Opiniao

Acha que o populismo foi derrotado? Pense outra vez

Pode não haver disposição para confetti, bolo de aniversário ou balões azuis com estrelas amarelas. Mas no próximo sábado, quando perderem um segundo a contemplar a estátua equestre de Marco Aurélio antes de entrarem pela porta principal do magnífico Palazzo dei Conservatori, em Roma, os líderes europeus poderão celebrar os 60 anos da UE sem cara de enterro. 

A extrema-direita perdeu na Holanda. Os twitters das chancelarias europeias suspiraram de alívio. Peter Altmeier, o chefe de gabinete de Merkel, inspirou-se nos cânticos dos adeptos da seleção laranja nos estádios de futebol para twitar: “Holanda é campeã. Adoramos o que a laranja faz.” Carl Bildt, antigo MNE sueco, admitiu que depois da Áustria, a Holanda confirmou a “onda anti-Trump” na Europa. E também por cá, o MNE foi embalado pelo otimismo do “fim dessa tendência crescente do populismo na Europa.”

A extrema-direita perdeu na Holanda mas não é o fim da história. Assumir que a sua derrota é definitiva, ou que o seu apelo junto do eleitorado está em reversão, é cair na mesma cegueira otimista que permitiu que líderes xenófobos e radicais se apresentassem hoje como gente séria. É preciso recuar muitas décadas para encontrar um arco populista tão longo e influente, até nas democracias consolidadas.

Há quatro tendências estruturais (para lá do desemprego, da imigração ou do antieuropeísmo) que permitem antecipar que a guerra dos democratas na Europa contra as forças radicais será longa e dura. 

Primeiro: a demografia. Em 2030 a Europa será o segundo bloco geográfico mais envelhecido do mundo, com uma média de idades de 43.9 anos e 22.3% da população com 65 ou mais anos. O problema só tende a piorar, desequilibrando os sistemas de providência europeus. Com o Estado a proteger menos e a deixar mais gente fora do sistema, o descontentamento sobe.

Segundo: o choque tecnológico. Donald Trump promete aos americanos “trazer os empregos de volta.” É pouco provável. Porquê? Porque esses empregos são assegurados por robôs e pela inteligência artificial, “uma força de trabalho virtual”. Quando os camiões autoguiados da Google invadirem as estradas americanas, ninguém sabe o que vai acontecer a 3.5 milhões de camionistas. Há empregos que não voltam, nunca mais. E há muita gente que vai ficar para trás.

Terceiro: o desencanto com a democracia. Um ensaio publicado em julho de 2016 pelo ‘Journal of Democracy’ traça um cenário perturbador de “desconsolidação” democrática. Nos EUA e Europa, só cerca de 30% dos cidadãos nascidos depois de 1980 consideram “essencial” viver em democracia. Ou seja, o sentimento antidemocrático é hoje mais violento nos jovens. Isto acontece porque, para muitos eleitores, a democracia passou a ser um meio e não um fim. O desapego ao regime tem consequências óbvias.

Quarto, o esvaziamento do centro e o discurso inócuo. A artilharia populista é pesada e poucos moderados têm coragem de sair das trincheiras para fazer a defesa da Europa, do mercado livre, da imigração ou da globalização. Muito pelo contrário, temos assistido a uma tentativa de ocupação dos extremos a partir do centro. Veja-se onde é que Sarkozy deixou os Republicanos para conter a Frente Nacional ou para onde migraram Hamon e o PSF para circunscrever a esquerda. Ou até para que terrenos foi Mark Rutte para esvaziar eleitorado de Geert Wilders. Por falar em Wilders, o homem está errado em muita coisa. Mas numa ele está certo: “o génio não vai voltar para a lâmpada”. Pelo menos, não para já.

 

Gonçalo Venâncio
Membro European Speechwriters Network