Tentar Perceber

Trump e a economia

A vitória eleitoral de Donald Trump revelou uma enorme frustração das classes média e baixa dos Estados Unidos. Há décadas que a maioria das pessoas e famílias que se situam nesses estratos sociais vê os seus rendimentos estagnarem ou melhorarem muito menos do que era habitual no passado. Entretanto, sobem em flecha os ganhos de uma pequena minoria.

Várias vezes nesta coluna chamei a atenção para o aumento das desigualdades económicas. E notei que se trata não apenas de um problema ético de injustiça social. É também um problema económico, pois uma sociedade onde só uma pequena minoria enriquece tende a limitar o consumo, o motor da economia americana. E é um sério problema político.

 Obama compreendeu o problema, mas pouco pôde fazer, devido à oposição dos republicanos no Congresso. Agora, até o Obamacare, um programa de saúde que não é perfeito mas impediu que milhões de americanos vivessem sem seguro de saúde, vai provavelmente ser eliminado por Trump.

 Os radicais do Partido Republicano vão ao ponto de, apesar das desigualdades económicas crescentes, preconizarem baixas de impostos para os ricos – algo que Trump também prometeu. Isto, apesar de muitos milionários americanos, conscientes da gravidade da questão, terem publicamente apelado a pagar mais impostos. A frustração dos que ficaram para trás não irá desaparecer.

 Talvez seja exagerada a previsão de Paul Krugman após a eleição de Trump: «Muito provavelmente estaremos perante uma recessão global sem fim à vista». Mas ter na Casa Branca um protecionista e isolacionista não vai ajudar nada a economia mundial. Além de que Trump não acredita no aquecimento global, pondo em causa o acordo de Paris para combater as alterações climáticas.

Trump não gosta da globalização. Ora a resposta a uma globalização selvagem não pode ser um regresso ao protecionismo, que agravou a Grande Depressão dos anos 30 do século passado. A resposta terá de ser um maior enquadramento internacional da globalização. Mas Trump não dará importância à ONU; também os neoconservadores que apoiaram Bush filho desprezavam a ONU e o direito internacional. Mas, embora de maneira errada (à bomba…), queriam promover a democracia em países estrangeiros. Trump quer uma América virada para dentro. Curiosamente, estimulando a economia com obras públicas, uma receita keynesiana que agravará o défice federal.

 O protecionismo que ele preconiza só no imediato e de forma artificial poderá reter nos EUA empresas e empregos. Os consumidores americanos e quase todos os empresários (incluindo exportadores) serão prejudicados pelo encarecimento das importações. Será um passo atrás no crescimento económico dos EUA e do mundo.

 Estão ameaçados muitos acordos comerciais, alguns em vigor. É o caso da NAFTA, o acordo de livre comércio entre os EUA, o Canadá e o México. E a célebre parceria transatlântica (o acordo comercial e de investimento entre os EUA e a UE) passou ao domínio das quimeras. É um lamentável recuo no processo de liberalização económica internacional iniciado após o fim da II Guerra Mundial.

 Mas a mais séria ameaça de Trump ao crescimento económico é o grau de incerteza que uma personagem tão imprevisível e incoerente implica para o horizonte dos investidores. Na dúvida, estes retraem-se e adiam decisões. Não vêm aí tempos fáceis.