Sociedade

Seca. Um país à espera que chova

IPMA revelou ontem que o mês de setembro de 2017 foi o mais seco dos últimos 87 anos e quase 90% do território está em seca severa ou extrema. Maioria das barragens em níveis críticos são usadas para rega

A seca está a afetar o país de norte a sul. E de região para região, as reações das populações são as mesmas. Ao i, vários comerciantes de cafés, restaurantes e cabeleireiros nas zonas das barragens mais afetadas disseram que a seca ainda não afetou o negócio, mas mostraram-se preocupados com o futuro. Alguns falam sobre os planos dos municípios, mas todos apontam para um problema maior: os efeitos da seca na agricultura e na produção de gado.

“Para não haver gastos de água desnecessários, a câmara emitiu um comunicado para a própria população”, explica Lina Ramos, proprietária do restaurante O Mirante, situado na zona da Barragem do Roxo – cuja capacidade está nos 17,8% –, no concelho de Aljustrel, Baixo Alentejo. Entre as medidas, “foi proibido lavar carros e, por vezes, quintais”, explica. Contudo, apesar de a população estar consciente do que a seca pode vir a significar, ninguém está preocupado. “Não é tema de conversa entre nós”, diz Lina. “E não estamos a sentir efeitos da seca”, pelo menos no que diz respeito ao abastecimento de água ao público.

Um pouco mais a norte, na região da Barragem de Vale do Gaio, em Alcácer do Sal – atualmente a 18,4% da capacidade – Sara Alves, do restaurante O Tordo, diz que a nível de restauração e de habitação ainda não houve dificuldades. O problema está, na agricultura, defende. Sara Alves tem uma herdade junto à barragem e explica que a situação está tão complicada que já não está “a dar água aos animais daí”. Agora vem toda do Alqueva, porque a água nesta barragem já está imprópria para consumo devido ao baixo nível. Quanto a planos, “não está a haver, ainda não tivemos conhecimento de nada”, apontando o facto de, por exemplo, as fontes continuarem a funcionar.

Em Viseu, o discurso é o mesmo, mas a população parece mais preocupada com as possíveis consequências da seca no quotidiano. Ana Coelho, proprietária do cabeleireiro, diz-se assustada. “Sem água nas torneiras não podemos trabalhar”. A preocupação deve-se ao facto de Barragem de Fagilde ser uma das principais fontes de abastecimento de água do concelho e atualmente estar a apenas 22% da capacidade total, indicou ao i a câmara municipal de Viseu. “Esperemos que deus nos venha a acudir e nos mande uma chuvinha”, remata Ana.

 

Os números

As barragens do Roxo, Vale do Gaio e Fragilde são três das 26 mais afetadas pela seca. Ao i, no entanto, Nuno Nascimento, chefe de gabinete do presidente da Câmara Municipal de Viseu, assegura que, apesar de se estar a viver uma “situação especial”, está controlada. “Os valores deste ano ainda não ultrapassaram os valores do pior ano de sempre em termos de seca, que foi 2005 e em que a barragem chegou a ter apenas 8% da sua capacidade total”, nota, acrescentando que “neste momento temos água para cerca de um mês e meio”.

Já Elídio Martins, diretor da Associação de Regantes e Beneficiários de Campilhas e Alto Sado, traça um cenário mais dramático, mas ainda assim contido. A entidade explora as barragens de Campilhas, Fonte Serne, Monte Gato e Monte Miguéis, que têm presentemente 3.7%, 29.2%, 9.6% e 12.1% da capacidade total de água e têm como principal uso a irrigação dos campos. Apesar de valores à primeira vista alarmantes – Elídio Martins diz mesmo que as quatro barragens estão neste momento “esgotas” –, a verdade é que “já foram feitas todas as culturas e neste momento já não há mais culturas para fazer e não houve prejuízos para ninguém”, explica.

A tónica, agora, volta-se para o próximo ano. “Não temos qualquer água para o próximo ano”, alerta. Na prática isso significa que, no improvável cenário de não chover entretanto, este inverno, “não se poderá cultivar nada”, afirma Elídio Martins. “Agora só temos de esperar que venha a chuva”, conclui. Cenário idêntico encontra-se entre os agricultores que dependem da barragem de Pego do Altar, em Alcácer do Sal, que está a 8% da capacidade. “A questão das culturas neste momento não é grave porque já acabaram”, diz Gonçalo Lynce de Faria, da Associação de Beneficiários do Vale do Sado. O problema é o próximo ano, “mas até lá temos esperança de que chova. Agora, a grande preocupação é o gado, porque temos de manter alguma água nos canais”.

Gonçalo Lynce de Faria admite, no entanto, que “os 8% de água que existe na barragem já não dão para nada, porque é necessário manter o volume de água para os peixes”.

De acordo com um levantamento feito pelo i no Sistema Nacional de Informação de Recursos Hídricos, das 26 barragens que estão abaixo de 50% de capacidade (ver mapa ao lado), 12 são usadas para irrigação, cinco para abastecimento da população e as restantes para produção de energia. Em alguns casos, a água não está muito abaixo do ano passado, mas noutros houve quebras de mais de metade face às reservas em setembro de 2016.

Em julho, a REN chegou a admitir que o facto de as barragens estarem abaixo dos valores normais prejudica a produção de energia hidroelétrica, o que o sistema tem compensado com mais produção térmica.

Já ontem, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera fez um balanço do mês de setembro: foi o mais seco dos últimos 87 anos. Aumentou a área em situação de seca severa e extrema, que abrange 88,4% do território. O solo está cada vez mais seco, em particular no interior e no Sul do país. Para os próximos dias, há alertas redobrados. A Proteção Civil emitiu um aviso de perigo de incêndio: as temperaturas vão subir até domingo.

Perigo de incêndio

• A Autoridade Nacional de Proteção Civil emitiu ontem um aviso à população sobre o perigo de incêndio. As temperaturas vão subir até domingo, com uma redução da humidade no ar.

• A Proteção Civil destaca o risco muito elevado e máximo de incêndio na região do Algarve e regiões do Interior

• A fase Charlie foi prolongada até dia 15 por isso mantém-se a proibição de queimadas, fogueiras ou qualquer lume em espaços florestais

 

Atenção aos banhos

• A maioria das praias já está sem vigilância mas a temperatura continua a pedir mergulhos. A Autoridade Marítima Nacional recomenda cuidados redonrados, até porque o mar pode enganar e já não há bandeiras vermelhas a avisar os banhistas.

• Este ano morreram 11 pessoas nas praias portuguesas: três em praias vigiadas, seis em praias sem vigilância e duas em praias fluviais vigiadas.

• Este ano apenas Albufeira antecipou que a estação podia não mudar tão rápido e previu desde o início manter vigilância nas praias até dia 15 de outubro. Entretanto Cascais também prolongou a época balnear até à mesma data.

 

Beatriz Dias Coelho e Marta F. Reis