Internacional

Saída do primeiro-ministro turco terá consequências

Ahmet Davutoglu, primeiro-ministro da Turquia, anunciou na passada quinta-feira que vai demitir-se do cargo. Segundo o próprio, a sua saída acontecerá no dia 22 deste mês, altura em que é esperada uma nova convenção do partido. «Não tenho planos para ser candidato no Congresso extraordinário, convocado de urgência. O partido deve estar unido e solidário no Congresso. A unidade não deve ser posta em discussão, porque o destino do AKP não é apenas o destino do partido, é o destino da Turquia e da nossa região que está em causa», disse Davutoglu aos jornalistas depois de anunciar a sua renúncia.

O anúncio do primeiro-ministro turco surgiu depois de uma longa conversa com o Presidente, Recep Tayyip Erdogan, na passada quarta-feira. Apesar de não se saber o conteúdo da conversa, é público que o Presidente turco tem acusado Davutoglu pela lentidão nas alterações à Constituição para reforçar os poderes presidenciais.

O ainda primeiro-ministro garante que a sua saída constitui «uma escolha e não de uma necessidade» e afirma ainda não ter quaisquer ressentimentos com Erdogan. «Não tenho censura, raiva ou ressentimento contra ninguém», disse Davutoglu. «Da minha boca nunca saiu qualquer palavra negativa sobre o Presidente. Nem vai sair», acrescentou.

Mas a saída do primeiro-ministro trará certamente consequências para o país. Erdogan e Davutoglu não se entendiam em alguns pontos, como o acordo alcançado entre a União Europeia com a Turquia para diminuir o fluxo de refugiados na Europa, o julgamento de jornalistas no país ou a retomada do processo de paz com os curdos.

A saída surge numa altura em que a Turquia enfrenta um momento de instabilidade devido aos conflitos com os rebeldes do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), aos ataques do Estado Islâmico e ao enorme fluxo de refugiados que o país tem recebido. O acordo já alcançado com a União Europeia pode estar em risco depois da saída de Davutoglu, o que já provocou uma reação do governo alemão. «A chanceler [Angela Merkel] tem trabalhado muito bem até agora com o primeiro-ministro Davutoglu e com todos os representantes turcos e partimos do princípio de que esta cooperação positiva e construtiva vai continuar com o novo primeiro-ministro», avançou o porta-voz do governo alemão, Georg Streiter. Contudo ainda não se sabe o que acontecerá a este acordo depois da saída efetiva de Davutoglu.

Poucas horas depois do primeiro-ministro ter anunciado a demissão, o Presidente Erdogan anunciou que não alterará as leis antiterroristas em troca de acesso ao espaço Schengen, como tinha sido proposto por Bruxelas. «Nós seguimos o nosso caminho, vocês o vosso», disse Erdogan num discurso em Istambul.

Na passada terça-feira, a Turquia afirmara ter cumprido todas as exigências da União Europeia mas, face ao discurso de Erdogan, torna-se evidente que esse ponto ainda não foi resolvido.