Governo Dilma, teme-se que imagens semelhantes se repitam. Até porque se os detratores do PT mostram indignação face às manobras do Governo para fugir à Justiça, os apoiantes de Lula e Dilma prometem uma reação igual aos últimos avanços feitos pela oposição no processo de destituição (impeachment) da Presidente.

‘Impeachment’ renascido

Numa tarde muito tensa dentro e fora do plenário, os deputados brasileiros aprovaram na quinta-feira a constituição da comissão especial de 65 legisladores que vai analisar o processo. Dilma tem agora 10 sessões plenárias – onde estejam um mínimo de 55 dos 513 deputados – para apresentar a sua defesa.

Depois disso cabe à comissão especial – que tem oito deputados com processos em análise no Supremo Tribunal – decidir se o processo tem condições para seguir em frente.

Caso o parecer autorize o processo de destituição, a medida será votada na câmara baixa do Congresso, onde precisará da aprovação de dois terços dos deputados (342) para ter continuidade. Caso não seja alcançado o número, o processo de destituição será arquivado, se passar na câmara baixa tudo se repete: Dilma pode voltar a defender-se, a comissão faz novo parecer, que será sujeito a nova votação – com a mesma regra dos dois terços.

Se passar duas vezes, a última esperança da presidente será o senado, onde decorrerá o julgamento propriamente dito. Numa sessão presidida pelo líder do Supremo, serão ouvidas testemunhas e Dilma voltará a apresentar a sua defesa. No fim os senadores votam, e se dois terços (54) aprovarem a destituição, Dilma perde o cargo. Os partidos que formam o Governo de Dilma somam 51 senadores, dois são independentes e 28 formam o bloco opositor.