Desporto

Clássico. Aqui, a tradição não manda nada: quem vai à baliza é o miúdo

José Sá de um lado, Bruno Varela ou Svilar do outro. Se for o belga o escolhido por Rui Vitória, este FC Porto-Benfica terá a média de idades de guarda-redes mais baixa da história


Ponto prévio: esta é, claramente, a temporada mais agitada dos anos mais recentes no que a guarda-redes dos “grandes” diz respeito. No caso, de FC Porto e Benfica – o Sporting, com Rui Patrício rei e senhor da baliza, é a exceção. Quer no dragão, quer na águia, a inconstância na posição tem sido... uma constante. Com outro dado novo em relação a um passado mais ou menos distante: a aposta em guarda-redes jovens, em detrimento do até então incontestado veterano.

O Benfica, então, tem sido uma verdadeira roda-viva. E tudo começou em setembro – bem, na verdade tudo começou ainda na pré-temporada, com a venda milionária de Ederson, a chegada de Bruno Varela e a rábula de André Moreira, que chegou a estar mais de uma semana a treinar no Seixal e acabou por ser recambiado para o Atlético de Madrid, que por sua vez o emprestou ao Braga. Depois foi a lesão de Júlio César, mesmo antes da Supertaça, que obrigou Rui Vitória a lançar Bruno Varela às feras. O miúdo aguentou-se relativamente bem durante sete jogos, mas ao oitavo tudo ruiu: o frango que custou a derrota no Bessa afastou-o da titularidade.

Avançou o velhinho Júlio César. Durou quatro jogos, porque na calha já estava um outro elemento entretanto surgido: Svilar. Se Bruno Varela é um miúdo, o belga pode ser considerado uma autêntica criança: tem apenas 18 anos, mas aparenta ter mais dez, a julgar pelo discurso – basta lembrar que forçou a saída do Anderlecht, campeão belga em título, por considerar que já tinha estatuto suficiente para ser titular. Durou seis jogos. Oficialmente, a explicação para nova saída do onze prendeu-se com uma síndrome gripal que o afastou do jogo com o Vitória de Setúbal, para a Taça de Portugal, e do encontro em Moscovo com o CSKA, para a Liga dos Campeões, que marcou o triste adeus europeu dos encarnados. Em novo encontro com os sadinos, agora para o campeonato, porém, Svilar já estava disponível... mas Varela manteve a titularidade, depois da boa resposta dada nos dois encontros anteriores – um cenário que terá precipitado também a inusitada rescisão de contrato com Júlio César.

Sobre qual dos dois recairá a escolha de Rui Vitória amanhã no Dragão, isso só mesmo o treinador do Benfica poderá responder: é verdade que, em teoria, Bruno Varela deveria manter o lugar, pois respondeu “presente” nos últimos jogos; mas antes, também nada fazia prever que Svilar iria ser titular frente ao Manchester United, depois de ter apenas defrontado o Olhanense para a Taça. Neste caso, será mesmo esperar para ver.

No FC Porto, embora a rotação não encerre contornos tão radicais, também houve uma mudança a dar que falar. Depois de duas temporadas como titular indiscutível, Casillas começou esta da mesma forma mas, surpreendentemente, foi relegado para o banco no encontro da Liga dos Campeões com o Leipzig, na Alemanha. Tirando os jogos da Taça da Liga, com o Leixões, e da Taça de Portugal, frente ao Portimonense, é José Sá o titular das redes portistas desde 13 de outubro, e se nenhuma contrariedade acontecer com o guardião natural de Braga, será ele a começar o clássico de amanhã.

 

Baía é o mais jovem

Com Bruno Varela ou Svilar, este FC Porto-Benfica já irá entrar na história – recente e não só – como um dos que terá média de idades de guarda-redes mais baixa. José Sá tem 24 anos; Bruno Varela, 23 e Svilar, apenas 18. Caso sejam José Sá e Bruno Varela os escolhidos dos seus treinadores, a média de idades é de 23,5 anos – uma marca que não era atingida desde 27 de abril de 2014. quando nas meias-finais da Taça da Liga da temporada 2013/14, Luís Castro escalonou Fabiano Freitas (então com 26 anos) e Jorge Jesus escolheu Oblak (21 anos na altura).

Após pesquisa exaustiva de todos os jogos entre dragões e águias já disputados até agora – até onde é possível pesquisar, bem entendido –, o i encontrou apenas dois exemplos de jogos em que a média de idades dos dois guarda-redes titulares foi inferior: ambos com 22. Aconteceu na primeira jornada da temporada 1946/47, com Pinto Machado (então com 20 anos) na baliza encarnada e Barrigana (então com 24 anos) nas redes portistas, e tinha acontecido antes a 28 de junho de 1931, na final do Campeonato de Portugal de 1930/31. Aí, um imberbe Artur Dyson defendeu as redes do Benfica com apenas 19 anos – antes de se mudar para o rival Sporting –, enquanto Mihaly (ou Miguel) Siska era o guarda-redes do FC Porto, tendo então 25 anos.

Assim sendo, chegamos à conclusão de que este pode ser o clássico entre FC Porto e Benfica com a média de idades de guarda-redes mais baixa de sempre. Basta, para tal, que Sérgio Conceição mantenha José Sá no onze e que Rui Vitória dê a titularidade a Svilar: dessa forma, a média baixaria para um inédito registo de 21 anos, algo nunca visto no futebol português.

Há ainda outros registos, também notáveis, que Svilar pode bater. Como o de Vítor Baía, até agora o mais jovem guarda-redes a disputar um encontro entre dragões e águias: fê-lo aos 19 anos, na jornada 29 da época 1988/89, e conseguiu manter a baliza inviolada (o jogo terminou como começou: 0-0).

Além do antigo internacional português, há mais três casos de talentos precoces a surgir em embates entre Benfica e FC Porto: em 1969/70, João Fonseca defendeu a baliza encarnada com 21 anos – curiosamente, viria anos mais tarde a representar os dragões; em 1996/97, Hilário foi lançado por António Oliveira com a mesma idade; e em 2013/14, Oblak atuou no já referido encontro para a Taça da Liga. Mais notável ainda foi o caso de Moreira, que em 2002/03 defrontou o FC Porto com apenas 20 anos. Nenhum bateu Baía... mas todos podem ser batidos por Svilar. Tem a palavra Rui Vitória.