Politica

Eurico de Melo contado por Cavaco e Soares

Chamaram-lhe 'vice-rei' do Norte, mas foi mais que isso. As memórias dos principais protagonistas políticos mostram como.

na cronologia das memórias políticas, é marcelo rebelo de sousa quem refere primeiro eurico silva teixeira de melo. aponta-o como um dos «quatro mil magníficos» que carregaram o ppd nos primeiros anos pós-revolução. «são tempos muito difíceis, esses, de que restam hoje, nos ficheiros do partido, menos de quatro mil magníficos».

hoje serão já menos – o livro de marcelo data do ano 2000. esta semana o número caiu de novo, com a morte do homem a quem chamaram de ‘vice-rei do norte’. foi, porém, muito mais do que isso – uma personagem central da vida política do país até 1990.

mário soares, seu adversário político, também fala dele na longa entrevista a maria joão avillez, que perfaz a sua mais completa biografia política. data: 1980, dia da morte de sá carneiro. «resolvi dirigir-me a são bento. sem prevenir ninguém, meti-me no carro, bati à porta e disse que queria falar com alguém responsável. fui recebido pelo engenheiro eurico de melo, que estava desfeito, mas que me acolheu com muita delicadeza».

eurico de melo teve de comandar o barco logo depois. foi até desafiado a substituir o carismático líder. aqui quem conta a história é cavaco silva: «não revelou qualquer interesse em ser primeiro-ministro, com o argumento de não se achar competente para o cargo».

ficou pinto balsemão, o número dois, mas sem o entusiasmo de eurico de melo, tão-pouco de cavaco. os dois, a meio do acidentado percurso daquela ad, escreveram uma carta aberta aos militantes. os jornais titularam: «eurico e cavaco pedem demissão de balsemão». o povo livre, jornal do psd, disparou contra eles. «mais do que as minhas intervenções, eram as de eurico de melo que, pelo respeito que impunha, faziam tremer lisboa», conta cavaco na sua autobiografia política.

o governo de balsemão teve vida curta e eurico entrou numa ‘troica’ que liderou o psd, com mota pinto e nascimento rodrigues. negociaram juntos o bloco central, com mário soares. «embora não tenha querido ficar no governo, a sua colaboração foi preciosa», reconhece o ex-pr. dois anos passados, lá estava eurico de melo para ajudar a mudar a história. foi à figueira da foz ajudar cavaco a ser eleito líder. com ele esticou a corda até o bloco central partir. soares ainda falou de uma «manobra»: «estou hoje perfeitamente convencido de que houve negociações prévias entre eanes, eurico de melo e o próprio cavaco silva para terem a garantia do presidente [eanes] de que, se houvesse uma crise e a coligação se rompesse poderiam contar com a dissolução do parlamento». cavaco desmentiu, mas a história fez o percurso.

eurico reentra no governo como número dois e à frente do mai. cavaco diz que foi uma «nomeação consensual pelo respeito que suscitava no psd e fora do partido». e acrescenta que lhe era «vantajoso que o número dois fosse um homem do norte» – o vice-rei.

eurico fazia de bombeiro para as «missões especiais junto da oposição ou grupos da sociedade civil». para resolver problemas. «a sua imagem de patriarca dialogante seria positiva para o governo», compensada pela «firmeza e determinação» dele próprio, cavaco silva. defendeu a moção de confiança que cavaco levou à assembleia em 1986, pôs mota amaral e jardim em sentido, ajudou a serenar o cds antes das legislativas de 1987. muito mais, seguramente.

depois veio o segundo governo e ficou com o título de vice-primeiro-ministro. «achava-me devedor em relação a ele», explica cavaco. seguiu-se um arraso nas autárquicas. cavaco preparava uma remodelação e eurico de melo pede-lhe uma audiência e, uma vez em são bento, pede-lhe a sua demissão. por sentir ter perdido a sua confiança. «percebi que estava magoado, mas não conseguia entender as razões».

nas suas memórias, cavaco vai explicando esses porquês. que «às vezes» eurico se «deixava apoderar por um certo pessimismo, perdendo a vontade de lutar»; ou que talvez «nos momentos difíceis pudesse faltar-lhe a determinação para contrariar os chefes militares». a demissão, conta, aconteceu depois de um desses obstáculos.

eurico de melo ficou magoado e cavaco «triste». só mais de um ano depois se reencontraram, em casa de um amigo comum. deixaram o expresso tirar a fotografia. eurico foi citando assim: «está tudo bem entre os dois. o conflito não passou de um arrufo de namorados.» foi aí que voltou ao partido.

o primeiro-ministro do psd que se seguiu foi ele que o levou para um governo: durão barroso. só com ele abandonou funções activas, com uma sentida homenagem num congresso. o mesmo partido que ontem lhe prestou homenagem, à despedida. o psd que ele tratava calorosamente como «o mais belo partido português».

david.dinis@sol.pt