Politica

Nova ‘geringonça’ devolve Faro ao PS

O PSD conseguiu derrotar um membro do Governo em Faro, mas uma votação secreta devolveu a Assembleia Municipal ao PS.

A história tem tendência a repetir-se, muitas vezes em escala menor mas não menos notável. Esta semana, no Algarve, foi o que aconteceu. No dia 1 de outubro celebrou-se uma vitória autárquica do PSD, como se celebrara em 2015 uma vitória do PSD nas legislativas. No entanto, ambas foram alegria de pouca duração. Este ano, a presidência da Assembleia Municipal de Faro foi uma das vitórias mais simbólicas para os sociais-democratas. Cristóvão Norte, deputado, venceu José Apolinário, do PS, depois de os farenses terem dado mais votos aos ‘laranjas’. Apolinário, secretário de Estado do atual Governo, foi nesse sentido uma excepção: numas autárquicas de sucesso para os socialistas, perdeu; numa conjuntura de popularidade do Executivo a que pertence, não a fez valer.

Todavia, assim como a surpreendente vitória de Passos Coelho em 2015 foi depois cancelada por uma manobra parlamentar conduzida por António Costa, derrubando o Governo reeleito através de uma moção de censura, a vitória de Cristóvão Norte pelo PSD foi este ano obstruída por outro inesperado.

O PSD elegeu 14 deputados municipais, dos 31 lugares que foram a votos, mas Norte só obteve 13 na votação secreta entre eleitos para decidir a presidência. Luís Graça, deputado do PS que nem foi candidato ao cargo nas autárquicas (o nome era o do referido secretário de Estado, José Apolinário), obteve mais um voto do que os deputados municipais que o PS tem, isto é, alguém do PSD votou em Luís Graça em vez de votar em Cristóvão Norte, que encabeçara a lista social-democrata nas autárquicas da semana passada.

O episódio deu-se na cerimónia de tomada de posse dos eleitos para os órgãos autárquicos e o espanto foi geral. José Apolinário, o tal secretário de Estado que perdera nas urnas para o PSD, não se apresentou à votação secreta da tomada de posse. E Cristóvão Norte, que ganhou nas autárquicas a presidência da Assembleia Municipal, viu, anonimamente, um dos membros da sua lista votar em Luís Graça, número 2 do PS nesse órgão. Graça foi eleito e Norte abandonou a sessão antes dos cumprimentos protocolares. Ou um dos 14 deputados municipais do PSD se enganou na lista ou ofereceu propositadamente a presidência do órgão a alguém que nem foi candidato a tal.

Os sociais-democratas acusaram mesmo o PS de «tentar defraudar a democracia», na medida em que avançaram na tomada de posse com uma lista encabeçada pelo segundo elemento da lista que foi sufragada nas eleições: Luís Graça, deputado e agora – inesperadamente até para o mesmo – presidente da Assembleia Municipal de Faro.

Norte, que foi de vencedor ou a vencido, escreveu nas redes sociais que «Roma não paga a traidores».

«Foi um privilégio ter sido candidato a Presidente da Assembleia Municipal. Uma dádiva ainda maior ter ganho as eleições no dia 1 de Outubro. O meu compromisso com Faro é inabalável e o desejo de construir um concelho melhor indestrutível. Porque muitos me perguntam, quero dizer-vos: claro que vou cumprir o meu mandato de deputado municipal, e não apenas o assumirei, como o honrarei», esclareceu o também parlamentar na Assembleia da República, que para a Municipal ganhou nas urnas mas foi traído nas instâncias.

Sérgio Azevedo, seu colega de bancada em Lisboa, escreveu de volta: «A canalhice não tem limites. Tens a minha profunda solidariedade. Um abraço amigo Cristóvão e força no teu caminho de retidão e luta. O teu pai estaria certamente muito orgulhoso de ti. Os teus amigos estão!». Norte é filho do fundador do PSD de Faro, Cristóvão Norte.